Musk chama "pedófilo" a mergulhador que lhe tinha dito para enfiar submarino "onde dói"

O resgate foi um sucesso, mas a relação entre o dono da Tesla e um dos mergulhadores que ajudou a retirar o grupo de rapazes de uma gruta na Tailândia é tudo menos pacífica

Elon Musk e um dos mergulhadores que ajudou a salvar a equipa de futebol encurralada numa gruta na Tailândia estão em pé de guerra. O britânico Vern Unsworth criticou o mini-submarino que o milionário norte-americano construiu para ajudar nas operações de resgate e acusou Musk de ter usado o caso para um "golpe de relações públicas". O fundador da Tesla e da Space X "contra-atacou" e não poupou nas palavras. Chamou-o de "pedófilo" numa publicação do Twitter, publicada no domingo, que entretanto apagou.

O mergulhador já revelou, citado no Guardian, que está a pensar se vai ou não processar Musk, por um insulto para o qual não apresentou qualquer prova ou argumento.

"Peço desculpa, pedófilo, estavas mesmo a pedi-las"

"Ele pode enfiar o submarino onde dói", tinha dito o mergulhador britânico, de 63 anos, numa entrevista à CNN, na qual teceu duras críticas a Musk e às cápsulas submarinas que criou para a operação de resgate. "Não tinha absolutamente nenhuma hipótese de funcionar. Ele não tinha nenhuma noção de como era a passagem na caverna. O submarino tinha cerca de um metro e meio de comprimento, era rígido, não conseguiria passar em esquinas ou qualquer outro obstáculo. Ele não teria feito os primeiros 50 metros na caverna a partir do ponto inicial do mergulho. É apenas um truque de relações públicas", atirou o mergulhador britânico Vern Unsworth.

A resposta não tardou. "Peço desculpa, pedófilo, estavas mesmo a pedi-las", escreveu o norte-americano na rede social, de acordo com o The Guardian . O fundador da Tesla apagou a publicação, mas o insulto, sem contextualização, não passou despercebido pelos utilizadores da rede social.

Segundo a CNN, Elon Musk não se ficou por aqui. Após as criticas dos internautas ao ataque do norte-americano, o fundador do Tesla reforçou o insulto. "Aposto um dólar assinado que é verdade", escreveu na rede social, uma publicação que também foi apagado.

O milionário da indústria automóvel e espacial ofereceu ajuda para resgatar as 12 crianças e o seu treinador, que estiveram presos 17 dias numa gruta em Tham Luang, no norte da Tailândia.

Na rede social Twitter, o norte-americano revelou que tinha construído cápsulas submarinas e que estas tinham sido testadas numa piscina em Los Angeles.

Segundo o plano de Musk, dois mergulhadores especializados levariam uma cápsula com um jovem no seu interior. A cápsula tem várias pegas às quais se ajustam correias que os mergulhadores atariam à cintura.

Os rapazes acabaram por ser todos resgatados a 10 de julho sem o uso dos mini-submarinos de Musk, que foram recusados pelo chefe de operações.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.