De esterilizar pobres a armar o cidadão: as 7 propostas mais radicais de Bolsonaro

O candidato líder das sondagens sem Lula tem ideias no mínimo radicais sobre segurança pública, a sua área de expertise, educação, política externa e saúde. Fique a conhecer algumas

Com apenas dois projetos de lei e uma emenda aprovados em 27 anos como deputado federal, Jair Bolsonaro (PSL) nunca se destacou pela atividade no Congresso ao serviço dos nove partidos em que militou. Foi por causa de ideias controversas, radicais, incríveis, loucas, retrógradas, revolucionárias ou corajosas - o adjetivo fica à escolha do leitor - que se tornou notado. Famoso, até. Ao ponto de anunciar uma candidatura altamente competitiva - lidera com larga margem no cenário sem Lula da Silva (PT) - à presidência da República para as eleições de outubro.

À medida que a candidatura foi ganhando força, o ex-capitão do exército de 63 anos cercou-se de uma equipa económica, liderada pelo conceituado liberal Paulo Guedes, que visa torná-lo mais palatável perante o mercado financeiro. E em paralelo, foi corrigindo ou amenizando algumas das propostas na área social. Outras não.

1. Reconhecer Brilhante Ustra como herói da pátria

"Caso eu seja eleito presidente, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra será reconhecido como herói da pátria", disse Bolsonaro no ano passado em entrevista por vídeo ao jornal O Estado de S. Paulo. Já durante o seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), o hoje candidato havia homenageado "Brilhante Ustra, o pavor da Dilma". Ustra, falecido em 2015, foi o primeiro militar condenado pela justiça brasileira pela prática de tortura durante o período da ditadura militar (1964-1985), quando chefiou o DOI-CODI, um dos órgãos de repressão política do regime.

Ainda a propósito da ditadura militar, perante um protesto contra a tortura na Câmara dos Deputados, dirigiu-se aos manifestantes dizendo que "o grande erro foi torturar e não matar". Já em 1998, em considerações sobre a ditadura chilena, afirmara que "Pinochet devia ter matado mais gente". Também chegou a pedir o "fuzilamento" de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), presidente de 1995 a 2003, no "Programa do Jô", da TV Globo.

2. Metralhar a Rocinha

No auge da guerra entre organizações criminosas no início deste ano na maior favela do Brasil, a Rocinha, no Rio de Janeiro, o candidato sugeriu num encontro com cerca de mil empresários e investidores metralhar o local. Segundo um blogue de O Globo, o plano seria distribuir milhares de panfletos pela favela, por helicóptero, a dar seis horas para os traficantes se entregarem; terminado o prazo, se eles continuassem escondidos, metralharia a Rocinha.

A propósito da controversa ação policial conhecida como Massacre do Carandiru, quando 111 presos desarmados foram mortos após tentar um motim, disse que os agentes devima ter "matado 1000".

3. Porte de arma para "o cidadão de bem"

O candidato do PSL defende a revogação do estatuto do desarmamento, que entrou em vigor no dia seguinte à chegada de Lula (PT) ao Planalto, em 2003. Bolsonaro, que diz dormir com uma arma ao lado e que saúda os seus apoiantes simulando disparos para o ar com as mãos, declarou em vídeo nas suas redes sociais que "o cidadão de bem" - sem especificar exatamente o que significa a expressão - "deve ter liberadas as armas de fogo com registo definitivo sem taxas".

"Você não combate violência com amor, você combate com porrada, pô. Se bandido tem pistola, a gente tem que ter fuzil", explicou ao jornal Folha de S. Paulo. "Quem assalta, estupra, sequestra e mata não é vítima da sociedade, é vagabundo!", acrescentou, via twitter.

4. Militar no ministério da educação

Uma das principais bandeiras da carreira de Bolsonaro foi a oposição à distribuição, em 2011, pelo então ministro da Educação Fernando Haddad (PT), hoje provável substituto de Lula na corrida presidencial, de material didático sobre sexualidade, especialmente no ponto em que se falava de casais formados por pessoas do mesmo sexo.

Para combater aquilo a que chamou de "kit gay", o ex-capitão do exército pretende um militar no ministério da educação, admitiu ao programa The Noite, do SBT, fiel ao seu princípio de "encher o governo de militares". Quer ainda o regresso das aulas de Educação Moral e Cívica.

