Do artigo anónimo às gravações de Omarosa: o cerco à volta de Trump

O mais recente golpe contra o presidente é um artigo de opinião anónimo que o acusa de "amoralidade" e lançou uma caça às bruxas em Washington, para tentar descobrir o autor. Mas a lista de ataques a Trump é longa e a maioria estão a vir de pessoas que lhe eram próximas.

Donald Trump sempre se queixou da existência de um "deep state" (estado profundo, numa tradução à letra), que atua ao mais alto nível para deslegitimar a sua presidência e travar as suas políticas. Isto depois de ter chegado à Casa Branca com a promessa de "drenar o pântano" que é Washington (usa várias vezes no Twitter a hashtag #DrainTheSwamp). O que parecia uma teoria da conspiração, tornou-se num facto, graças a um artigo de opinião que está a abalar a política norte-americana e que é apenas o mais recente golpe (de uma lista cada vez maior) contra o presidente dos EUA.

"Eu sou parte da resistência dentro da Administração Trump." Este é o título do artigo de opinião, anónimo, publicado na quarta-feira à noite pelo The New York Times. O seu autor ou autora diz trabalhar para o presidente (o jornal diz apenas tratar-se de um "responsável sénior") e revela que muitos dentro do governo "estão a trabalhar diligentemente desde dentro para frustrar partes da sua agenda e as suas piores inclinações".

O autor ou autora acusa o presidente de "amoralidade", de ter "pouca afinidade com os ideais republicanos", de "comportamento errático" e de uma "impulsividade" que resulta em "decisões mal informadas e ocasionalmente imprudentes das quais é preciso recuar". Fala de um presidente "que mostra preferência por autocratas e ditadores" a nível de política internacional, mostrando "pouca apreciação para os laços que nos unem aos aliados", enquanto este grupo da "resistência" tenta fazer o contrário.

"Pode servir de fraco consolo nestes tempos caóticos, mas os americanos devem saber que há adultos na sala. Nós reconhecemos totalmente o que está a acontecer. E estamos a tentar fazer o que é correto, mesmo se Donald Trump não o fizer", lê-se no artigo. "Este não é o trabalho do chamado deep state. É o trabalho do estado estável", diz o texto., indicando que chegou a ser falado dentro da Administração de invocar a 25.ª Emenda da Constituição. Esta daria início ao processo para destituir o presidente, mas ninguém queria "precipitar uma crise constitucional", pelo que prometem continuar a levar a Administração no bom caminho "até - de uma forma ou de outra - acabar".

Reação ao artigo

"Será que o chamado 'responsável sénior da Administração' realmente existe ou será apenas o falhado The New York Times com outra fonte falsa? Se a pessoa anónima sem escrúpulos realmente existe, o Times deve, por questões de Segurança Nacional, entregá-lo ao governo de imediato!", escreveu Trump no Twitter.

O artigo lançou uma "caça às bruxas", numa tentativa de descobrir quem é o seu autor ou autora, com o presidente a dar a ordem para que se encontrado (segundo duas fontes citadas pela agência AP). O texto está a ser analisado ao pormenor, para ver se contém pistas de linguagem que permitam fazê-lo - é usada, por exemplo, a palavra "lodestar" (uma estrela que guia o caminho), que surge frequentemente em discursos do vice-presidente Mike Pence.

O porta-voz de Pence já negou que o vice-presidente esteja por detrás do artigo, mas será alguém da sua equipa ou terá sido aquela palavra usada para despistar?

Quem também já veio negar estar por detrás do artigo foi o secretário de Estado Mike Pompeo, que antes foi diretor da CIA. "Não é meu", disse aos jornalistas durante uma viagem à Índia. O Pentágono também rejeita que o responsável tenha sido o secretário da Defesa James Mattis, enquanto o diretor dos serviços de informação nacionais, Dan Coats, indicou num comunicado que nem ele nem o seu número dois são os autores.

