"Lamento que não haja uma melhor oposição"

Entrevista a Mátyás Sárközi, escritor e jornalista húngaro, que esteve em Lisboa para falar sobre a revolução de 1956 contra a ocupação soviética numa iniciativa da Embaixada da Hungria e da Universidade Católica que assinalou o 60.º aniversário desta insurreição.

Foi forçado a deixar a Hungria, em 1956, no quadro de uma situação de violência e perseguição. Como vê a atual crise dos refugiados?

Uma coisa é a vinda dos naturais dos países do Médio Oriente e outra é a dos provenientes da Europa Central e do Leste, que vão, preferencialmente, para o Reino Unido e que talvez nunca mais voltem aos seus países. Há mais de 450 mil húngaros e um milhão de polacos no Reino Unido. Estamos a falar de pessoas com cursos de Informática, Direito e Engenharia e que trabalham como empregados de café e restaurantes. Isso é negativo. Digo aos meus compatriotas: aprendam inglês, poupem algum dinheiro e voltem para a Hungria, mas não estão interessados nisso, sentem que não há oportunidades no país.

E os do Médio Oriente?

Posso falar-lhe sobre a posição do governo de Viktor Orban. O partido dele, Fidesz, tem hoje um grande rival, o Jobbik, e Orban está obrigado a recorrer à carta do nacionalismo por causa das legislativas de 2018. A oposição dele aos migrantes muçulmanos não deixa de ter razão, até pela sua dimensão. A migração de muçulmanos representa um perigo: o da alteração da natureza da Europa. Espanta-me que o governo alemão esteja a autorizar a construção de tantas mesquitas, que podem servir para disseminar ideias radicais. Ao contrário dos refugiados de 1956, estes querem recriar o seu mundo nos países de acolhimento.

É isso que preocupa Viktor Orban?

Ele está muito ciente desse perigo. O que não o tem impedido de aceitar alguns refugiados do Médio Oriente. Não é a isso que Orban se opõe, mas ao sistema de quotas obrigatórias. Temos muitos imigrantes. Podem ver-se africanos e asiáticos nas nossas cidades. Temos uma campeã mundial de esgrima chamada Aida Mohamed. Outro caso: acolhemos hoje 800 menores árabes que viajavam sozinhos.

Aquilo que Orban defende é reflexo da opinião pública húngara?

Sem dúvida que sim.

Como reage a isso a oposição?

A oposição está fraca. Os socialistas passam mais tempo a discutir problemas de liderança do que a fazer oposição efetiva, o que não contribui para a sua popularidade. Os antigos comunistas estão em vias de desaparecimento. Tudo isto contribui para reforçar o Fidesz.

Que opinião tem sobre Orban?

Conheci-o quando ele era estudante em Oxford [em 1989]. Achei-o uma pessoa interessante e inteligente. E voltei a encontrá-lo recentemente. Fiz-lhe um convite para jantar há dois anos. Queria ver, digo-o com sentido de humor, se o poder sempre corrompe ou não. Aceitou. Jantámos só nós e as nossas mulheres num restaurante discreto. Foi muito afável, fluente e claro sobre o que pretendia. É um político acessível, sabe o que quer, com ideias e teorias próprias. Quer ser um pensador assim como um ator político. Quer uma sociedade economicamente desenvolvida, mais equilibrada e um país democrático e livre. Continua a ser muito aquilo que era em 1989. O que lamento é que a oposição não tenha sequer uma só figura carismática que seja alternativa a Orban. Assim, enquanto ele não cometer um erro tremendo, os eleitores não votarão em políticos desprovidos de qualquer talento. Lamento que não haja uma melhor oposição na Hungria. Veja o caso britânico: há um governo-sombra, pessoas dedicadas a seguir as políticas do governo numa área e a criticá-las com fundamento. Isso não existe na Hungria.

Falando de 1956, acreditou ser possível a vitória?

A 29 de outubro pensei que a revolução estava ganha. As tropas soviéticas estavam a deixar o país. Pensei ter chegado o momento de eleições livres, um novo governo, instituições democráticas e a Hungria concretizar o intenso desejo que tinha de ser independente. Imre Nagy anunciou o abandono do Pacto de Varsóvia e do Comecon.

Logo a seguir, a situação mudou...

A decisão de sair do Pacto de Varsóvia e do Comecon pode ter sido o que fez Moscovo mudar de ideias. Eles [a liderança soviética] aconselharam-se com Mao Tsé-tung e com o dirigente jugoslavo Josep Tito, e estes disseram-lhes que o que estava a suceder era intolerável. Estava a enviar a mensagem errada ao resto do campo socialista, como eles se proclamavam.

Sentiu que tinha a vida em perigo quando decidiu deixar a Hungria?

De início, não. Mas um amigo, o comandante dos Guardas da Revolução e da Academia Militar, o major-general Béla Király, veio visitar-nos às quatro da manhã, a mim e à minha mãe, na noite de 4 de novembro e deu-me três cartas para eu entregar a três pessoas que ele acreditava serem indicadas para dirigir a resistência armada à ocupação soviética. De madrugada, dirigi-me à primeira morada nos arredores de Budapeste e, quando lá cheguei, a moradia estava cercada por polícia e exército. O mais depressa que pude, afastei-me do local e deitei as cartas para os esgotos. Um vizinho nosso, militante comunista, avisou as autoridades da visita de Király. A minha mãe foi presa. Achei então que devia sair da Hungria.

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