Alan Kurdi: o menino morto na praia e a história contada pela tia que carrega a culpa

A imagem do corpo de Alan Kurdi numa praia da Turquia tornou-se ícone do drama dos refugiados sírios. Agora, a tia de Alan conta em livro a trágica história da família destruída na travessia do Mar Egeu

Passaram já três anos desde que a imagem de um menino inerte, deitado de cara para baixo sobre a areia de uma praia turca, chocou o mundo e abalou consciências sobre o drama dos refugiados sírios que tentavam chegar à Europa.

Alan Kurdi, então com dois anos, imortalizou-se como bandeira de uma causa que continua sem solução definitiva. Perdeu a vida em setembro de 2015, juntamente com a mãe e o irmão, quando a família fazia a travessia do mar Egeu, da Turquia para a Grécia, num daqueles barcos frágeis que atravessam o Mediterrâneo carregados de refugiados à procura de um futuro.

Três anos depois, Tima Kurdi, a tia de Alan, resolveu por em livro a história do menino da praia. "The Boy on the Beach. My Family's Escape from Syria and Our Hope for a New Home", é o título do livro que Tima escreveu para "mostrar ao mundo que esta família não era diferente das outras", contou ao jornal espanhol El País.

"Também somos seres humanos, também festejamos aniversários, trabalhamos, estudamos. Tínhamos uma vida antes de começar a guerra", explica Tima Kurdi, que diz ainda "carregar, para toda a vida, a culpa pela morte" dos seus sobrinhos, Alan e Ghalib, e da sua cunhada, Rehanna. A viver no Canadá há 26 anos, foi ela quem deu os cinco mil dólares (4300 euros) necessários para comprar a travessia. "Se não tivesse dado o dinheiro, provavelmente estariam ainda todos vivos", lamenta.

A 2 de setembro de 2015 Tima Kurdi foi confrontada, tal como o resto do mundo, com a imagem do pequeno Alan deitado sobre a areia de uma praia de Bodrum, na Turquia. "Ao início não estava segura de que se tratava do meu sobrinho, mas depois reconheci a camisola vermelha, os calções azuis e os sapatos que lhe tinha dado de presente no ano anterior", recorda.

Se não tivesse dado o dinheiro [para a travessia], provavelmente estariam ainda todos vivos

Depis de a imagem do pequeno Alan se ter tornado viral, muitas versões correram mundo sobre a história dos Kurdi. Por isso, Tima sentiu a necessidade de contar a história real desta família, que reflete o drama vivido por milhões de migrantes que todos os anos tentam fugir da Síria e de outras zonas de guerra.

Uma das coisas erradas que se disseram sobre os Kurdi na altura, e que revoltaram Tima, foi propagada por Cory Bernardi, líder do partido conservador australiano, que afirmou publicamente que os Kurdi teriam tentado a travessia para que o pai de Alan, Abdullah - o único sobrevivente da tragédia -, pudesse ir a uma clínica dentária na Europa. "Ninguém quer deixar a Síria apenas porque sim. A situação após a invasão do ISIS era insustentável. A fuga de Abdullah e da família era inevitável", argumenta Tima.

Abdullah tinha escapado para a Turquia, onde vivia ilegalmente, sob exploração laboral, a ganhar cinco euros por jornadas diárias de 12 horas de trabalho numa fábrica têxtil de Istambul. "Para milhares de sírios sem documentos e com passaporte caducado, fugir para a Grécia era a única esperança de um futuro melhor", conta Tima Kurdi ao El País.

No livro que agora publica, a tia de Alan, que entretanto lançou a fundação Kurdi para apoio a crianças em campos de refugiados, reproduz as mensagens que trocou com o irmão Abdullah na véspera da fatídica travessia. "Partimos esta noite, se Deus quiser", foi a última notícia que recebeu, a 30 de agosto de 2015. Até ver a foto que chocou o mundo.

Pode ver aqui uma intervenção de Tima Kurdi na conferência "The Walrus Talks", em Toronto, em 2017:

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Anselmo Borges

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