"Há uma conquista da extrema-direita e as mulheres vão pagar a fatura"

A austríaca Edit Schlaffer fundou a ONG de apoio às mulheres Women Without Borders. Orgulhosa do sucesso do programa de prevenção do extremismo, que envolve as mães em comunidades de 12 países, olha com preocupação para a Europa.

A cientista social austríaca Edit Schlaffer cedo se preocupou com as questões de género e da violência doméstica. No início dos anos 80 fundou a Amnesty for Women para chamar a atenção da comunidade internacional e da Amnistia Internacional sobre as violações dos direitos humanos específicas contra as mulheres. Em 2002 fundou a Women Without Borders, que centrou a sua atividade no papel das mulheres em travar a violência extremista em casa, junto dos filhos. Edit Schlaffer foi oradora no segundo dia das Conferências do Estoril.

Como é que se interessou pela questão da violência doméstica? Era um problema grave na sociedade austríaca?
É um grave problema a nível mundial. Está no tecido da nossa sociedade, as forças motrizes são patriarcais. A sociedade patriarcal significa que uma parte interveniente rege acima das outras, que são as mulheres e as crianças. Nos anos 70, 80, 90 do século passado, passou a ser uma questão social devido à segunda onda do movimento das mulheres. Até então havia muito silêncio e estigma. Eu era uma jovem professora universitária em Viena e também dava aulas na Faculdade de Serviço Social. Lembro-me de ir numa viagem de estudo, com os assistentes sociais, fora de Viena, e vi nas áreas mais pobres as mulheres envergonhadas, tristes, em sofrimento. E pensei: como socióloga o que posso fazer para mudar isto, para mudar o mundo? Podemos usar as nossas ferramentas empíricas, de investigação, e pesquisar a situação, compreender a amplitude do problema. E quando começámos ficámos chocados porque este problema não está apenas ligado à pobreza, ou às comunidades marginalizadas, atingia a sociedade no seu todo. Mulheres de classe média-alta sentiam-se com frequência impotentes, sem direito a exprimirem-se. É um problema estrutural. Em conclusão, a violência per se é uma questão de poder. A violência é uma questão de poder, seja na guerra seja no lar. O movimento feminista é um dos mais importantes do nosso tempo porque lida com a justiça inclusiva, da humanidade tomar conta de si própria. Precisamos de ter homens também, esta questão não é só das mulheres, é da humanidade.

De há uns anos para cá interessou-se pelo extremismo e em como combatê-lo.
Trabalho na prevenção da violência há quase duas décadas e o que vejo é uma sobreposição entre violência de género ou doméstica e extremismo. Ao investigarmos os adolescentes que são atraídos para o extremismo, quem são, quais as origens e em que meio vivem, é irrefutável que em muitos casos vêm de um meio mergulhado em violência doméstica. Lembro-me, por exemplo, de Aicha El-Wafi, a mãe do chamado vigésimo pirata do ar do 11 de Setembro. Quando falou com o filho [Zacarias Moussaoui, condenado a prisão perpétua nos EUA] e o questionou porque é que se juntou a Osama Bin Laden, ele respondeu que a mãe foi maltratada pelo pai e que falhou em defendê-la. Este pobre diabo falhou enquanto homem durante a puberdade.

Na sua opinião porque é que a violência de género e a violência doméstica devem ser encaradas como uma prioridade nas políticas sociais?
A mudança vem de baixo para cima e de cima para baixo. Os movimentos de baixo para cima estão aí, a sociedade civil mobilizou-se para que as mulheres encontrem proteção. De cima para baixo precisamos do trabalho dos decisores políticos para levarem os perpetradores a prestar contas. Sem responsabilização isto não vai ter fim. Ouvimos nestas Conferências do Estoril sobre o sofrimento das mulheres yazidis e será uma enorme mancha se não reconhecermos as atrocidades de forma apropriada. Devemos agir ouvindo as vozes das vítimas, são vozes fortes que nos mobilizam para sermos fortes no domínio da prevenção. E sem justiça não há um encerramento [do caso]. Como é que estas pessoas podem viver com estas atrocidades nos seus espíritos e nos seus corpos? É uma vergonha para as nossas sociedades. Sabemos que temos de agir. Somos testemunhas e espectadores do que estas vítimas fazem com coragem, quando vêm a público falar e transformam o seu estado de vítimas num movimento. O mínimo que podemos fazer é apoiá-las e também dar todos os instrumentos de responsabilização, impor o estado de direito, etc.

