Críticas e ameaças de oradores levam New Yorker a desconvidar Stephen Bannon

Revista tinha convidado estratega de Donald Trump para uma entrevista no seu festival. Contestação e ameaças de outros oradores de que faltariam ao evento fizeram responsáveis mudar de opinião

Stephen Bannon já não vai participar em outubro no festival da New Yorker. O convite ao antigo estratega do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi retirado depois de vários participantes terem ameaçado não marcar presença no evento da revista.

O ator e comediante Jim Carrey, o realizador Judd Apatow e a vencedora de um Pulitzer Kathryn Schulz divulgaram nas redes sociais o seu desagrado pelo convite efetuado ao ex-assessor de Trump frisando que não estariam presentes no festival que vai decorrer entre 5 e 7 de outubro.

O convite a Stephen Bannon tinha sido justificado pelo editor-chefe da revista David Remnick com o facto de ter a intenção de "lhe colocar perguntas difíceis e de ter uma conversa séria e combativa".

A entrevista perante uma audiência ao vivo colocaria, segundo Remnick, "uma maior pressão na conversa o que não acontece numa entrevista a sós. Não podes 'saltar' entre o on e o off record".

No entanto, as declarações sobre a extrema-direita e os laços que tem com grupos nacionalistas e de extrema-direita fazem de Bannon uma figura pouco consensual.

Após ser anunciada, pelo New York Times, a presença de Bannon a escritora Kathryn Schlz publicou no Twitter que adora trabalhar na New Yorker, mas que estava "muito chocada com isso [o convite]. E já deixei isso claro a David Remnick".

A esta publicação a vencedora do prémio Pulitzer em 2016 - com uma peça sobre a probabilidade de um grande sismo atingir a costa oeste dos EUA - acrescentou: "Adoro a revista e diariamente agradeço por fazer parte dela. Mas, também acredito que devemos às coisas que amamos críticas honestas. E obediência à nossa consciência."

Na segunda-feira, numa nota em que anunciou o cancelamento da entrevista, Remnick justificou o convite. Disse que não estava a oferecer uma plataforma para Bannon falar das suas ideias sobre o "nacionalismo, racismo, antissemitismo" e que "entrevistar Bannon não é apoiá-lo".

Frisou ainda não querer que "leitores e funcionários bem-intencionados pensem que ignorei as suas preocupações. Pensei nisso e conversei com colegas e reconsiderei. Mudei de ideias. Os nossos escritores já entrevistaram Stephen Bannon para a New Yorker anteriormente e eu, se a ocasião se proporcionar, irei entrevistá-lo num ambiente mais jornalístico e não no palco".

Bannon dirigiu a campanha de Donald Trump nos meses finais das eleições presidenciais e foi o principal estratega da Casa Branca até agosto de 2017.

Num comentário ao facto de ter sido "desconvidado", Bannon frisou: "A razão para ter aceitado o convite foi simples: estaria enfrentando um dos jornalistas mais destemidos da sua geração. No que chamaria um momento decisivo, David Remnick mostrou que é um covarde quando confrontado pela multidão online uivando".

O caso Le Pen em Portugal

Este caso que envolve Stephen Bannon e a New Yorker acontece menos de um mês depois de a organização da Web Summit que vai ter lugar em Lisboa entre 5 e 8 de novembro ter retirado o convite a Marine Le Pen para discursar num dos dias do evento.

Paddy Cosgrave, responsável pela organização do evento, tinha convidado a líder do partido Reunião Nacional (antiga Frente Nacional) mas depois de muita contestação a essa decisão acabou por anunciar que Marine Le Pen já não fazia parte do lote de oradores.

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