"Portugal mantém a posição a favor do levantamento do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba"

Entrevista a Mercedes Martinez Valdés, embaixadora de Cuba em Portugal, que fala da relação diplomática centenária entre os dois países, da situação na Venezuela, também da memória de Eça de Queiroz na ilha, onde foi cônsul no tempo da colonização espanhola.

Cuba e Portugal celebram agora cem anos de relações diplomáticas. Em que contexto aconteceram?

Há uma hipótese que diz que Cristóvão Colombo, que chegou a Cuba no ano de 1492, era português; mas o certo é que as nossas relações datam de antes de 1838. Já com a República, no ano 1919, os nossos dois países modificam o status das suas respetivas legações. No caso da representação consular que existia em Portugal, passa a ser uma sede diplomática e Luis Rodolfo Miranda La Rúa é designado Embaixador de Cuba em Portugal.

Como se explica que mesmo depois da Revolução Cubana e até o 25 de Abril em Portugal as relações se tenham mantido, mesmo com ideologias tão opostas das lideranças de Havana e de Lisboa durante década e meia?

Cuba mantém as suas relações bilaterais com independência da ideologia dos países. A politica exterior cubana, depois do triunfo da Revolução cubana, tem estado sustentada sobre princípios básicos, entre eles o respeito à soberania nacional e a não-ingerência nos assuntos internos dos países, princípios que ainda hoje defendemos. No entanto, nesse período as nossas relações estiveram a um nível mais baixo, sendo Cuba representada em Lisboa por um encarregado de negócios.

Relações políticas, económicas e culturais. Quais são os pontos fortes atuais?

É uma conjugação de fatores que tem vindo a reforçar o relacionamento em todas as áreas. Ao nível político, o intercâmbio de visitas de alto nível. O governo de Portugal mantém a sua posição em favor do levantamento do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba e o apoio ao Acordo de Diálogo Político e Cooperação União Europeia-Cuba. Recentemente, o MNE lamentou a decisão do governo dos Estados Unidos de autorizar a aplicação do Título III da lei Helms-Burton. No âmbito cultural tem-se realizado em Cuba e Portugal concertos, exposições de artistas, mostras de cinema e outros eventos. Os artistas cubanos residentes em Portugal, embaixadores da nossa cultura em território luso muito têm contribuído à promoção do nosso país. Cuba fornece serviços médicos em diferentes regiões de Portugal. As empresas continuam a comerciar com Cuba e o intercâmbio comercial tem crescido. A Câmara de Comércio Portugal-Cuba conta com mais de 100 empresas associadas e muitas delas e outras participam na Feria Internacional de Havana FIHAV.

Música, literatura, tratamentos médicos. O soft power é cada vez mais importante para um país pequeno como Cuba?

A Revolução potencia, mesmo desde o seu início, o acesso de todos os cubanos ao ensino e a cultura, motivo pelo qual hoje desfrutamos dos resultados destas políticas de governo na arte, na educação, nas ciências e na saúde. São sucessos dos quais nos orgulhamos e que também fazem parte do nosso modesto contributo para o desenvolvimento de outros países.

Cuba reconhece Nicolás Maduro como legítimo presidente da Venezuela, Portugal, tal como a maioria dos países da União Europeia, optou por reconhecer recentemente Juan Guaidó como presidente interino. Como lidam as duas diplomacias com uma diferença deste género?

As diplomacias dos nossos dois países enfocam-se no que nos une e não no que nos divide. Cuba reitera a sua firme e invariável solidariedade com o Presidente Constitucional Nicolás Maduro Moros, a Revolução Bolivariana e Chávez e a união cívico-militar do seu povo e rejeita qualquer ingerência externa nos assuntos que só correspondem aos venezuelanos solucionar. Tanto Cuba como Portugal tem manifestado que não é aceitável uma intervenção militar na Venezuela.

Voltando de novo à história. Ainda no tempo colonial espanhol, Eça de Queiroz foi cônsul em Havana. E terá deixado uma imagem positiva nos cubanos que dura até hoje, como ainda há dias relembrou numa entrevista ao DN o embaixador Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões. É mesmo assim? Que fez o diplomata escritor para merecer esse respeito do povo cubano?

Num café que Eça costumava frequentar, em pleno centro histórico da cidade de Havana, há um painel de azulejos com a sua figura. Em Cuba, Eça escreveu Singularidades de uma rapariga loira e, como cônsul, enviava os relatórios sobre as condições de vida dos milhares de chineses, recrutados em Macau para trabalhar no cultivo da cana-de-açúcar, numa situação muito próxima da escravatura que tentou aliviar. Na literatura, é reconhecida a sua influência nos escritores e jornalistas cubanos do início do século XX.

Para finalizar, uma pergunta mais pessoal. Está agora como embaixadora em Portugal, mas é a sua segunda missão como diplomata no país. Sentiu grandes mudanças de uma época para outra? E em relação a Cuba, como vê a atitude em geral das autoridades, mas também da opinião pública portuguesa?

Encontrei um Portugal muito mais lindo; com um grande investimento na recuperação do património. Os portugueses também muito confiantes no futuro seguro das suas capacidades, da qualidade dos seus produtos e serviços e das grandes potencialidades do país. Os portugueses conhecem Cuba, o que tem muito a ver com o crescimento significativo do turismo. Percebe-se um maior interesse na cooperação e o intercâmbio. Nota-se também uma simpatia entre o povo cubano e o português, uma admiração mútua pelas nossas culturas e a nossa historia, temos muito em comum e acho que é isso, essa amizade, o principal motivo para celebrarmos este ano.

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