Brexit. O que defendem os antigos líderes britânicos?

Como os restantes políticos e cidadãos britânicos, os ex-dirigentes do Partido Conservador e do Labour têm posições diversas. Três dos quatro primeiros-ministros vivos defendem um segundo referendo.

O homem que desencadeou o Brexit ao cumprir uma promessa eleitoral remeteu-se ao silêncio desde o momento em que se demitiu. David Cameron, que fez campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia e que saiu de cena face ao resultado do referendo que apadrinhou, voltou a manifestar-se sobre o momento político.

"Não, claro que não", foi como respondeu à Sky News se estava arrependido de ter convocado o referendo. Também declinou um pedido de desculpas, uma vez que, no seu entender, se limitou a fazer o que prometera. O homem que chefiou os tories entre 2005 e 2016 e que foi primeiro-ministro de 2010 a 2016 mostrou-se "muito preocupado com o que está a acontecer" e declarou apoio a Theresa May "nos esforços para tentar e obter uma parceria próxima com a União Europeia", afirmou na semana passada.

No dia em que alguns dos seus colegas de partido desafiaram a liderança de May, Cameron escreveu no Twitter: "Espero que os deputados conservadores apoiem a primeira-ministra. Não devemos distrair-nos de procurar o melhor resultado com os nossos vizinhos, amigos e parceiros da UE."

A mensagem recebeu milhares de respostas dos utilizadores da rede social e não se consegue descortinar uma de apoio.

John Major: revogação do Artigo 50.º

O anterior primeiro-ministro conservador, John Major, falou na terça-feira e defendeu a revogação do Artigo 50.º do Tratado de Lisboa, em linha com o que o Tribunal de Justiça da UE já fizera saber na semana passada e que anunciou formalmente na segunda-feira. "Precisamos revogar o artigo 50.º com efeito imediato. O relógio, por enquanto, deve ser parado", disse Major, que enquanto líder também enfrentou uma revolta dos conservadores sobre o Tratado de Maastricht, em 1993.

"Está claro que agora precisamos do bem mais precioso de todos: o tempo. É tempo de uma reflexão séria e profunda por parte do Parlamento e dos cidadãos. Haverá um caminho através do actual pântano, sempre haverá", defendeu Major, de 75 anos. O homem que sucedeu a Margaret Thatcher e governou o país de 1990 a 1997 é pela permanência do Reino Unido na UE e já tinha apelado à realização de um segundo referendo como forma de resolver a crise. "Somos um aliado mais valioso para a América devido à nossa influência na Europa e somos mais valorizados pela Europa devido à nossa estreita relação com a América", concluiu.

Os brexiteers Smith, Howard e Hague

William Hague (1997-2001), Iain Duncan Smith (2001-2003) e Michael Howard (2003-2005) estiveram à frente dos conservadores entre o consulado de John Major e o de David Cameron, durante os anos de governo de Tony Blair e Gordon Brown. O inglês, o escocês e o galês defendem a retirada do Reino Unido, mas não estão sintonizados quanto ao resto.

Hague tem estado com Theresa May. Enquanto a governante tentava, sem êxito, receber mais do que simpatia em Berlim e Bruxelas, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros defendia a sua posição num artigo no Daily Telegraph.

Já Michael Howard propõe, simplesmente, que não se chegue a acordo sobre a saída e que a líder deve afastar-se caso o voto sobre o Brexit seja reprovado no Parlamento. Posição semelhante tem Iain Duncan Smith, que entretanto fez saber que "é tempo de mudar", em alusão à liderança de Theresa May. Duncan Smith é contrário à ideia de um segundo referendo, tendo argumentado que os eleitores que votaram pela saída poderiam revoltar-se e causar tumultos.

Trabalhista rima com europeísta

Neil Kinnock (1983-1992), Tony Blair (1994-2007), Gordon Brown (2007-2010) e Ed Miliband (2010-2015) representam diferentes gerações de lideranças do Labour. Mas todos estão de acordo num ponto - e do outro lado da barricada em relação ao atual dirigente máximo, Jeremy Corbyn: são europeístas.

Kinnock, de 76 anos, e Miliband, de 48, são os que menos têm falado sobre o tema. Kinnock escreveu na Prospect, em abril, como mudou de opinião sobre a Europa ao longo dos anos. "A um ritmo dolorosamente lento, a maioria do movimento trabalhista mudou [...] Em 1987, os trabalhistas comprometeram-se a 'trabalhar de forma construtiva com os nossos parceiros europeus'. Trinta anos depois, isso ainda faz mais sentido para o nosso país", defende. Miliband, que perdeu as eleições para David Cameron, fez campanha no referendo de 2016 pela permanência. Na quarta-feira, foi notícia por ter enviado uma mensagem humorística a Theresa May.

"Se correr mal esta noite [moção de censura], eu posso assegurar-lhe um futuro brilhante no podcasting".

Miliband tem um podcast com o locutor Geoff Lloyd, Reasons to be cheerful.

Se há pessoa que não pode ser acusada de ter baixado os braços é Tony Blair. Por exemplo, na Web Summit reiterou ser "100% contra o Brexit" e que tudo irá "fazer para o impedir". Tem sido uma espécie de grilo falante sobre o Brexit, embora a sua popularidade nunca tenha recuperado do seu papel na Guerra do Iraque. Segundo o YouGov, é o 20.º político trabalhista em popularidade. Blair tinha aconselhado Theresa May a não levar o acordo ao Parlamento e a acionar um segundo referendo. Nessa votação, defende duas opções: permanência com uma "renovada oferta da Europa" sobre a imigração ou um Brexit com um acordo comercial similar ao do Canadá com a UE.

O sucessor de Blair, Gordon Brown, acredita que, em algum momento, a consulta popular irá existir. "Não posso dizer quando isso irá ocorrer, mas acredito que haverá um referendo", disse numa conferência em Londres. "A incapacidade de chegar a acordo e a incerteza prolongada que daí advém significa ignorar os verdadeiros desafios a longo prazo - as quatro principais ameaças para o futuro - os planos de investimento a longo prazo das empresas em risco; o Reino Unido em risco; a influência global britânica corre o risco de atingir o seu ponto mais baixo de sempre e a coesão social britânica está em perigo devido à nossa incapacidade de enfrentar as questões levantadas na votação do Brexit", justificou.

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