Os dez pedidos de perdão do Papa Francisco

Durante a missa em Dublin, o líder da Igreja Católica pediu perdão pelos abusos sexuais e pela forma como as mães solteiras e os seus filhos foram tratados nas instituições geridas por religiosos na República da Irlanda.

O Papa Francisco cumpriu a promessa e pediu perdão. Não uma, nem duas, mas dez vezes durante a missa no Phoenix Park, em Dublin, à qual assistiram dezenas de milhares de pessoas, no segundo e último dia da sua viagem à República da Irlanda.

"Ontem, estive reunido com oito pessoas sobreviventes de abuso de poder, de consciência e sexuais. Pegando no que me disseram, gostaria de pôr diante da misericórdia do Senhor estes crimes e pedir perdão por eles", disse o Papa em espanhol, num discurso que era depois traduzido em inglês para os presentes.

"Pedimos perdão pelos abusos na Irlanda, abusos de poder, de consciência, abusos sexuais por parte de membros qualificados da Igreja. De maneira especial, pedimos perdão por todos os abusos cometidos em diversos tipos de instituições dirigidos por religiosos e religiosas e outros membros da Igreja. E pedimos perdão pelos casos de exploração laboral a que foram submetidos tantos menores", acrescentou o Papa, que esteve na Irlanda para o Encontro Mundial de Famílias.

(Os pedidos de perdão do Papa Francisco a partir do minuto 14:20)

Desde 2002, mais de 14 500 pessoas revelaram ter sido vítimas de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica na República da Irlanda. Este escândalo, junto com o tratamento dado às "mulheres caídas" (termo usado para denominar as mães solteiras, algumas das quais faziam trabalho escravo nas chamadas Lavandarias Madalenas) e aos seus filhos, teve um impacto negativo no número de católicos irlandeses - representavam 93% da população em 1981 e são agora 78%.

Após a tradução das palavras de Francisco, ouviram-se aplausos. Mas os pedidos de perdão ainda não tinham acabado.

"Pedimos perdão pelas vezes que, como Igreja, não soubemos aos sobreviventes de abusos, qualquer tipo de compaixão, busca de justiça e verdade, com ações concretas. Pedimos perdão", disse o Papa.

Um dos pedidos feitos na véspera pelo primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, foi precisamente de justiça. "As feridas estão ainda abertas e há muito a fazer para que as vítimas e os sobreviventes obtenham justiça, verdade e recuperação. Santo Padre, peço-lhe que use a sua posição e influência para que assim se cumpra aqui na Irlanda e no mundo inteiro", disse Varadkar.

"Pedimos perdão por alguns membros da hierarquia da Igreja que não assumiram o controlo destas situações dolorosas e guardaram o silêncio. Pedimos perdão", afirmou o Papa, antes da homilia.

"Pedimos perdão pelas crianças que foram afastadas das suas mães e por todas aquelas vezes nas quais se dizia a muitas mães solteiras que tentaram procurar os filhos que lhes tinham sido retirados, ou aos filhos que procuravam as suas mães, que era 'pecado mortal'. Isto não é pecado mortal! É o quarto mandamento! Pedimos perdão", afirmou o Papa. A referência ao quarto mandamento, "honra o teu pai e a tua mãe", foi improvisada, não constando na tradução em inglês.

Este tinha sido precisamente um dos pedidos das vítimas com quem se encontrou no sábado, que deixasse claro que não era pecado as mães tentarem procurar os filhos. Uma sobrevivente presente, disse ainda que o Papa ficou "chocado" ao conhecer a realidade dos abrigos para mães solteiras e "não fazia ideia" do que eram as Lavandarias Madalena, onde as mulheres eram obrigadas a trabalhar.

No final do discurso, o Papa pediu "força para nos comprometermos a trabalhar para que nunca mais aconteçam [estes abusos] e para que a justiça seja feita".

Mais cedo, numa visita ao Santuário de Knock, o Papa já tinha "implorado" o "perdão do Senhor" pelas agressões sexuais na Irlanda perpetradas por padres católicos.

Encontro de famílias

Durante a homilia no maior parque urbano da Europa, o Papa falou do poder das famílias para mudar o mundo. "As vossas famílias são um lugar privilegiado e um importante meio para divulgar estas palavras como 'boa nova' para todos, através do testemunho das famílias cristãs, que tem o poder, em cada geração, de derrubar barreiras", disse Francisco.

O Papa falou do trabalho das famílias "para reconciliar o mundo com Deus" e "fazer de nós o que desde sempre estamos destinados a ser: uma única família humana que vive unida em justiça, santidade e paz", afirmou, na missa que marcou o final do Encontro Mundial de Famílias (o próximo será em Roma, em 2021).

Sobre os desafios dos cristãos, Francisco referiu a dificuldade de "perdoar sempre os que nos magoam", "o desafio de acolher sempre o migrante e o estrangeiro", mencionando ainda "como é doloroso suportar a desilusão, a rejeição ou a traição".

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