Bolsonaro vs. Haddad ou a radicalização vista pelos jornais brasileiros

Os resultados da primeira volta das presidenciais e o que espera o Brasil na segunda volta visto pelos editoriais dos jornais brasileiros

Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal, venceu a primeira volta das presidenciais brasileiras, mas ficou aquém da percentagem de votos necessária para evitar uma segunda volta, frente a Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores. Editoriais dos jornais brasileiros analisam o resultado e antecipam o que é preciso fazer na campanha até os eleitores voltarem às urnas, a 28 de outubro.

Uma segunda volta radicalizada

"Falta muito ao PT, neste momento, para liderar uma esquerda com agenda factível, assim como Bolsonaro ainda não mostrou preparo e consistência para conduzir a direita emergente. Um segundo turno radicalizado não será a melhor chance para que ambos demonstrem sua capacidade de governar", lê-se no editorial da Folha de São Paulo, intitulado "Brasil à direita".

O jornal brasileiro escreve que na "eleição presidencial tida como a mais imprevisível desde 1989", afinal passaram à segunda volta as duas forças políticas que destacavam nas sondagens desde o ano passado. "A surpresa (...) foi a impressionante onda que se formou nos momentos finais em favor de Jair Bolsonaro" e dos seus aliados a nível estadual e legislativo.

"Se as eleições municipais de 2016 já mostravam uma guinada conservadora do eleitorado, agora caminhou-se mais à direita - e com rejeição a líderes mais tradicionais", escreve a Folha, indicando que Bolsonaro "conquistou ampla vantagem nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, tomando reduto que haviam escolhido o PSDB há quatro anos".

Em relação ao PT, que chega à segunda volta pela quinta vez consecutiva, o editorial diz que "sofreu derrotas cruciais" e avisa que se subestimou, de maneira geral, "a intensidade da rejeição ao partido, em particular nos grandes centros urbanos e entre os eleitores de renda alta e média". Fernando Haddad chega à segunda volta com os votos do Nordeste, onde ainda se impõe a força do ex-presidente Lula da Silva.

A força da oposição ao PT

O jornal O Globo escreve no editorial que numa "campanha fora dos padrões", a primeira volta "confirmou as expectativas" da vitória de Bolsonaro, indicando que a designação de Haddad como candidato do PT, após a impugnação de Lula, só serviu para o crescimento do apoio ao candidato do PSL.

"Nesse momento, entrou em ação de maneira clara uma das características desta eleição, o voto antipetista. Se somado, deve representar hoje a força política mais poderosa no Brasil", lê-se no editorial, segundo o qual "a oposição ao PT é um dos vértices do espaço de radicalização que se abriu nestas eleições, entre direita e esquerda."

"Estas eleições demonstram que o eleitorado continuou a cobrar do PT a conta da corrupção e também dos erros crassos na condução da economia cometidos por Dilma, sob as bênçãos de Lula", com uma série de derrotas emblemáticas - incluindo da própria Dilma, que não conseguiu ser eleita para o Senado pelo estado de Minas Gerais.

"Parece também haver outra onda, a bolsonarista. Além do antipetismo, ela é alimentada pela própria guinada ao conservadorismo na sociedade refletida no discurso do candidato e pelo clamor da população por segurança, por meio do endurecimento do Código Penal e apoio às polícias, também defendido por Bolsonaro", lê-se no texto.

A segunda volta "é a chance que se tem da efetiva discussão de propostas dos candidatos para o enfrentamento dos problemas nacionais. Que são grandes." O jornal escreve que não houve na primeira volta um debate das propostas objetivas. O editorial intitula-se "Segundo turno precisa discutir, enfim, programas".

"Em alguns casos, porque não foram formuladas. Ou, se existiram, deixaram de ser divulgadas", indicam, em referência a Bolsonaro. Já Haddad "herdou um programa de cuja construção não participou" e que "foi feito para Lula, com um viés de radicalismo com o qual Haddad parece não concordar".

"A disputa entre Bolsonaro e Haddad simboliza a radicalização no choque entre direita e esquerda, que se manterá. Nada que possa assustar, se todas as forças políticas se submeterem às regras do estado democrático de direito. Com alguns percalços - resistência do PT a submeter-se ao Judiciário, declarações exóticas, algumas retificadas, da chapa Bolsonaro-Mourão -, o primeiro turno transcorreu como se espera num país estável institucionalmente", conclui o editorial.

O fastio com a política tradicional

O jornal O Estado de S. Paulo prevê "uma escolha muito difícil" na segunda volta que vai opor "duas candidaturas que se nutriram dos antagonismos que hoje parecem predominar na sociedade brasileira, à esquerda e à direita", lembrando que não haverá pela primeira vez um candidato de centro. "O eleitor, que tradicionalmente privilegiou a moderação, a despeito do calor das campanhas, optou pelos extremos, denotando seu fastio com a política tradicional depois de anos de sucessivos escândalos."

De um lado Bolsonaro, "o truculento apologista da ditadura militar", que até "o mais bem informado eleitor terá dificuldade em saber quais são as suas propostas para tirar o país da rota do iminente desastre fiscal". Um candidato que "com menos de dez segundos de propaganda eleitoral gratuita" optou por investir tudo nas redes sociais, "ambiente normalmente interditado ao contraditório e propício ao discurso de ódio".

Do outro lado, Haddad, "o preposto de um presidiário", cujas ideias são bem conhecidas de todos, "pois foram essas ideias que lograram mergulhar o país numa profunda crise económica, política e moral". O Estado de S.Paulo apelida-o de "porta-voz de presidiário" e diz que as suas propostas passam por "fazer terra arrasada de tudo o que foi realizado até aqui pelo atual governo para estancar a crise gerada pela irresponsabilidade lulopetista".

Para o jornal, "o eleitor estará diante de uma escolha muito difícil e a campanha, que deveria servir para iluminar um pouco mais as propostas em jogo, provavelmente servirá para aumentar ainda mais os antagonismos, as indefinições e as confusões que, afinal, garantiram a passagem de Bolsonaro e Haddad para o segundo turno".

O jornal defende que tanto eleitores como candidatos têm que entender que, em algum momento, "não é possível governar com base no rancor". Para O Estado de S. Paulo, "a escolha precisa recair naquele candidato que se dispuser a alcançar alguma forma de compromisso mínimo, com todas as principais forças políticas, para garantir a governabilidade e estabilidade. Isso não significa lotear o governo pelo maior preço, mas privilegiar apoios consubstanciados em honestidade, decência e competência. E a permanente lembrança de que quem se eleger governará todo o país, e não apenas sua patota [grupo de amigos]".

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