Já no debate na TV Bandeirantes, que deu o ponto de partida da campanha eleitoral, defendeu "uma escola militar por cada estado".

Na fase da contestação ao "kit gay", proferiu algumas das suas mais conhecidas frases sobre homossexualidade: "Seria incapaz de amar um filho homossexual, preferia que ele morresse num acidente do que se me aparecesse com um bigodudo", à revista Playboy; e "não vou combater nem discriminar mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater", depois de ver Fernando Henrique Cardoso segurar uma bandeira arco-íris, em 2002.

Na área dos costumes, uma das que fez Bolsonaro ganhar fama de radical, diz também que uma vez presidente vetará a legalização do aborto, mesmo que o Congresso a aprove. É também contra a liberalização de qualquer droga: "E a seguir, vamos liberalizar a corrupção também?", pergunta.

5. Sair da Mercosul e da ONU

Na política externa, Bolsonaro já criticou pesadamente a Mercosul, mercado comum entre países sul-americanos, dizendo privilegiar acordos bilaterais com as maiores economias, antes de todas as outras, a dos Estados Unidos.

Após o Comité de Direitos Humanos da ONU ter determinado ao Brasil que Lula seja candidato, afirmou que caso eleito tiraria o país das Nações Unidas. No dia seguinte, corrigiu-se: "Não da ONU, queria dizer dos Direitos Humanos da ONU".

Afirmou também que a primeira visita que fará enquanto chefe de estado será a Jerusalém. Elogiou quando Donald Trump transferiu a embaixada norte-americana de Telavive para a cidade e disse que fará o mesmo: "Isso reforçaria aqulo a que nossos irmãos de Israel têm direito, o seu território". Criticou ainda o distanciamento entre Brasília e Israel durante o consulado do PT - "atitude destrambelhada, inoportuna, hipócrita e covarde" - e foi batizado nas águas do Jordão pelo Pastor Everaldo, à época seu colega de partido no PSC.

6. Esterilização dos pobres

Ao longo dos 27 anos como deputado, o líder das sondagens sem Lula defendeu em discursos a esterilização dos mais pobres como forma de conter a criminalidade e a miséria.

Opositor dos programas sociais da era do PT Bolsa Escola e Bolsa Família, o hoje candidato à presidência disse no plenário da Câmara dos Deputados em Novembro de 2013 que no Brasil "pobre só tem uma utilidade: votar". "Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso para votar no governo que está aí. Só para isso e nada mais serve essa nefasta política de bolsas do governo".

A primeira vez que se referiu ao tema foi em 1992: "Não podemos mais fazer discursos demagógicos, apenas cobrando recursos e meios do governo para atender esses miseráveis que proliferam cada vez mais por esta nação". Em 1993, acrescentou: "Defendo a pena de more e o rígido controlo da natalidade".

em 2008: "Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos".

7. Vender áreas quilombolas

Jair Bolsonaro defendeu em julho que as cerca de 2000 áreas quilombolas - comunidades negras rurais compostas por descendentes de escravos vivendo da cultura de subsistência e mantendo manifestações culturais ancestrais - sejam exploradas e vendidas.

No ano passado, uma palestra no Clube Hebraica, em São Paulo, levou-o a ser acusado de racismo pela procuradoria-geral da República. "Visitei uma comunidade quilombola e o afro-descendente mais leve que encontrei lá pesava sete arrobas (...) eles não fazem mais nada (...) e nem para procriar servem mais".

A opinião de candidato sobre áreas indígenas é mais ou menos semelhante.

Numa entrevista ao programa da TV Cultura Roda Vida, também em julho, Bolsonaro causou controvérsia ao suavizar o papel dos portugueses na escravatura. "O português nem pisava Árica, eram os negros que entregavam os escravos".

São Paulo

Ler mais

Premium

Ricardo Paes Mamede

A "taxa Robles" e a desqualificação do debate político

A proposta de criação de uma taxa sobre especulação imobiliária, anunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) a 9 de setembro, animou os jornais, televisões e redes sociais durante vários dias. Agora que as atenções já se viraram para outras polémicas, vale a pena revistar o debate público sobre a "taxa Robles" e constatar o que ela nos diz sobre a desqualificação da disputa partidária em Portugal nos dias que correm.

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.