"Lolita Express". Alegada recrutadora da rede de Epstein passou pelos Açores

Aos 15 anos foi da antiga Jugoslávia para os EUA. Terá começado como escrava sexual para depois passar a ser uma das recrutadoras do multimilionário norte-americano acusado de ter criado uma rede de abusos sexuais de menores

Loira e de olhar sedutor, Nadia Marcinko podia ser a protagonista de uma história de sucesso de uma antiga modelo da Europa de leste que vingou nos EUA, mas o seu percurso foi outro, sinistro e longe dos holofotes das passarelas mundiais. Acredita-se que foi uma das escravas sexuais de Jeffrey Epstein e que acabou por ser recrutadora do multimilionário norte-americano para a sua rede de tráfico sexual de menores. Epstein está detido e a antiga modelo é agora piloto e CEO de uma empresa de aviação.

Marcinko terá feito inúmeras viagens de avião, com e sem multimilionário, que, suspeita-se, terão servido para levar raparigas, menores de idade, até às luxuosas propriedades de Epstein, como as casas de Manhattan, Nova Iorque e Palm Beach, palco dos abusos sexuais. O nome de Nadia Marcinko aparece no registo de vários voos dos aviões que faziam parte da frota do milionário - entre os quais o jato privado denominado "Lolita Express" - mais tarde seria identificada só por "NM", iniciais que, segundo o site Wired, indicam que esteve em vários aeroportos, entre os quais o das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores.

O arquipélago português poderá ter sido, segundo a reportagem, um dos locais suspeitos das movimentações do empresário norte-americano nesta rede de tráfico sexual. O milionário chegou a registar 600 horas de voo por ano, que terá justificado com viagens de negócios, "oportunidades de investimento, referiu a revista New York.

Além das suas mansões, a ilha Little St. James, nas Caraíbas, uma das propriedades do milionário, também conhecida como a "ilha dos pedófilos" ou a "ilha das orgias", foi onde terá cometido os crimes de que é acusado.Um funcionário de uma pista em St. Thomas disse à Vanity Fair que o empresário era visto regularmente a sair do seu helicóptero ou a entrar no seu jato privado com "crianças do sexo feminino".

O empresário norte-americano, amigo de personalidades influentes como Donald Trump e de Bill Clinton, foi detido no início do mês de julho por tráfico sexual de menores e conspiração para cometer esse crime, entre 2002 e 2005.

em 2008, o milionário tinha sido acusado de abusar de dezenas de raparigas menores e de tráfico sexual. Epstein aceitou um acordo, declarou-se culpado de procurar menores para prostituição e dessa forma reduziu as acusações, tendo sido condenado a 13 meses de prisão. Na altura, Nadia Marcinko foi considerada uma das quatro mulheres cúmplices do empresário. Nenhuma foi condenada, tendo-lhes sido oferecida imunidade em troca de colaboração.

Um advogado que representou as alegadas vítimas de Epstein descreveu então Nadia como uma "escrava sexual que vivia com Epstein", num processo que decorreu no tribunal da Flórida. Várias raparigas disseram à polícia de Palm Beach que Marcinko as pressionou também a fazer sexo com ela e com Epstein, conta a Wired.

Epstein, segundo um advogado de várias alegadas vítimas, continuou a "ter contacto sexual impróprio" com jovens mulheres depois daquela condenação.

Está agora detido a aguardar julgamento. De acordo com a acusação, Epstein "explorou sexualmente e abusou de dezenas de menores nas suas casas em Manhattan, Nova Iorque e Palm Beach, na Florida, entre outros lugares, durante vários anos".

É acusado de "criar uma ampla rede de vítimas menores de idade para explorá-las sexualmente". Eram cerca de 40 e pagava a algumas delas para recrutar outras raparigas que seriam vítimas de abusos semelhantes.

Ilha nas Caraíbas foi usada por Epstein para praticar os abusos

O esquema passa por pagar-lhes por um serviço de massagens, mas acabava por as forçar a ter relações sexuais consigo ou com uma mulher jovem descrita como "escrava sexual". Abusos que ocorriam num bairro nobre de Manhattan, o Upper East Side, e na sua residência em Palm Beach, para onde as vítimas eram transportadas no seu jato privado. Mas acredita-se que existam muitos outros locais que faziam parte desta rede.

As raparigas menores eram recrutadas pelos assistentes pessoais de Epstein e, em alguns casos, acabavam por se tornar recrutadoras.

Nadia Marcinko seria então uma das recrutadoras do multimilionário, responsável por levar várias raparigas até às mansões de Epstein para serem abusadas sexualmente.

Do leste europeu, esta mulher que outrora usou o apelido Marcinkova desfilou pelo mundo obscuro de Epstein acabando por ser uma figura misteriosa nesta história. Não faz comentários e recusa falar com jornalistas.

Tornou-se piloto em 2013 e é CEO da Aviloop, uma empresa de aviação que presta vários serviços. Os escritórios estão situados não muito longe da "casa de horrores" de Epstein, como o site Wired classifica a residência do milionário, onde foi encontrada CD's com fotos de jovens mulheres.

"Quando Nadia estava pronta para passarelas maiores, ela tornou-se instrutora de voo licenciada", diz a biografia publicada no site da Aviloop. Mas Marcinko terá sido muito mais do que uma simples piloto nesta história que tem ainda muito para revelar.

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.