Como um vídeo viral pode ser enganador. Um caso americano

Um vídeo controverso de estudantes católicos com índios americanos aparentava contar uma verdade simples. Mas outro vídeo pôs o primeiro em questão. Nenhum deles conta a história toda.

Num pequeno vídeo partilhado viralmente desde sexta-feira, estudantes católicos do Kentucky visitando Washington são vistos aparentemente em confronto, e a gozar, com índios americanos que estavam a participar no mesmo sítio numa Marcha dos Povos Indígenas.

No sábado, o vídeo já tinha sido condensado numa única imagem: um dos estudantes, usando um boné "Make America Great Again" (slogan principal da campanha que levou Donald Trump a Presidente dos EUA nas eleições de 2016), sorrindo para um chefe tribal índio do Omaha, numa atitude interpretada como de confronto entre jovens estudantes brancos com descendentes dos nativos americanos. Uma atitude dos estudantes rapidamente difundida no espaço público, pelas redes sociais mas também por órgãos de comunicação social, como racista.

Porém, enquanto o fim de semana passava, um outro vídeo veio à superfície, colocando dúvidas sobre as interpretações que haviam sido feitas a propósito do primeiro vídeo. A história está contada num artigo na revista The Atlantic.

Este foi filmado por quatro membros de um grupo nacionalista denominado Hebreus Israelitas Negros ("Black Hebrew Israelites"), uma organização de negros norte-americanos que acreditam ser descendentes dos israelitas originais (e que a comunidade judaica dos EUA não reconhece como judeus). Estavam também no mesmo sítio dos índios e dos estudantes católicos, o Lincoln Memorial. Ao longo de uma hora e 45 minutos o grupo criticou e ridicularizou pessoas que por ali passavam, de todo o tipo.

Segundo um depoimento de Nick Sandmann, o estudante que foi filmado aparentemente numa postura intimidante face ao ancião índio Nathan Philips, as imagens geraram um mal-entendido, por terem sido retiradas do contexto.

Na verdade, ainda de acordo com Sandmann, os estudantes também se sentiram intimidados com o protesto dos Black Hebrews - que lhes chamaram de tudo, de maricas a pedófilos - e tentaram ultrapassar o momento cantando mais alto, para "abafar" as provocações. Nathan Philips, no entanto, mantém que ele e os seus companheiros índios se sentiram intimidados pelo grupo dos estudantes, a maior parte deles brancos.

Sendo que os dois vídeos apresentam verdades diferentes de um mesmo acontecimento, então no que se deve acreditar?

O site Reason, ultra liberal - ou libertário, como se prefere designar - considerou que os media em geral caracterizaram erradamente a atitude dos estudantes católicos. Na verdade, terá sido o grupo de índios liderados por Nathan Philips que se colocou entre os Black Hebrews e os estudantes católicos, caminhando para o meio destes. Os estudantes ficaram sem saber o que pensar, sem perceber se o ancião e os seus companheiros estavam do seu lado ou não. Nick Sandmann acabou por ficar frente a frente com Nathan Philips, olhos nos olhos, tentando nada expressar com o seu olhar. Não fez um gesto agressivo, limitou-se a ouvir o velho índio a cantar e tocar no seu tambor.

Nathan Philips terá procedido assim, segundo explicou depois, por achar que os estudantes "estavam em vias de atacar" os quatro ativistas negros que os estavam a provocar. "Coloquei-me entre a fera e a sua presa", contou o velho índio - que colocou os estudantes na categoria de "feras" e os ativistas negros na de "presas".

Segundo cronista da The Atlantic, Ian Bogost, este caso só prova como as imagens podem, mais do que refletir uma realidade, na verdade construí-la. Porém, este tipo de vídeos são considerados fiáveis pela opinião pública - e contribuem fortemente para a antagonização da sociedade norte-americana, cada vez mais polarizada entre extremos. Mas a verdade pode não estar num determinado ponto de vista. A verdade encontra-se procurando o material certo da câmara certa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Patrícia Viegas

Espanha e os fantasmas da Guerra Civil

Em 2011, fazendo a cobertura das legislativas que deram ao PP de Mariano Rajoy uma maioria absoluta histórica, notei que quando perguntava a algumas pessoas do PP o que achavam do PSOE, e vice-versa, elas respondiam, referindo-se aos outros, não como socialistas ou populares, não como de esquerda ou de direita, mas como los rojos e los franquistas. E o ressentimento com que o diziam mostrava que havia algo mais em causa do que as questões quentes da atualidade (a crise económica e financeira estava no seu auge e a explosão da bolha imobiliária teve um impacto considerável). Uma questão de gerações mais velhas, com os fantasmas da Guerra Civil espanhola ainda presente, pensei.