De Bush ao 20.º pirata do ar - 11 protagonistas do 11 de Setembro hoje

Passados 17 anos sobre os atentados que fizeram quase 3000 mortos nos Estados Unidos, George W. Bush saiu do retiro no Texas para se destacar como crítico de Trump, Bin Laden foi morto em 2011 e a Al-Qaeda cedeu o protagonismo no palco terrorista ao Estado Islâmico e as Torres Gémeas já têm a sua sucessora

George W. Bush

Ficou famosa a expressão de incerteza e descrença com que George W. Bush ficou após ser informado de que as Torres Gémeas estavam a ser atacadas naquela manhã de 11 de setembro de 2001. O presidente republicana estava no primeiro ano de mandato e encontrava-se de visita a uma escola da Florida quando o chefe de gabinete Andy Card lhe disse ao ouvido que um segundo avião chocara contra uma das torres.

Se na altura Bush continuou sentado, deixando as crianças terminar o livro que estavam a ler, depressa reagiu às informações que davam conta da ligação à Al-Qaeda dos piratas do ar que lançaram dois aviões contra as Torres Gémeas em Nova Iorque, um contra o Pentágono e outro que se despenhou num campo na Pensilvânia, fazendo quase 3000 mortos.

E com a certeza que Osama bin Laden, o líder da Al-Qaeda, estava escondido no Afeganistão mandou invadir o país logo em outubro, perante a recusa dos talibãs em entregar o saudita. Com uma popularidade que disparou para os 90% e o apoio de quase toda a comunidade internacional - o francês Le Monde escrevia em editorial a 13 de setembro "Somos todos americanos" - Bush lança a operação Liberdade Duradoura. Mas se os talibãs acabam por cair (apenas para voltar em força, mas já lá vamos), a verdade é que passados 17 anos os americanos continuam presentes no Afeganistão, numa guerra que parece não ter fim à vista.

Em 2003, seria já sem o apoio da comunidade internacional que os EUA atacariam o Iraque de Saddam Hussein, denunciando que este ajudava o terrorismo e possuía armas de destruição maciça. A verdade é que estas nunca apareceram que a América acabou metida noutra guerra cujo fim ainda hoje está por chegar.

Quanto a Bush, reeleito em 2004, deixava a presidência quatro anos depois com a popularidade pouco acima dos 30%, recolhendo-se no seu rancho do Texas. Dedicado à pintura, foram raras as suas aparições em público durante os mandatos de Barack Obama, mas nos últimos meses o ex-presidente não hesitou em quebrar o silêncio para criticar Donald Trump - uma atitude rara entre presidentes. Apesar de nunca o referir pelo nome, tem condenado o "fanatismo" e no funeral do senador John McCain, no início do mês, deixou novo recado, lembrando como o veterano do Vietname odiava "déspotas".

Osama bin Laden

Filho de um milionário saudita, em 1979, Osama bin Laden juntou-se aos mujaedines que combatiam as forças soviéticas no Afeganistão. Foi aí que ganhou fama, tendo fundado a Al-Qaeda (literalmente A Base), a sua própria organização terrorista, em 1988. Dez anos depois foi Bin Laden quem arquitetou os ataques às embaixadas americanas no Quénia e na Tanzânia. Não espanta pois que fosse logo considerado um dos principais suspeitos do 11 de Setembro.

Com a cabeça a prémio - o FBI oferecia 25 milhões de dólares por informações que levassem à sua captura - Bin Laden sobreviveu aos ataques americanos refugiando-se nas montanhas afegãs. Ao longo da década seguinte muito se especulou sobre o seu paradeiro, mas foi no Paquistão que acabou por ser morto, em maio de 2011, por um equipa de Navy SEALS.

Foi naquela mansão de Abbottabad que Bin Laden passou os últimos anos da sua vida. O edifício seria demolido pelas autoridades paquistanesas no ano seguinte. O corpo de Bin Laden foi lançado ao mar.

A 3 de agosto, o diário britânico The Guardian publicava uma entrevista com Alia Ghanem, a mãe de Bin Laden, na qual esta garantia que o filho era "uma criança muito boa" e que "nunca admitiu o que fazia porque" a amava muito.

Rudy Giuliani

"Amanhã Nova Iorque continuará aqui. E vamos reconstruir e vamos ser mais fortes do que antes. Quero que o povo de Nova Iorque seja um exemplo para o resto do país, para o resto do mundo, de que o terrorismo não nos pode parar." Foram frases como esta, proferida entre os escombros das Torres Gémeas que valeram a Rudy Giuliani o título de Mayor da América, usado pela primeira vez pela apresentadora Oprah Winfrey.

O presidente da Câmara de Nova Iorque foi uma das figuras mais ativas na sequência dos atentados de 11 de Setembro, organizando a resposta da cidade e mantendo os seus habitantes unidos . Durante dias a fio, Giuliani, cujo mandato terminava no final de 2001, era presença constante no Ground Zero, acompanhando as equipas de socorro.

