O que fez Merkel tremer? "À segunda vez, é motivo de preocupação"

A chanceler alemã voltou a ter um episódio de tremores em público, que não deixou o mundo (e a internet) indiferente. Afinal, o que poderá estar a causá-lo? O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar põe algumas hipóteses em cima da mesa - e descarta outras.

Não é a primeira vez que a chanceler alemã acusa sinais de fraqueza física em público. Já há cinco anos, uma entrevista de Angela Merkel estação de televisão alemã ZDF foi interrompida por a dirigente não se estar a sentir bem. Também em 2015, tinha caído de uma cadeira durante a visualização de uma peça no Festival Wagner.

Muito se especulou na altura, à semelhança do que está a acontecer com os mais recentes acontecimentos, em que a surge com fortes tremores no corpo durante aparições públicas. Num artigo publicado esta sexta-feira, no jornal El Mundo, vários especialistas apontam uma série de possíveis causas para os seus tremores. Assim como o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), que em entrevista ao DN garantiu que este é caso de preocupação. Exaustão, ansiedade, doenças neurodegenerativas ou mesmo Parkinson. As hipóteses parecem infinitas.

Há mais de uma semana, Merkel recebeu o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em Berlim. E o que tinha tudo para ser um encontro banal, acabou por lançar preocupações sobre as condições de saúde da dirigente. Num pequeno vídeo que circulou pelas redes sociais, é possível ver o seu corpo tremer descontroladamente, enquanto espera pelo presidente, no exterior. O episódio foi justificado pela falta de hidratação, num dia em que os termómetros da cidade alemã registavam os 30 graus, e o porta-voz da chanceler garantiu que a mesma "está bem". Contudo, esta quinta-feira, Angela Merkel voltou a tremer em público, desta vez durante uma cerimónia com o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, e já dentro de quatro paredes.

"Uma vez pode atribuir-se ao cansaço e à exaustão dos dias. Mas à segunda vez, num curto espaço de tempo, já é motivo de preocupação", disse o presidente da APMGF, em entrevista ao DN.

O médico Rui Nogueira explica que, olhando para cada episódio como isolado, é normal que tremer desta forma seja um sintoma de exposição em demasia ao calor, conjugado com fraqueza. "Podia ser por estar muitas horas sem comer ou sem beber água suficiente. Pelo cansaço, pelas poucas horas de sono. É possível", esclarece. "E, se calhar, com a rotina que ela leva, dá para juntarmos tudo isto."

Mas acrescenta que, nestes casos, uma noite de descanso seria suficiente para tornar o problema "resolvido". Se é possível que a chanceler não tenha tido oportunidade para descansar e, por isso, o momento se repetiu? "Não me acredito. Depois da primeira, e sendo uma figura pública, ficaria preocupado e teria o dobro do cuidado", disse. Além disso, apesar de a reação fisiológica ao calor ser uma das hipóteses em cima da mesa - e a dada pelos porta-voz oficiais -, durante esta quinta-feira as máximas registadas em Berlim não ultrapassaram os 19 graus.

Parkinson? "Há uma certa apatia na expressão facial dos doentes com esta patologia que não se verifica" na chanceler

"Não invalida indícios de Parkinson", disse ainda Rui Nogueira. Mas rapidamente adianta que acha "extremamente difícil que seja esse o caso", pois "há uma certa apatia na expressão facial dos doentes com esta patologia que não se verifica" em Angela Merkel. Uma leitura semelhante à da neurologista Teresa Maicas que, em declarações ao El Mundo, explicou que estes não se tratam de tremores típicos de Parkinson.

Os especialistas espanhóis adiantam a possibilidade de se tratar de uma crise de ansiedade. Mas o presidente da associação portuguesa não pondera essa hipótese. "Se fosse uma crise dessas, não passaria em breves minutos."

Não descura ainda a possibilidade de ser tudo causa de uma doença neurodegenerativa, mas confessa que "pode ser tantas outras coisas", como consequências do efeito de medicação, por exemplo. Avançar hipóteses será sempre um tiro no escuro, uma vez que não se conhece o histórico de saúde da dirigente alemã.

Em todo o caso, Rui Nogueira admite que "ficaria preocupado se fosse um familiar ou doente" seu. "É motivo para investigar", remata.

Já o porta-voz do governo alemão garantiu que Merkel está bem de saúde e que "não há razão para preocupação". "Lembrar-se do episódio da semana passada levou à situação de hoje [quinta-feira], é um processo psicológico", assegurou.

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