Qual é a história de maior sucesso da Women Without Borders?
É importante pensar de forma positiva e de encontrar soluções e temos de facto uma história de sucesso, um projeto em andamento chamado MotherSchools. Penso que criámos um movimento, um movimento de mães. As mães são a escola primeira das crianças e se as capacitarmos, capacitamos as famílias, capacitamos a comunidade e quando uma mãe fala em comunidade e partilha a sua experiência, desafiamos os mecanismos de decisão política e damos apoio ao despontar de líderes femininas. Quando o terrorismo se tornou numa ameaça para a coesão das nossas sociedades demos conta da ausência de intervenção feminina, de vozes femininas. Houve uma forte confiança nas forças militares e de segurança, mas esta máquina não nos levou em nenhuma direção positiva, levou-nos do Afeganistão ao Iraque, à Síria e ao Iémen. Se começarmos pela prevenção temos de olhar para os que estão mais próximos de quem comete os crimes de terrorismo. Essas pessoas não caíram do céu, cresceram em meios familiares, muitas vezes sem acompanhamento. Os jovens precisam de orientação e precisam de vozes à sua volta que possam respeitar.

Qual a receita do MotherSchools?
No MotherSchools temos reuniões com mães preocupadas com a hipótese de os filhos se interessarem por ideologias extremistas. Damos formação aos professores locais, formamos os formadores, supervisionamos as reuniões através do Skype durante meses e no final os participantes concluem o processo quando sabem como dar conta dos primeiros sinais de radicalização, em ter autoconfiança para intervir e em como incluir os pais e pedir ajuda exterior. No final há uma grande cerimónia na câmara municipal com as mães, orgulhosas, a receberem um documento emoldurado, muitas vezes na presença da família e da comunidade, que também se sentem orgulhosas destas mães que se tornaram agentes de segurança. As mães são os nossos maiores aliados porque veem coisas a que mais ninguém tem acesso. Vimos que normalmente o recrutamento tem uma interação de 60 a 70 horas online e offline. Se prestarmos atenção aos jovens, se forem ouvidos, o resultado final será totalmente diferente.

Onde é que este movimento de mães existe?
Estamos com este programa para as mães de filhos entre 12 e 26 anos em 12 países, na Áustria, em seis cidades da Alemanha, na Bélgica, em países dos Balcãs, e no Bangladesh, onde temos um projeto enorme com o apoio do Departamento de Estado dos EUA e da USAID. Agora contamos com o apoio de entidades oficiais e podemos dizer que já fazemos parte da estrutura de segurança.

Como vê os direitos das mulheres em declínio em países como o Afeganistão, onde a Women Without Borders esteve presente?
Apoiámos as mulheres durante o processo da primeira eleição. É tão frustrante e ninguém fala do assunto. No início, quando os talibãs tomaram o Afeganistão as estrelas de Hollywood e os políticos tomaram posição. Até se disse que íamos para a guerra em nome das mulheres do Afeganistão. E agora as mulheres não estão incluídas na jirga [assembleia de líderes], não estão no processo de paz.

Recentemente assassinaram uma jornalista.
Os talibãs perseguem as mulheres com voz.

Na Europa os últimos dados do Índice de igualdade de género não são muito encorajadores. E quer a agenda de extrema-direita quer o comunitarismo dos migrantes e refugiados podem ser uma ameaça aos direitos das mulheres. O que propõe?
Estamos numa encruzilhada. Vimos nestas eleições que até um certo ponto há uma conquista da extrema-direita e penso que as mulheres vão pagar a fatura. Os direitos humanos vão pagar a fatura. A igualdade vai pagar a fatura. Estamos a ver tantas coisas que nos podem tirar, todos estes princípios que tomámos por garantidos. Não podemos receber a Nigéria inteira só porque os seus líderes são corruptos e não lidam com o povo de forma adequada. Mas podemos criar estruturas e integrar as pessoas que chegam de zonas de guerra. E ao mesmo tempo os nossos políticos só se preocupam em fazer negócios. Isto não é salvar África. Não digo que devamos continuar com a ajuda para o desenvolvimento, que não tem funcionado, mas devemos chegar a um acordo para criarmos soluções em parceria com os povos e não com os regimes corruptos.

Que comentário faz à recente crise política do seu país?
Estamos em choque. Vai além da nossa imaginação que políticos da alta esfera se comportem de uma forma tão vil. Foi de facto inimaginável. Foi sexista, foi corrupto... não encontro adjetivos suficientes para definir o que se pôde ver na gravação [na qual o vice-chanceler e líder do FPÖ, partido da extrema-direita, se mostrou recetivo a ser subornado por uma alegada sobrinha de um oligarca russo em troca da concessão de contratos de obras públicas]. O que me chocou é que disseram ser vítimas de uma armadilha. Sem dúvida que se deve investigar quem fez o vídeo, quem está por trás daquilo. Mas a realidade é que disse o que disse, e isso não pode ser apagado. E ao mesmo tempo o protagonista pode vir a ter um lugar no Parlamento Europeu. Não é uma vergonha?

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