O advogado que ganhara fama nos anos 80 como procurador ao liderar casos contra a máfia nova-iorquina começou o mandato como mayor empenhado na teoria dos vidros partidos - uma espécie de tolerância zero para conter o crime na cidade. E a verdade é que conseguiu baixar radicalmente a criminalidade e aumentar a qualidade de vida dos nova-iorquinos.

Mas foi o papel no 11 de Setembro que lhe valeu ser eleito a Pessoa do Ano pela revista Time em dezembro de 2001. Condecorado pela Rainha Isabel II de Inglaterra pelos seus feitos, nos anos seguintes Giuliani voltou à advocacia. Mas a política não lhe saiu do sangue. E se em 2008 tentou a nomeação republicana para as presidenciais (acabando por desistir e apoiar McCain), dois anos depois não chegou a avançar com uma candidatura a governador de Nova Iorque.

Em 2016, Giuliani foi um dos primeiros a dar o seu apoio à candidatura de Trump. A relação dos dois é antiga, dos tempos em que ambos se moviam nos círculos da elite nova-iorquina, um como advogado e mayor, ou outro como empresário. E quando chegou à presidência, Trump decidiu contratar Giuliani como advogado. Apesar dos 74 anos, este não abandona o estilo combativo e, na defesa do presidente, não hesita em comprar uma guerra. Pelo caminho tem multiplicado as declarações polémicas como quando garantiu na CNN que "a verdade não é a verdade".

Mullah Omar

Foi a lutar contra os soviéticos que o mullah Omar perdeu o olho, mas foi a resistência aos EUA, aos quais recusou entregar Bin Laden após o 11 de Setembro que fez do líder dos talibãs uma figura mundialmente conhecida.

Nascido numa família pobre perto de Kandahar, em 1994 fundou os talibãs, cujo nome significa estudantes de teologia, mas cuja interpretação extremamente rigorosa da lei islâmica (a sharia) baniu a música do Afeganistão, obrigou os homens a deixar crescer a barba e as mulheres a usar a burqa nos anos em que governaram o Afeganistão. Chegados ao poder em 1996, foi a invasão americana que ditou o fim do regime talibã em dezembro de 2001.

Mas o fim do regime esteve longe de significar o fim dos talibãs. Refugiados nas zonas montanhosas entre o Afeganistão e o Paquistão, os militantes reorganizaram-se sob as ordens do mullah Omar que em 2004 anunciava a rebelião "contra a América e os seus fantoches".

Apesar da morte do mullah Omar em 2013, os talibãs continuam ativos, sendo responsáveis por ataques terroristas tanto no Afeganistão como no Paquistão.

Khalid Sheikh Mohammed

Se Bin Laden foi o cérebro do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed foi o principal arquiteto dos atentados de 2001. O paquistanês, responsável também pela propaganda da Al-Qaeda, foi capturado em 2003 em Rawalpindi, numa operação conjunta da CIA e dos serviços secretos paquistaneses.

Levado para Guantánamo, a prisão na base americana em Cuba para onde foram enviados a maioria dos suspeitos de terrorismo detidos no pós 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed confessaria o envolvimento em vários atentados - de Bali em 2002 ao ataque contra o World Trade Center em 1993 - mas também na morte em 2002 do jornalista americano Daniel Pearl, decapitado no Paquistão.

Condenado por crimes de guerra em 2008, continua detido em Guantánamo, sendo hoje um dos poucos suspeitos de terrorismo a ainda se encontrarem naquela prisão onde chegaram a ser quase 800.

Pervez Musharraf

Chegado ao poder em junho de 2001, Pervez Musharraf foi essencial ao apoiar a Guerra ao Terror de Bush no pós-11 de setembro. O presidente paquistanês, um general de quatro estrelas, disponibilizou o seu território bem como as suas forças armadas e serviços de inteligência para apoiar os EUA. Em troca, recebeu milhões dos americanos para apoiar a economia paquistanesa.

Enfraquecido internamente, em 2008 Mucharraf acabou por de demitir para evitar a destituição, mudando-se para Londres num exílio auto-imposto. Cinco anos depois tentava um regresso para participar nas presidenciais, mas acabou desclassificado pela justiça, sendo ainda alvo de suspeitas de envolvimento no assassínio da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto em 2007.

Condenado por traição em 2014, o seu julgamento começa no próximo dia 9 de outubro. Musharraf, hoje com 75 anos, continua quanto a ele no Dubai, onde vive desde 2016, quando conseguiu autorização da justiça paquistanesa para deixar o país para receber tratamento médico no estrangeiro.

Al-Qaeda

Fundada em 1988 por Osama bin Laden, a Al-Qaeda semeou o terror pelo mundo, protagonizando alguns dos mais mortíferos atentados dos últimos anos - do 11 de Setembro a Bali, de Madrid a Londres. Constituída inicialmente sobretudo por voluntários árabes recrutados durante a luta contra os soviéticos no Afeganistão, depressa de tornou numa organização terrorista multinacional. Sunita, a Al-Qaeda tem protagonizado também ataques sectários contra muçulmanos xiitas.

