Dez anos após a independência, Kosovo ainda divide a UE

Posições distintas no governo austríaco. Ministro alemão pressiona sérvios no âmbito de futura adesão. Augusto Santos Silva diz que reconhecimento do Kosovo por parte de Portugal não abalou relações com a Sérvia

Dez anos após a declaração unilateral da independência do Kosovo (data que hoje se assinala), a UE continua sem posição unânime sobre a questão. E com a perspetiva de um alargamento futuro aos Balcãs Ocidentais, com a Sérvia em destaque, o debate sobre o tema regressou em força por estes dias.

No fim de semana passado, em entrevista ao jornal sérvio Politika, o vice-primeiro-ministro da Áustria, Heinz-Christian Strache, disse que "o Kosovo é parte da Sérvia sem qualquer dúvida". Líder do partido de extrema-direita FPÖ, Strache foi depois corrigido pelo primeiro-ministro, Sebastian Kurz, obrigado a vir garantir: "A Áustria reconheceu o Kosovo há muito tempo e isso não vai mudar."

A Áustria, como Portugal, integrou as primeiras vagas de países a reconhecer o Kosovo em 2008. Apesar dos protestos da Sérvia (e da sua grande aliada Rússia). Questionado pelo DN sobre se Portugal fez bem em reconhecer a independência kosovar e se hoje voltaria a tomar a mesma medida, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva disse: "Foi uma decisão tomada pelo governo em 2008 e que eu respeito." O chefe da diplomacia garante que isso não afetou as relações com a Sérvia. "Do ponto de vista político-diplomático são muito boas. São-no tradicionalmente e não foram afetadas pelo reconhecimento. A Sérvia percebeu as razões de Portugal."

Com uma das populações mais jovens da Europa (53% dos habitantes tem menos de 25 anos), uma taxa de desemprego de 34,8%, o radicalismo islâmico à espreita e as tensões entre albaneses e sérvios sempre latentes, o Kosovo é um dos países mais pobres do continente. Durante muito tempo um protetorado internacional, gerido por missões da ONU, NATO e UE, o país só é reconhecido como tal por 113 dos 193 Estados da ONU até ao momento. Dos 28 membros da UE, cinco (Espanha, Roménia, Chipre, Grécia e Eslováquia) não reconhecem ainda hoje o Kosovo.

A Rússia, aliada da Sérvia, usou o reconhecimento do território para calar os líderes dos países que criticaram a anexação russa da Crimeia durante o conflito na Ucrânia, alterando pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial as fronteiras da Europa. O facto de agora se discutir o próximo alargamento, com a Sérvia a poder entrar na UE possivelmente no ano de 2025, levou o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão a dizer nesta semana que o reconhecimento do Kosovo é condição para a Sérvia poder entrar no clube europeu.

"Se a Sérvia quer andar na direção da União Europeia, é condição a primazia do Estado de direito, mas também a aceitação da independência do Kosovo", afirmou na quarta-feira Sigmar Gabriel. O presidente sérvio recusou a ideia. "Se não houver um compromisso haverá um conflito congelado durante décadas e décadas", declarou Aleksandar Vucic. A Guerra do Kosovo fez 13 mil mortos e, durante 18 anos, a missão da NATO (a KFOR) contou com um contingente militar português. Questionado pelo DN sobre o futuro alargamento da UE, o ministro Santos Silva lembrou que a Sérvia é neste momento país candidato, mas o Kosovo não. "Não sei como será daqui a 20 anos. Mas neste momento a adesão do Kosovo é uma questão que não se põe."

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