Entre bombas e fugas, estudantes sírios procuram cursos online

Mariam vive em Aleppo e a University of the People foi a forma que encontrou de continuar a estudar apesar da guerra.

Quando a ligação à internet caiu em outubro passado, Mariam Hammad ficou com o coração apertado. Residente em Aleppo, a jovem síria temeu não poder continuar os estudos.

Sem acesso à internet durante uma semana, Mariam não só não conseguia fazer os exames online como nem sequer podia explicar aos professores porquê. "Estava sempre a chorar", conta agora. "Após dois meses de estudo e trabalho árduo, não ia conseguir fazer os exames finais? O que é que ia fazer?"

Em pânico, a rapariga de 23 anos telefonou a um familiar em Damasco que, também sem internet, ligou a outro familiar - refugiado na Alemanha - que mandou um e-mail para a universidade americana a pedir para adiar os exames de Mariam. A escola, a University of the People (Universidade do Povo), concordou em fazê-lo.

Mariam é uma das centenas de estudantes sírios que enfrentam tudo, lutam contra as bombas, contra a fome, para continuar os estudos universitários e conseguir o diploma através de cursos online em escolas estrangeiras.

Até ao início da guerra civil, em 2011, a Síria tinha um sistema de ensino superior em expansão, com um quinto da população entre os 18 e os 24 anos a frequentar universidades.

Mas o conflito forçou mais de 200 mil sírios a desistirem dos estudos, segundo números do Institute of International Education (IIE, na sigla em inglês), sediado em Nova Iorque.

Para muitos sírios, uma mão--cheia de escolas virtuais, facilmente acessíveis, que oferecem diplomas reconhecidos sem cobrar propinas são a válvula de escape educacional. A University of the People, sediada na Califórnia, oferece cursos de quatro anos, totalmente online, com aulas dadas por académicos voluntários e professores jubilados.

A escola tem mais de 200 alunos na Síria, além de contar entre os seus estudantes com 300 refugiados que fugiram daquele país em busca de segurança na América.

Também a Kiron Open Higher Education, sediada em Berlim, e a Amity University, na Índia, oferecem cursos online grátis para refugiados sírios.

Para Miriam Hammad, foi durante uma época de exames e fim de semestre cheios de adrenalina, em 2013, que a escola convencional terminou abruptamente.

Em 2013, um atentado contra a Universidade de Aleppo fez 80 mortos e 160 feridos

Na altura estudante de Economia na Universidade de Aleppo, a jovem estava a fazer um exame com os colegas quando duas explosões atingiram o campus, matando mais de 80 pessoas e ferindo 160. "Não consigo esquecer até hoje os estudantes que morreram diante dos meus olhos. Muitos perderam braços, pernas."

A partir de então, a sua universidade local, tal como as aspirações profissionais de Mariam, ficaram fora de alcance. Agora, a jovem passa muitas noites a estudar à luz do telemóvel - não tem computador portátil - para tirar a licenciatura em Gestão de Empresas.

A sua ligação móvel à internet é penosamente lenta, diz, mas chega para carregar as leituras semanais - uma distração bem-vinda. "Quando estou a estudar, é como se estivesse à tona da água", explicou à Thomson Reuters Foundation.

A violência em Aleppo diminuiu desde que as forças governamentais recuperaram o controlo da cidade aos rebeldes em dezembro. Mas as ONG no terreno mostraram-se chocadas com a extensão da destruição de infraestruturas e casas.

A magnitude da tragédia só atingiu Mariam recentemente. Enquanto preparava um trabalho sobre globalização, tropeçou num site da ONU que descrevia a crise síria como estando na origem do pior êxodo de refugiados desde a II Guerra Mundial. É uma comparação muitas vezes feita nos media ocidentais, mas é a primeira vez que Mariam, vítima da guerra, pensava nela, explica.

Nessa noite, depois de escrever os trabalhos de casa a lápis antes de os passar para o computador para os enviar aos professores, Mariam suspirou. "É terrível, terrível", lembra-se de dizer aos pais. "O que está a acontecer aqui é como um sonho. Um sonho mau."

Universidade no exílio

A meio mundo dali, em Nova Iorque, Shai Reshef, presidente e fundador da University of the People, trabalha para aumentar o número de sírios que, como Mariam, voltam à universidade. "Não sabemos quando é que a situação na Síria chega ao ponto em que eles podem começar a reconstruir o país", explicou ao telefone à Reuters. "Mas eles têm de estar prontos."

Mas nem todos veem as escolas online como a melhor solução.

Allan Goodman, presidente do IIE, alerta que sem universidades em edifícios de tijolo, com as suas comunidades intelectuais vibrantes, os sírios podem nunca mais voltar em massa ao ensino superior.

A sua organização tem feito lóbi junto de vários governos, sem sucesso até agora, para receberem uma "universidade no exílio" - uma escola em língua árabe que contaria com alguns dos mais de dois mil académicos que se estima terem fugido da Síria.

"O que se ouve dos sírios é o desejo de voltarem a ligar-se a um ambiente académico - a algo que se pareça com uma universidade, soe como uma universidade, tenha professores a andar por ali, bibliotecas", diz Goodman à Reuters, pelo telefone. "E a educação online não é um substituto disto tudo."

Um estudo recente do British Council defende a mesma ideia. Após entrevistar 180 refugiados sírios - muitos dos quais nunca estudaram através da internet - os investigadores concluíram que a aprendizagem online não atraía tanto os refugiados sírios quanto outras opções de educação, incluindo cursos que exigem a frequência das aulas. Para Reshef, da University of the People, os investigadores fizeram a pergunta errada aos refugiados. "Que opções é que eles têm?", questiona.

Longe destes debates, Mariam diz ansiar pelo dia em que munida do seu diploma possa reconstruir a Síria como empresária. "Depois de uma guerra, os países recebem apoio financeiro", explica a jovem. "Vai haver muitos investimentos."

Jornalista da Reuters

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