Demissões em cadeia no governo de May. "Vamos sair da UE a 29 de março"

Ministro para o Brexit e ministra do Trabalho e secretário de Estado para Irlanda do Norte bateram com a porta no dia a seguir à aprovação do acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia.

Antes do meio-dia, cinco demissões no governo britânico. Esta quinta-feira começou com estrondo para Theresa May, que ontem conseguira chegar a um acordo com a UE para o Brexit, acordo esse que teve o apoio de um governo altamente dividido. O primeiro a demitir-se foi secretário de Estado para a Irlanda do Norte, Shailesh Vara, seguido por Dominic Raab, o ministro que tutelava as negociações para o Brexit. Depois foram Esther McVey, ministra do Trabalho, Suella Braverman, ministra-adjunta para o Brexit, e ainda Anne-Marie Trevelyan, assessora no ministério da Educação.

A contestação ao acordo (cujo projeto pode ser lido aqui) aprovado pela primeira-ministra britânica está a subir de tom e muitos deputados conservadores estarão mesmo a equacionar a apresentação de uma moção de censura a Theresa May.

Dominic Raab foi o primeiro dos ministros a apresentar a demissão do cargo esta quinta-feira, alegando que não pode, "em consciência", apoiar o rascunho do acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia.

Raab anunciou a resignação no Twitter, tornando pública a carta de demissão que enviou a Theresa May.

"Lamento dizer que, no seguimento da reunião do governo de ontem a propósito do acordo para o Brexit, tenho de me demitir. Compreendo porque escolheu prosseguir com o acordo com a UE nos termos propostos, e respeito as diferentes visões defendidas em boa-fé por todos os nossos colegas", refere Raab na missiva enviada à primeira-ministra britânica. "Da minha parte, não posso apoiar o acordo proposto por duas razões. Primeiro, acredito que o regime regulatório proposto para a Irlanda do Norte representa uma ameaça muito real à integridade do Reino Unido. Segundo, não posso apoiar um acordo indefinido com uma barreira, em que a União Europeia tem um veto em relação à nossa possibilidade de saída", escreveu.

O ponto mais controverso do projeto de acordo diz respeito às disposições para impedir o regresso de uma fronteira física entre a região britânica da Irlanda do Norte e a vizinha República da Irlanda, membro da União Europeia.

O secretário de Estado para a Irlanda do Norte também pediu demissão, na sequência do acordo para o Brexit alcançado ontem.

Shailesh Vara anunciou também a demissão no Twitter. "Com muita tristeza, submeti a minha carta de demissão à primeira-ministra", escreveu.

O deputado conservador disse que o acordo preliminar firmado com Bruxelas pela primeira-ministra britânica, Theresa May, deixa o Reino Unido a meio do caminho, sem um limite de tempo que determine quando o país finalmente se tornará um Estado soberano.

"Este acordo não permite que o Reino Unido seja um país soberano e independente", lamentou.

O deputado conservador disse que o acordo preliminar firmado com Bruxelas pela primeira-ministra britânica, Theresa May, deixa o Reino Unido a meio do caminho, sem um limite de tempo que determine quando o país finalmente se tornará um Estado soberano.

"Este acordo não permite que o Reino Unido seja um país soberano e independente", lamentou.

"Estaremos bloqueados indefinidamente num acordo alfandegário limitado por regras determinadas pela UE sobre as quais não daremos a nossa opinião", disse ainda Shailesh Vara. Pior do que isso, segundo Vara, é que o Reino Unido não "será livre para deixar o acordo aduaneiro unilateralmente", se assim o desejar.

"Somos uma nação orgulhosa e é um dia triste quando nos vemos reduzidos a obedecer às regras de outros países que mostraram que não zelam pelos nossos interesses", disse Vara.

Theresa May anunciou na noite de quarta-feira que tinha conseguido o apoio do governo para o acordo sobre a saída da União Europeia, após uma reunião de cinco horas. Mas vários governantes terão manifestado reservas, ainda que não as tenham exposto publicamente.

Raab, que era apoiante da saída do Reino Unido da UE, foi promovido a ministro para o 'brexit' com a saída de David Davis, quando este decidiu abandonar o cargo no passado mês de julho em protesto devido aos planos de Theresa May para a saída da UE.

May: Podemos sair sem acordo ou arriscar não ter Brexit"

A primeira-ministra britânica foi ao parlamento responder às perguntas dos deputados sobre o acordo, numa sessão em que foi apupada por várias vezes e em que os deputados responderam com gargalhadas irónicas às várias declarações que ia fazendo.

Os deputados britânicos insistem em voltar a dar a palavra aos eleitores, visto que é claro que May não terá o apoio do Parlamento para passar o acordo de Brexit, mas May insistiu que o Reino Unido sairá da UE a 29 de março de 2019 e que, depois disso, começa o período de transição no qual nada muda, para permitir que as empresas e os negócios se adaptem e começar a negociar a futura relação entre ambos os blocos.

"Esta casa [Parlamento] escolheu consultar os eleitores do Reino Unido sobre se queriam permanecer dentro da UE. Houve um voto para sair da UE. Os britânicos votaram, em números que nunca vimos antes. E sempre foi o meu ponto de vista que voltar a consultar os britânicos não é correto. Demos às pessoas a eleição e temos que atuar sobre a decisão que tomaram", disse.

A primeira-ministra britânica garantiu também que não haverá extensão do período de implementação do artigo 50. O artigo 50 da Tratado de Lisboa dá um prazo de dois anos para negociar a saída da União Europeia. O prazo acaba a 29 de março de 2019.

Com Susana Salvador

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