Shutdown. Sem dinheiro e sem trabalhar, já se vende fiado nos EUA

O mais longo shutdown da história dos EUA entrou na quinta semana e famílias de funcionários que estão sem receber começam a passar dificuldades. Histórias de solidariedade multiplicam-se. No Twitter o hashtag #Shutdwonstories está a ser usado por cidadãos norte-americanos para contar as suas histórias pessoais

O presidente norte-americano Donald Trump diz que o shutdown, já o mais longo da história dos EUA, pode demorar meses ou até mesmo anos. Na sua quinta semana, é já o mais longo de sempre, começando a provocar o desespero entre os funcionários federais que estão sem receber pagamento e as suas famílias. Enquanto a guerra por causa do financiamento do muro EUA-México prossegue, entre republicanos e democratas, os norte-americanos começaram a partilhar as suas histórias pessoais no Twitter acompanhadas do hastag #Shutdownstories.

"Olá! Eu sou um pós-doutorado num laboratório federal. Não consigo aceder à minha investigação ou pagamento. Há 26 dias. Agora outras pessoas em pós-doutoramento (NASA, NPFs, NSF) também estão a ser afetados. Somos uma geração de cientistas. Merecemos melhor do que isto", escreveu na sua conta de Twitter Beck Strauss. Com o hashatg #Shutdownstories no fim da publicação.

"Hoje é um dia de merda. Este shutdown do governo está a afetar-nos e espera-se que ainda piore mais. Recebemos uma carta do nosso condomínio a dizer que a nossa renda está em atraso. Apesar do que as pessoas possam pensar, não estamos a nadar em dinheiro. Culpo Trump/McConnell", escreveu, por sua vez, um procurador, referindo-se ao chefe do Estado norte-americano e o líder dos republicanos no Senado.

"Sou um veterano do Exército dos EUA e funcionário federal, pagamento a conta-gotas é uma porcaria. Tenho pagamentos das prestações do carro e da casa a cair em breve. Já fui às minhas poupanças e o que tenho em meu nome neste momento são 11.37 dólares. Quando é que isto vai acabar? Os meus filhos dependem de mim para lhes pôr comida na mesa", desabafa Ray Acala, naquela rede social. "A nossa empresa acabou de receber um aviso: 'A cobertura do seguro de saúde está assegurada até ao final de janeiro'. Não só perdemos o nosso salário como também vamos perder agora o nosso seguro de saúde!", conta Marianne Guttinger, mais um tweet com o hashtag #Shutdownstories.

Entretanto, funcionários do FBI começaram a abrir bancos alimentares, um pouco por todo o país, para ajudar os seus agentes e as famílias. Dallas, Newark, New Jersey, Washington são alguns dos sítios onde isso está acontecer, contou uma reportagem da CNN. "Estamos nisto juntos e estamos a unir-nos para nos ajudar-nos uns aos outros da melhor forma possível", disse Melinda Urbina, porta-voz do FBI em Dallas, onde um grupo de funcionários voluntários começou a reunir massas e outros bens alimentares para distribuir. Segundo a CNN, cerca de 35 mil funcionários do FBI não receberam salário na semana passada.

Também a empresa alimentar Kraft Foods, do grupo Kraft Heinz Company, abriu esta quarta-feira uma loja em Washington chamada "Kraf Now, Pay Later", vendendo fiado. Funcionários federais que mostrem o cartão de funcionário da Administração podem levar para casa um saco com produtos da Kraft, como queijo e outros condimentos. "Durante o shutdown, os pais não devem preocupar-se em pôr comida na mesa por não estarem a receber os pagamentos. A Kraft está ao lado das famílias e queremos ajudá-las", afirmou Sergio Eleuterio, diretor de marketing da Kraft.

Cerca de 800 mil funcionários federais e milhões de contratados do governo dos EUA estão a ficar sem rendimentos porque os salários não estão a ser pagos devido à paralisação da Administração por falta de orçamento. Mais de 1500 funcionários estão a pedir donativos através do GoFundMe para pagar rendas, despesas de saúde ou simplesmente comprar comida, nota um artigo da Business Insider.

Também o PayPal acabou de anunciar que vai isentar de taxas operações de cash advance feitas por funcionários do governo norte-americano afetados pelo shutdown, prevendo, para esse fim, um fundo de até 25 milhões de dólares.

Enquanto tudo isto se passa, prossegue a guerra entre republicanos e democratas, a atingir o seu auge máximo na disputa Trump-Nancy Pelosi. A presidente da Câmara dos Representantes, democrata, pediu a Trump que cancele o discurso do estado da União, previsto para dia 29, devido aos condicionalismos provocados pelo shutdown em curso nos EUA. Em troca, o presidente, republicano, cancelou a visita de Pelosi ao Afeganistão. Depois de ter perguntado no Twitter "Porque é que Pelosi continua a receber e o resto das pessoas não?".

"Devido ao shutdown, lamento informar que a sua viagem a Bruxelas, Egito e Afeganistão foi adiada (...) Durante este período, talvez fosse melhor manter-se em Washington para negociar comigo e juntar-se ao movimento Strong Border Security para acabar com o shutdown. Obviamente, que se quiser fazer a sua viagem num voo comercial, estará certamente no seu direito! (...)", escreveu Trump, de 72 anos, numa carta dirigida a Pelosi, de 78 anos. A missiva foi partilhada pela porta-voz de Trump, Sarah Sanders, no Twitter.