O outro Dia D: o esmagar dos nazis pelos soviéticos a Leste

Faz agora 75 anos que na Operação Bagration o Exército Vermelho se lançou sobre as tropas de Hitler. Mas ofensiva é esquecida no Ocidente, que destaca sempre o desembarque na Normandia, três semanas antes

José Estaline tinha-se comprometido um ano antes na cimeira de Teerão com Franklin Roosevelt e Winston Churchill e cumpriu: três semanas depois do desembarque na Normandia, o Exército Vermelho lançava todo o seu poder contra os nazis avançando na Bielorrússia, um segundo Dia D, com 1,2 milhões de soldados. Batizada de Operação Bagration, em homenagem a um general czarista que combateu Napoleão, a ofensiva iniciada da noite de 22 para 23 de junho na frente leste revelou-se tão ou mais importante do que a de dia 6, a Operação Overlord, tão celebrada por Hollywood, com filmes como O Dia Mais Longo ou O Resgate do Soldado Ryan. Terão morrido 4400 soldados aliados nas primeiras 24 horas de ocupação das praias francesas, mais de metade deles americanos.

Passam agora 75 anos sobre a Bagration, e de novo se constata que é quase desconhecida no Ocidente, apesar de ter resultado na destruição de 28 das 38 divisões alemãs envolvidas. O Exército Vermelho envolveu no ataque mais de um milhão de homens, além de números impressionantes de tanques, peças de artilharia e aviões. Em 2014, quando se celebraram os 70 anos do desembarque na Normandia, onde esteve o presidente russo Vladimir Putin, já jornais como o britânico Guardian tinham alertado para a importância do outro Dia D, dizendo que era una data esquecida no Ocidente, apesar de ter obrigado a Wehrmacht a recuar 700 quilómetros, ficando Minsk, libertada, para trás, Varsóvia ao alcance e Berlim na mira. As baixas alemãs ultrapassaram o meio milhão, incluindo 100 a 150 mil prisioneiros de guerra. Há historiadores que falam de 800 mil baixas entre os combatentes da União Soviética.

"A operação militar ofensiva Bagration, uma das mais épicas não só na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945, mas talvez em toda a história da humanidade, resultou na derrota definitiva do maior agrupamento das forças hitleristas "Centro" e na libertação dos territórios da Bielorrússia, Lituânia, e Leste da Polónia dos invasores nazis", afirma o embaixador russo em Portugal. E, acrescenta Mikhail L. Kamynin, "desenvolvendo o êxito da defesa de Moscovo (setembro de 1941 - abril de 1942) e de Estalingrado (julho de 1942 - fevereiro de 1943), esta evidenciou já o início irreversível do fim do Terceiro Reich, cujas perdas na batalha de inimaginável envergadura se tornaram determinantes".

Ainda nas palavras do diplomata russo, "Acredito, porém, que o fator principal do sucesso foi muito mais o patriotismo dos soldados do Exercito Vermelho do que a sua força militar bruta. Levada a cabo pela URSS de 23 de junho a 29 de agosto de 1944, a operação tem uma referência muito emblemática ao nome do grande chefe militar da Rússia Piotr Bagration (1765-1812). Após o infeliz e grave ferimento na batalha de Borodino, nos arredores de Moscovo, no decorrer da Guerra Patriótica de 1812 contra as tropas napoleónicas, ele dera a sua vida por uma causa justa - defender a Pátria dos agressores externos. Foi o mesmo nobre sentimento patriótico, fonte da força invencível, que uniu o povo soviético multinacional na guerra contra a peste castanha, este inimigo abominável de todos os seres humanos".

Na Rússia filmes recentes sobre a guerra como T-34, sobre a tripulação de um tanque, têm sido grandes sucessos de bilheteira, servindo também para reforçar o orgulho patriótico. Calcula-se que 20 a 27 milhões de soviéticos morreram durante a Segunda Guerra Mundial, o número mais elevado entre todos os países beligerantes. E quatro em cada cinco russos tiveram um familiar diretamente envolvido no conflito, como Putin, cujo pai foi combatente.

A conjugação das operações Overlord e Bagration foi decisiva para a derrota nazi, que só aconteceu em maio de 1945. O complô fracassado contra Hitler por parte de oficiais alemães aconteceu logo depois. O Führer tomou uma série de decisões militares erradas, recusando ouvir os generais.

Estaline, ao contrário de Adolfo Hitler, entregara o comando das operações aos generais. Como disse em entrevista ao DN o historiador britânico David Andrews, "Estaline é fascinante. Ele começou a gerir a guerra como se espera de um ditador totalitário paranóico. A controlar a sua arena política. Mas à medida que a guerra avançava e que ele sofria uma depressão mental na altura da Operação Barbarossa, quando se percebeu que não ia ser derrubado pela Stavka, pelo resto do Politburo, e que os chefes militares foram à sua datcha pedir-lhe para assumir o comando, ele passou a gerir a guerra de uma forma muito menos hitleriana ou mussoliniana. Passou a ouvir os seus marechais. E ouvia também pessoas no politburo. Ele começou a guerra como se esperaria de um ditador totalitário mas evoluiu, sendo capaz de interagir com as outras pessoas e de ouvir conselhos."

A Operação Bagration iniciou-se três anos exatos depois da invasão da União Soviética pelos nazis, a Operação Barbarossa. Até então, Hitler e Estaline tinham respeitarado o Pacto de Não-Agressão, e com a França ocupada e os Estados Unidos ainda neutrais houve um momento em que só o Reino Unido resistia à Alemanha, tempos de inspirada liderança de Churchill.

Permanece entre os historiadores e a opinião pública a eterna questão de quem mais fez pela derrota de Hitler. Nisto, os dois Dias D de Junho de 1944 terão sido decisivos, pois impediram os nazis de pôr todos os recursos numa só frente. Também se especula se a Guerra Fria não estava já presente nos cálculos militares de um lado e do outro, explicando as decisões com base na futura rivalidade entre americanos e soviéticos. O Exército Vermelho, por exemplo, não veio em socorro da insurreição de Varsóvia, o que pode ser explicável por estar desgastado demasiado para entrar na capital polaca, mas Estaline podia ter ordenado mais assistência e facilitado o apoio britânico e americano se não pensasse já em esfera de influência futura. O próprio Guardian, no tal artigo de 2014, fala de como a Guerra Fria terá começado em junho de 1944, só terminando em 1991, quando a União Soviética se fragmentou e a Rússia ressurgiu como sua grande herdeira.

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