Natal de protesto no Peru após libertação de Fujimori

Familiares de vítimas e oposição falam de pacto entre família Fujimori e atual presidente, que sobreviveu, há dias, a destituição

A noite de Natal no Peru foi diferente do que é habitual. Centenas de pessoas saíram às ruas de Lima, a capital do país andino, para protestar contra o indulto concedido a Alberto Fujimori pelo atual chefe do Estado peruano. Pedro Pablo Kuczynski decidiu libertar o ex-ditador por razões humanitárias, três dias depois de ter sobrevivido a uma tentativa de destituição. Os manifestantes que saíram à rua na praça central de San Martín consideraram o indulto um ato de impunidade e denunciaram um pacto político com a família Fujimori para que o atual presidente possa continuar no poder.

Kuczynski não caiu graças à abstenção, in extremis, de um dos filhos de Fujimori, Kenji, mais nove eleitos do Força Popular, partido que é liderado pela irmã deste, Keiko Fujimori. E o qual promovera o pedido de destituição. Ex-funcionário do Banco Mundial e do FMI, Kuczynski enfrentou a destituição por ter ocultado pagamentos da brasileira Odebrecht a empresas ligadas a si entre 2004 e 2013.

"Aconteceu o que já se previa. Um triste espetáculo. Um infame pacto político por baixo da mesa. Não se discute o fim, mas o meio vergonhoso de o fazer como uma troca comercial de não destituição por um indulto", escreveu no Twitter o parlamentar Andrés García Belaunde, do partido Ação Popular, sobre o perdão a Fujimori. Presidente do Peru entre 1990 e 2000, o político de origem japonesa, hoje em dia com 79 anos, foi condenado a 25 anos de prisão após ser responsabilizado pela morte de 25 pessoas em 1991 e 1992 - que foram perpetradas pelo grupo paramilitar encoberto Colina. E ainda pelo sequestro de um jornalista e de um empresário em 1992. Esquadrão anticomunista, o grupo Colina foi responsável por vários massacres, como o de Barrios Altos, onde foram assassinadas 15 pessoas que tinham sido tomadas por apoiantes do Sendero Luminoso (grupo de inspiração maoista).

"Senhor presidente [Kuczynski], você acaba de nos roubar a nossa tranquilidade e o nosso direito à justiça ao oferecer um indulto que não é merecido a Fujimori. Há 25 anos que não temos Natal e há ausências que são dolorosas", escreveu no Twitter Gisela Ortiz, irmã de um dos estudantes que desapareceram da universidade de La Cantuta em 1991 - um dos casos que levaram Fujimori à cadeia. "[Kuczynski] acaba de perpetrar uma traição vil contra a pátria", afirmou a líder do partido Novo Peru, Verónica Mendoza.

Declarações diferentes vieram da parte de Kenji Fujimori, que já tinha pedido várias vezes um indulto para o pai depois de uma junta médica ter estabelecido que o ex-ditador sofria de "doença progressiva, degenerativa e incurável". No Twitter e no Facebook, o filho de Fujimori agradeceu ao presidente Pedro Pablo Kuczynski pelo "seu gesto nobre e magnânimo. Estamos eternamente agradecidos. Que Deus o abençoe". Kenji Fujimori informou que o pai, que estava preso há dez anos, "continuará na unidade de cuidados intensivos até a sua total recuperação". Num vídeo, já com ele, diz: "Dentro de dias desfrutará da liberdade que merece e envia-vos os melhores desejos de um feliz Natal."

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?

Premium

Catarina Carvalho

O populismo na campanha Marques Vidal

Há uma esperança: não teve efeito na opinião pública a polémica da escolha do novo procurador-geral da República. É, pelo menos, isso que dizem os estudos de opinião - o número dos que achavam que Joana Marques Vidal devia continuar PGR permaneceu inalterável entre o início do ano e estas últimas semanas. Isto retirando o facto, já de si notável, de que haja sondagens sobre este assunto.