Ex-advogado admite ter violado a lei a pedido "do candidato". Aperta o cerco a Trump

No mesmo dia em que o ex-gestor de campanha do presidente Paul Manafort foi considerado culpado de evasão fiscal, Michael Cohen foi a tribunal admitir ter violado a lei eleitoral na campanha para as presidenciais de 2016 e ter pago a uma ex-coelhinha da Playboy que afirmava ter tido um caso com Trump. Tudo para influenciar o resultado. Volta a falar-se de destituição do presidente

Eram 16:03 (mais cinco horas em Lisboa) quando Michael Cohen entrou na sala de audiências no 20.º piso do tribunal federal em Manhattan. O ex-advogado de Donald Trump começou por responder a perguntas de rotina do juiz William Pauley. Qual a sua ocupação? Que idade tem? "Faço 52 dentro de quatro dias", respondeu a essa. E consumiu alguma droga ou álcool nas últimas 24 horas? "Ontem ao jantar bebi um copo de [whisky] Glenlivet 12 anos com gelo".

Só depois o magistrado passou às perguntas sobre o processo, inquirindo se o arguido queria declarar-se culpado. "Sim, senhor juiz", respondeu Cohen.

O ex-advogado - descrito pela CNN como uma espécie de cão de fila de Trump durante a campanha para as presidenciais de 2016 - reconheceu não só ter violado a lei eleitoral, pagando 150 mil dólares à "pessoa 1" - identificada pelos media como sendo a ex-coelhinha da Playboy Karen McDouglas - para que esta não viesse a público falar sobre o caso que dizia ter tido com o então candidato republicano.

Cohen admitiu ter agido desta forma "com a intenção de influenciar o resultado" do escrutínio que acabaria por dar a vitória a Trump sobre a democrata Hillary Clinton.

Mais, reconheceu ter feito isso obedecendo às ordens "do candidato". Cohen não referiu qualquer nome, mas tudo indica que esse "candidato" tenha sido o próprio Trump.

Se for considerado culpado, Cohen enfrenta uma pena que pode ir até 65 anos de prisão. Mas se colaborar com a investigação, poderá vir a cumprir apenas cinco anos e três meses. A sentença será conhecida a 12 de dezembro e o ex-advogado de Trump saiu do tribunal em liberdade após pagar uma fiança de 500 mil dólares.

Dentro do carro, acompanhado pelos advogados, não escapou contudo aos gritos da multidão reunida em torno do tribunal. "Lock him up!", à letra, "prendam-no", ecos da frase tantas vezes usadas pelos apoiantes de Trump durante a campanha para Hillary Clinton.

Cohen, que se disse culpado também de vários crimes de evasão fiscal, explicou como usou uma empresa de media à qual estava ligado para fazer os pagamentos a McDouglas. E explicou ainda ter feito pagamentos "à pessoa 2" que teria "informações que podiam ser prejudiciais para o candidato e para a campanha". Os 130 mil dólares que pagou, através de uma empresa que controlava, foram-lhe depois "reembolsados pelo candidato".

Segundo os media, esta "segunda pessoa" será Stormy Daniels, uma antiga estrela porno que também afirma ter tido uma relação com Trump, o que o presidente nega, embora já tenha admitido o pagamento.

Questionado se sabia que o seu comportamento era ilegal, Cohen disse que sim. E quanto a como se declarava, afirmou: "Culpado, senhor juiz".

Ondas de choque

"Se alguém descrevesse as últimas horas numa novela acerca de Trump, todos iríamos achar que estava a exagerar", escreveu no Twitter a jornalista do The New York Times Maggie Haberman. Já Chris Cillizza, da CNN, usou a mesma rede social para garantir: "Se as últimas horas fossem um episódio do West Wing, íamos todos revirar os olhos e dizer 'pois, sim'".

Para os canais de notícias e para os media americanos no geral, a condenação de Manafort, logo seguida da confissão de Cohen podem parecer coisa de ficção, mas a questão que todos se colocam agora é: será que este cerco judicial aos antigos homens do presidente vai chegar ao próprio Trump?

Segundo peritos ouvidos pela BBC, é pouco provável. Pelo menos enquanto for presidente, Trump estará protegido da justiça. Mas não do Congresso. Em teoria, este pode pedir a destituição (o famoso impeachment) por considerar que o chefe do Estado cometeu "crimes graves".

Para que tal acontecesse, teria de haver acordo nas duas câmaras do Congresso. Ora neste momento ambas são controladas pelos republicanos. E mesmo se os democratas sonham recuperar a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de novembro, o Senado deverá continuar nas mãos do partido do presidente.

Portanto, para garantir um impeachment, os democratas precisariam de convencer alguns republicanos a votar com eles. Um cenário que poderia ganhar força caso o procurador especial Robert Mueller conclua na sua investigação que Trump é culpado de conluio com os russos para interferir nos resultados das presidenciais.

Silêncio presidencial

O próprio Trump manteve o silêncio sobre os problemas judiciais de Cohen. Quanto a Manafort, o presidente afirmou-se "muito triste" com a condenação do ex-diretor de campanha. Ao chegar a Charleston, na Virgínia Ocidental, para um comício, Trump reiterou que Manafort é "um homem de bem".

Sobre Cohen foi o seu advogado, o ex-presidente da câmara de Nova Iorque Rudy Giuliani, quem veio a público garantir: "Não há qualquer prova de ilegalidade por parte do presidente nas acusações que pesam sobre o senhor Cohen". E acrescentou: "É claro que, tal como o ministério público notou, há um padrão de mentiras e desonestidades nos atos do senhor Cohen durante um determinado período de tempo".

"Há um padrão de mentiras e desonestidades nos atos do senhor Cohen"

Michael Cohen trabalhou para Trump durante mais de uma década antes de este se ser eleito presidente, tendo-se depois mantido como seu advogado pessoal. Em abril, o FBI apreendeu uma série de ficheiros no escritório e num quarto de hotel usados pelo advogado. As buscas terão decorrido na sequência de uma informação fornecida pelo procurador especial Robert Mueller.

Trump, que sempre negou qualquer envolvimento em atos ilegais, veio na altura denunciar as buscas como uma clara violação do sigilo entre cliente e advogado. Mas desde que Cohen deixou de ser seu advogado, em maio, que o presidente se tem distanciado do antigo colaborador.

Ler mais

Exclusivos