Mas, segundo os media norte-americanos, vários responsáveis da Administração já admitiram, no passado e de forma privada, o mesmo aos seus jornalistas (sempre off-the-record, isto é, garantindo que não podem ser citados). A assessora de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, apelidou o autor de "cobarde" e diz que "deve fazer o correto e demitir-se".

No Twitter, Trump voltou à carga: "Estou a esvaziar o pântano e o pântano está a lutar de volta. Não se preocupem, nós vamos ganhar!"

Mas o presidente parece cada vez mais cercado, com o número de golpes a sucederem-se a uma velocidade cada vez maior.

"Medo", de Bob Woodward

O artigo no The New York Times surge quando Trump ainda estava a lidar com as revelações feitas pelo jornalista Bob Woodward, famoso pelo caso Watergate que levou à demissão do presidente Richard Nixon, no seu novo livro "Fear: Trump in the White House" (Medo, Trump na Casa Branca).

O jornalista que já escreveu livros sobre oito presidentes norte-americanos, dedicou-se ao primeiro ano de mandato de Trump e, com base em centenas de horas de gravações com várias fontes, revela o ambiente dentro da Casa Branca. Tal como no caso do artigo anónimo, Trump quer saber quem falou com o jornalista.

O livro revela como alguns colaboradores de Trump - como o secretário da Defesa Mattis ou o chefe de gabinete, o general John Kelly - o chamaram de "mentiroso" ou "idiota", "que não faz sentido convencê-lo de qualquer coisa". Mas também a forma como o próprio presidente trata os colaboradores, tendo chamado o seu advogado Rudy Giuliani, ex-mayor de Nova Iorque, de "bebé" .

"O livro do Woodward já foi negado e desacreditado" pelos generais Mattis e Kelly. "As citações deles são fraudes inventadas, para enganar o público. Da mesma forma, outras histórias e citações. Woodward é um operativo democrata? Vejam o timing", escreveu Trump no Twitter.

Mais grave, o livro revela como alguns dos seus conselheiros repetidamente retiram ou escondem documentos que são colocados na mesa de Trump para o impedir de os ler; ou como o presidente terá defendido matar o homólogo sírio, Bachar al-Assad, após um ataque químico contra civis em abril de 2017.

O Washington Post, jornal para o qual trabalha Woodward, publicou também a conversa telefónica que Trump teve com o jornalista, na qual este conta que tentou através de várias pessoas falar com o presidente por causa do livro, sem sucesso. Trump diz-lhe que só agora (há um mês, depois de o livro estar acabado) ter tido conhecimento que ele o queria entrevistar. "Ninguém me disse e teria gostado de falar contigo", disse Trump, admitindo mais tarde que o senador Lindsey Graham lhe terá falado de algo. No final, acaba por dizer: "Não faz mal, vou acabar com mais outro livro mau".

Kaepernick e o anúncio da Nike

Este não é um ataque direto ao presidente, mas acaba por atingi-lo porque Trump tem estado numa cruzada contra a NFL (Liga de Futebol Americano). Em causa está o protesto que Colin Kaepernick, então quarterback dos San Francisco 49ers, iniciou em 2016 ao decidir pousar um joelho no chão (em vez de se levantar) durante o hino dos EUA, no início dos jogos. Tudo para denunciar a injustiça racial na América e a brutalidade da polícia que resultou na morte de vários negros que estavam desarmados.

Em setembro de 2017, Trump enviou uma série de mensagens no Twitter no qual defendia que os jogadores deviam ser despedidos ou suspensos se não se levantassem para ouvir o hino nacional, considerando que o seu gesto era desrespeitoso para com a bandeira, o hino, o país e, por associação, com os militares. Vários outros jogadores decidiram seguir o exemplo de Kaepernick e a NFL ficou com um problemas nas mãos, cabendo a cada equipa decidir se pune ou não os jogadores

Kaepernick, que entretanto ficou sem contrato e abriu um processo contra a NFL, tornou-se esta semana num dos rostos da campanha de 30.º aniversário da Nike, "Acredita em algo. Mesmo se isso significa sacrificar tudo", é o mote da campanha, seguido do slogan "Just do it".