Para os seus ideólogos, a Al-Qaeda tem como objetivo final remover qualquer influência estrangeira nos países muçulmanos, além de criar um novo califado em todo o mundo islâmico.

Já em perda de influência para outros grupos terroristas, com a morte de Bin Laden em 2011 a Al-Qaeda sofreu um duro golpe. O seu número dois, o egípcio Ayman al-Zawahiri assumiu o controlo da organização e as últimas notícias dão conta de que se encontrará escondido no Paquistão.

O declínio da Al-Qaeda correspondeu em grande parte à ascensão do Estado Islâmico. O grupo que surgiu em 1999 até chegou a prestar vassalagem à Al-Qaeda mas depressa se autonomizou, defendendo um califado mundial. Liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, não só o ISIS (ou daesh, o acrónimo árabe que o designa) inspirou atentados como os de Paris que fizeram 130 mortos em 2015, o do museu do Bardo na Tunísia, que matou 22 no mesmo ano, ou de Bruxelas em 2016, que fez 32 mortos.

Ao contrário da Al-Qaeda que sempre foi uma nebulosa sem território, o ISIS chegou a controlar grande parte da Síria e do Iraque, tendo atraído centenas de ocidentais para as suas fileiras. Nos últimos anos, tem perdido terreno e os últimos ataques têm sido menos mortíferos, recorrendo os terroristas muitas vezes a facas para atacar os "infiéis". Mas isso não quer dizer que não continue perigoso. Tal como a Al-Qaeda, apesar de adormecida, pode ressurgir um dia destes.

Zacarias Moussaoui

Ele era o 20.º pirata do ar do 11 de Setembro. Mas Zacarias Moussaoui acabou por ser detido em agosto de 2001, devido ao comportamento suspeito enquanto tinha aulas de voo no Minnesota. Filho de marroquinos nascido em França, Mouassaoui foi condenado a seis pena de prisão perpétua após se declarar culpado de conspiração para matar cidadãos americanos.

"Eu sou a Al-Qaeda", gritou durante o julgamento. Está a cumprir pena numa prisão da Florida.

Al-Jazeera

Nasceu em novembro de 1996 em Doha, no Qatar, mas só em 2001 a Al-Jazeera ganhou fama mundial graças à sua cobertura da guerra no Afeganistão. Financiada pelo governo do Qatar, a estação de televisão que se queria uma espécie de BBC em língua árabe foi criada para dar uma visão da realidade alternativa à dos canais ocidentais.

Hoje tem escritórios em mais de 80 países, mas foi o facto de ser a única estação de televisão a transmitir o conflito afegão a partir da instalações que abrira pouco antes em Cabul que a colocou no centro das atenções do mundo ocidental. Durante a guerra, a Al-Jazeera recebia gravações de Bin Laden e dos talibãs, o que fez com que fosse muitas vezes criticada por dar voz aos terroristas.

Mas a verdade é que não faltavam outros canais dispostos a pagar até 250 mil dólares pela gravações únicas da Al-Jazeera.

Donald Rumsfeld

Exemplo perfeito do poderio dos neoconservadores na Administração Bush, Donald Rumsfeld teve, enquanto secretário da Defesa, um papel fundamental na estratégia dos EUA para responder aos ataques de 11 de Setembro com duas guerras: no Afeganistão e Paquistão.

O homem que modernizou as forças armadas americanas foi também o que ficou para sempre associado ao recurso à tortura para conseguir as confissões dos suspeitos de terrorismo. Foi também sob as ordens de Rumsfeld que surgiram os escândalos de abuso de prisioneiros como o da prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

Desbocado e duro, Rumsfeld acabou por se demitir em 2006 depois de uma revolta dentro das próprias forças armadas. Nos últimos anos, criou a sua própria fundação que incentiva os jovens a entrar no serviço público, escreveu um livro de memórias e até lançou uma aplicação para telemóvel chamada Churchill Solitaire que permite jogar uma variante de Solitário apreciada pelo ex-primeiro-ministro britânico.

Torres Gémeas

Eram 8:46 (mais cinco horas em Lisboa) quando o primeiro avião embateu na torre Norte do World Trade Center. 17 minutos depois, um segundo aparelho atingia a torre Sul, acabando com as dúvidas: o coração financeiro de Nova Iorque e do mundo ocidental estava sob ataque.

O World Trade Center era, na verdade constituído por sete edifícios, mas as Torres Gémeas eram as estrelas da companhia, destacando-se com os seus 417 e 415 metros de altura no skyline de Nova Iorque. Talvez por isso o mundo tenha assistido em choque ao momento em que, a Sul primeiro, a Norte depois, ambas as torres se desmoronaram como castelos de cartas naquela manhã de 11 de setembro de 2001.

A América estava ferida, mas não ia descansar enquanto não construísse no local um edifício ainda mais impressionante. E a 3 de novembro de 2014 era inaugurado o One World Trade Center - uma torre com 541 metros que é hoje o sexto edifício mais alto do mundo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)