José Montilla: "Na Catalunha o populismo foi canalizado para o independentismo"

Entre 2006 e 2010 o socialista José Montilla liderou o governo catalão, no segundo tripartido formado pelo Partido Socialista Catalão, Esquerda Republicana de Catalunha (ERC) e Iniciativa per Catalunya Verds (ICV).

Na altura não se falava nem de referendo nem da independência, eram outros os assuntos que marcavam a atualidade política. Em entrevista ao DN, Montilla fala do governo que precisa a Catalunha para se recompor.

Acha possível a formação de um governo não independentista depois das eleições de quinta-feira?

A Catalunha está a precisar de uma mudança depois de dois anos de governo do "procés". O independentismo levou-a a uma fratura social, deteriorou a economia, causou a saída de empresas e muitas pessoas levaram para fora as suas poupanças. As instituições catalãs ficaram desacreditadas. Por isto o que a Catalunha precisa é de um governo que seja capaz de reconciliar a sociedade, recuperar o crescimento e o prestígio das instituições. E para reconciliar a sociedade vai ser preciso um governo que governe para todos.

O que poderá acontecer se ganharem os independentistas?

Espero que não ganhem. Mas se ganharem não sabemos o que vai acontecer porque não têm programa eleitoral e só fazem promessas que são mentiras. Se ganharem, acaba a aplicação do artigo 155º, mas só pode acabar quando houver um governo. Se ganharem libertam os "presos políticos" mas a justiça é independente do poder legislativo. Estão a enganar as pessoas e a criar insegurança e incerteza. E tudo isto é devastador para o futuro da Catalunha. Continuaríamos com uma sociedade crispada e instituições a atuar fora da lei.

Segundo as sondagens, o Ciudadanos é o partido que tem mais probabilidades de liderar um governo não independentista. Os socialistas catalães deveriam facilitar esse governo?

O problema é que não existe sondagem nenhuma onde Ciudadanos, PP e PSC reúnam apoio suficiente para formar governo. Neste contexto, acredito que o candidato socialista está em melhores condições para apostar numa política de reconciliação. A situação na Catalunha está tão má que isto não se resolve numa de 50 contra 50. Miquel Iceta é mais transversal e pelo seu discurso une mais sensibilidades. Não podemos esquecer que o presidente vai ser eleito pelo Parlamento e nesse teste ó socialista Miquel Iceta está melhor posicionado do que a candidata de Ciudadanos Inés Arrimadas.

Já foi presidente de um governo tripartido onde estava a ERC. Deveria ser agora mais fácil chegar a um acordo entre o Ciudadanos, PP e PSC?

A situação atual é bem diferente. Lembro-me sempre que liderei um governo onde estava a ERC mas nessa altura não se falava da independência, nem de uma consulta. Criámos um programa para negociar o sistema financeiro, o estatuto [de autonomia] e as políticas sociais, entre outros assuntos. Nessa altura, a Catalunha recebeu uma importante percentagem de imigrantes comunitários e foram procuradas soluções. Não nos dedicámos a falar de outras coisas. E com o "procés" ficou tudo ofuscado.

Trabalhou com a ERC. Porque pensa que esta força política se radicalizou?

Alguns falam da sentencia do Tribunal Constitucional sobre o estatuto. Eu penso que a mudança foi em 2012. Não podemos esquecer que entre 2010 e 2012 Artur Mas contou com o apoio do PP e o seu partido apoiou a Rajoy para o OE. Com esse orçamento foram aplicadas duras políticas de ajustamento. Então misturaram-se fatores da crise política, a corrupção e os cortes. Noutros lugares do país, surgiram movimentos populistas. Na Catalunha o populismo foi canalizado para o independentismo. E surgiu como uma utopia, a solução para todos os problemas.

Que pensa da atuação do ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont?

Chegou onde chegou fruto das circunstâncias. Sempre foi um independentista mas acabou por tomar decisões fora da legalidade da Constituição e do próprio Parlamento catalão. Subestimou o poder do Estado. E não consigo perceber como fizeram acreditar que o governo ia aceitar a independência e também a Europa. É um presidente em fuga e é uma ofensa ouvi-lo comparar-se aos exilados que teve a Catalunha e toda Espanha.

Que acha do facto de o socialista Miquel Iceta ter pedido um indulto para os presos políticos?

Penso que se antecipou com as suas palavras porque para que exista um indulto deve haver antes uma condenação firme. Mas as palavras de Iceta expressavam uma ideia de fundo. É a aposta do PSC na reconciliação como podemos ver ao incorporar pessoas da antiga Unión Democrática ou do Podemos. É uma candidatura onde se estendem pontes e as suas palavras contêm esta reflexão.

Madrid

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.