Isso gerou uma onda de protestos online, com vários consumidores a acusar a Nike de desrespeitar a bandeira e o hino e a declarar o boicote aos seus produtos, chegando até a queimar ou destruir aqueles que já tinham, enquanto outros apoiaram a decisão da marca e pediram a quem quer destruir o que tem da Nike que envie esses produtos para associações de veteranos.

Trump esteve ao lado dos primeiros, que criticaram a empresa: "Tal como a NFL, cujas audiências têm caído, a Nike está a ser arrasada com a fúria e os boicotes. Será que eles tinham ideia que seria assim? No que diz respeito à NFL, é para mim difícil de ver, e será sempre, enquanto não se levantarem para a bandeira", escreveu o presidente no Twitter, que numa entrevista tinha dito que a marca estava a passar uma "mensagem péssima".

A morte de McCain

O senador republicano John McCain, ex-prisioneiro de guerra no Vietname e antigo candidato presidencial republicano, morreu no final de agosto, aos 81 anos, depois e mais de um ano a lutar contra um tumor no cérebro. A relação entre o senador do Arizona e Trump não era a melhor, com McCain a retirar o seu apoio à nomeação presidencial, em 2016, depois de ser revelado um áudio em que o então candidato tratava as mulheres de forma desrespeitosa.

A relação não melhorou quando Trump entrou na Casa Branca, com McCain a ter o voto decisivo na tentativa do presidente de revogar o Obamacare - votando contra ele. No passado, o presidente já tinha dito que não considerava McCain um herói porque foi feito prisioneiro no Vietname (só seria libertado passados mais de cinco anos).

Quando McCain morreu, muitos criticaram a reação de Trump - uma simples mensagem no Twitter, a enviar as condolências à família, travando a Casa Branca de emitir um comunicado mais formal. Mas o que causou mais problemas foi o facto de a bandeira norte-americana ter sido hasteada como normalmente na segunda-feira após a morte do senador (que tinha acontecido dois dias antes), apesar de ter continuado a meia haste noutros locais governamentais.

Foi visto como um sinal de desrespeito e choveram as críticas por parte de vários veteranos e responsáveis militares. Trump acabaria por ceder e voltar a colocar a bandeira a meia haste, indicando num comunicado que "apesar das nossas diferenças em questões políticas", respeitava o serviço prestado por McCain ao país.

Por decisão do senador, que preparou antecipadamente as suas cerimónias fúnebres, Trump não foi convidado a estar presente. Mas o presidente esteve implicitamente na catedral nacional de Washington, nos elogios fúnebres proferidos pelos ex-presidentes Barack Obama e George W. Bush, assim como por uma das filhas de McCain, Meghan.

"Estamos aqui reunidos para lamentar a morte da grandeza americana. A coisa real, não a retórica barata de homens que nunca vão chegar perto do sacrifício que ele fez, nem a apropriação oportunista daqueles que viveram vidas de conforto e privilégio enquanto ele sofreu e serviu", disse Meghan. E para o caso de haver dúvidas sobre a quem se referia, fez referência ao slogan de Trump ("Tornar a América novamente grande"), acrescentando: "A América de John McCain não precisa de voltar a ser grande, porque a América foi sempre grande."

Já Obama criticou uma política "que finge ser corajosa e forte mas, de facto, nasceu do medo". E lembrou que McCain percebia que "parte do que faz o nosso país grande é que a nossa pertença é baseada não no nosso sangue, não no nosso aspeto ou em qual é o nosso apelido. Não é baseada em saber de onde os nossos pais ou avós vieram, ou quão recentemente chegaram, mas na adesão a um credo comum de que todos somos criados iguais."

