"Agora também sou separatista". Milhares bloqueiam estradas e param a Catalunha

Greve geral e manifestações contra a violência policial deixam Catalunha em estado de caos, dois dias após referendo

Dezenas de milhares de pessoas, estudantes na sua maioria, enchem esta terça-feira o centro de Barcelona numa manifestação pacífica para criticar a violência da polícia utilizada no referendo de domingo e pedir a independência da Catalunha.

Simultaneamente, uma greve geral convocada na Catalunha por cerca de 40 organizações sindicais, políticas e sociais está a ter uma "adesão muito elevada" em setores como os transportes, o comércio ou a agricultura. Muitas escolas estão fechadas e uma percentagem muito elevada do pequeno comércio está parado nas principais localidades da Catalunha.

"Fora as forças de ocupação", "Barcelona é antifascista", "Mariano não manda nada aqui" e "SOS Europa" foram algumas das palavras de ordem que mais se ouviam.

Não sei se na Catalunha há uma maioria pela independência, mas os espanhóis são como os fascistas eram e agora também sou separatista

Vários helicópteros da polícia sobrevoavam o centro da cidade e os Mossos d'Esquadra (polícia regional) cortavam o tráfico aos automóveis para assegurar a manifestação de Barcelona, que se estendia por várias artérias da cidade.

Um total de 24 manifestações cortaram esta terça-feira de manhã a circulação em várias estradas e autoestradas da Catalunha e provocaram, nalguns casos, filas superiores a 10 quilómetros, segundo as autoridades catalãs.

"Não sei se na Catalunha há uma maioria pela independência, mas os espanhóis são como os fascistas eram e agora também sou separatista", disse à agência Lusa Andrea Sassi, acrescentando que lhe parecia ser a "reação normal" depois do que tinha acontecido no domingo.

Os estudantes apoiavam a "paralisação geral" convocada pelos sindicatos e outras associações cívicas catalãs como resposta à "violência desproporcionada da atuação da Polícia Nacional e da Guardia Civil" em várias assembleias de voto no referendo de domingo, considerado ilegal pelo Estado espanhol.

Catalães pedem a saída da polícia. Madrid prolongou estadia dos agentes

Os populares pedem também a saída dos agentes da polícia nacional que foram destacados para a zona para impedir a realização do referendo e que foram acusados de violência policial. A repressão policial usada por Madrid para impedir os catalães de irem às urnas teve como resultado mais de 800 feridos, segundo o governo catalão.

Também o conselheiro do Território do governo regional catalão, Josep Rull, apelou hoje à partida dos agentes da polícia espanhola, acusando-os de serem "um fator de tensão e não de tranquilidade" na Catalunha.

"Não estão a fazer nada na Catalunha (...) Vão-se embora e regressem a casa e às suas famílias", disse, em declarações à TV3.

O ministro do Interior de Espanha, Juan Ignacio Zoido, acusou por sua vez o presidente do governo da Catalunha, Carles Puigdemont, de fomentar o assédio popular a elementos das forças policiais nacionais destacadas na Catalunha para o referendo de domingo e "incitar à rebelião", segundo a AFP.

Para o ministro, que hoje falou com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, sobre a situação dos agentes da Polícia Nacional e Guardia Civil destacados naquela região autónoma, a alegada perseguição aos agentes é "uma consequência direta das palavras do senhor Puigdemont pedindo que guardas civis e polícias se vão embora".

Madrid prolongou até 11 de outubro a permanência dos agentes das forças policiais na Catalunha, inicialmente prevista apenas até quinta-feira, 5 de outubro.

Josef Carrillo, um catalão de meia-idade, criticou o rei Felipe IV por estar "escondido, sem dizer nada, nem sequer desejado a recuperação daqueles que também considera serem espanhóis e foram feridos pela polícia no domingo".

Não pensamos que os casos de violência tivessem sido generalizados

Os presentes empunhavam bandeiras catalãs, mas aqui e ali também passavam grupos de jovens com bandeiras espanholas, sem que houvesse qualquer sinal de tensão ou violência.

"Não pensamos que os casos de violência tivessem sido generalizados" e estamos aqui para apoiar a "convivência entre todas as partes", disse Mara Almeida com uma bandeira espanhola pelas costas.

O Governo catalão sustentado por uma maioria parlamentar que apoia a independência da região organizou no domingo um referendo ilegal, muito polémico, em que apenas 42% dos eleitores foram votar para decidir por esmagadora maioria que desejam ser independentes de Espanha.

A consulta foi boicotada pelos movimentos e partidos que não apoiam a separação da Catalunha de Espanha, apesar de muitos deles também defenderem a realização de uma consulta popular na região, mas feita de acordo com as regras aceites por todos e não apenas de uma das partes.

A votação de domingo foi marcada pela intervenção da polícia espanhola, que tentou encerrar da parte da manhã alguns centros eleitorais, numa ação que teve momentos de grande violência, que passaram nas televisões de todo o mundo.

Os resultados finais do referendo são impossíveis de certificar com as garantias normais para consultas deste tipo e não têm a homologação internacional.

O chefe do Governo catalão, Carles Puigdemont, vai nos próximos dias levar os resultados da consulta ao parlamento regional para decidir se declara unilateralmente a independência.

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