Até Bush parece ter mandado recados a Trump, segundo alguns analistas, dizendo que McCain "detestava o abuso de poder, não suportava fanáticos e déspotas arrogantes".

O próprio McCain tinha deixado uma carta para ser lida após a sua morte: "Enfraquecemos a nossa grandeza quando confundimos o nosso patriotismo com as rivalidades tribais que semearam o ressentimento, ódio e violência em todos os cantos do mundo", escreveu. "Enfraquecemos quando nos escondemos atrás de muros, em vez de derrubá-los, quando duvidamos do poder dos nossos ideais, em vez de confiar que eles são a grande força de mudança que sempre foram", indicou.

Os acordos com a justiça

A pressão do procurador-especial Robert Mueller, que investiga a alegada ingerência russa nas eleições presidenciais norte-americanas, já fez vários antigos aliados de Trump cederem: o seu ex-conselheiro em política externa da campanha, George Papadopoulos, o ex-conselheiro de segurança, Michael Flynn, ou o ex-braço direito do seu diretor de campanha, Rick Gates.

Os três estão a colaborar com a justiça, confessando os seus crimes (mentir ao FBI, em relação aos seus contactos com a Rússia ou questões económicas), mas é o antigo advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, que mais deixa o presidente em apuros.

Cohen, que no passado disse que daria o corpo às balas pelo presidente e trabalhou durante uma década para ele, admitiu ser culpado de oito crimes de evasão fiscal e de violar a lei eleitoral, tendo pago a duas mulheres "a pedido do candidato" e "com a intenção de influenciar as eleições" de 2016.

As mulheres em causa são a atriz de filmes pornográficos Stormy Daniels, que afirma ter tido uma breve ligação amorosa com Trump em 2006, e Karen McDougal, ex-modelo da revista Playboy que também terá tido um caso com o multimilionário entre 2006 e 2007. Cohen terá pago 280 mil dólares em troca do silêncio de ambas.

As investigações de Mueller à suposta ingerência russa e conluio da campanha de Trump continuam, apesar das alegadas tentativas de Trump de as travar. Uma delas ao demitir o então diretor do FBI, James Comey, que tinha sido nomeado por Obama para o cargo. O presidente terá tentado que este travasse a investigação a Flynn, sem sucesso, acabando por despedir Comey.

Este não tem poupado as críticas ao presidente, tendo mesmo escrito o livro A Higher Loyalty, no qual ajusta contas com Trump. Numa entrevista por ocasião da publicação do livro, em abril, disse mesmo que Trump é "moralmente incapaz de ser presidente".

As cassetes de Omarosa

Omarosa Manigault Newman conhece Trump desde os tempos em que se tornou numa estrela no reality show "O aprendiz", que era apresentado pelo atual presidente, tendo sido convidada para ser sua conselheira quando ele chegou à Casa Branca. Depedida em dezembro de 2017, Omarosa (como é conhecida) lançou um livro sobre o que se passa dentro do número 1600 da Pennsylvania Avenue, em Washington.

A ex-conselheira (a única afro-americana que trabalhou na Casa Branca) alega que Trump é racista e que o presidente usa com frequência a palavra nigger (uma forma pejorativa de se referir aos negros). Para complicar a situação, gravou várias conversas que manteve ao longo de quase um ano com vários membros da Administração - incluindo o seu despedimento, com o chefe de gabinete John Kelly -, havendo que tenha receio de a atacar por não saber que tipo de gravações pode ter.

Trump rejeitou todas as acusações no Twitter: "Não tenho essa palavra no meu vocabulário e nunca tive. Ela inventou tudo", disse numa mensagem. "A Omarosa tinha credibilidade zero com os media (eles nem quiseram entrevistas) quando ela trabalhou na Casa Brana. Agora que diz coisas más de mim, já falam com ela. Notícias falsas!"

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