303 estações de metro, só quatro com nome de mulher

Agora que o metro da capital está a expandir a sua rede, organização Osez le fémenisme lançou uma campanha para que as duas estações em construção tenham nome de mulher. Barbara, Lucie Aubrac e Nina Simone são as opções

Victor Hugo, Anatole France, Gambetta, Robespierre ou Charles de Gaulle. Estas são apenas alguns exemplo de estações do metro de Paris com nomes de homens que se destacaram na História de França. Mas para contar as mulheres que dão nome a estações na capital francesa bastam os dedos de uma mão - e sobra um: quando no mês passado a Câmara de Paris renomeou a estação Europe para Europe-Simone Veil o nome da ex-presidente do Parlamento Europeu veio juntar-se aos de Marguerite de Rochechouart de Montpipeau, Marie Curie e Louise Michel como quarta estação no feminino.

Agora que o metro de Paris, inaugurado em 1900, está a expandir a rede - tem hoje 303 estações -, a organização Osez le féminisme lançou uma campanha para que seja uma mulher a escolhida para dar nome a cada uma das duas estações em construção. A consulta online oferece três opções à escolha: duas francesas, a cantora Barbara e a resistente antinazi Lucie Aubrac, e uma americana, a também cantora Nina Simone.

"Sabia que o metro de Paris só tem quatro estações com nomes de mulher em 303? Quer mudar isso? Então vote!", desafiava a Osez le féminisme na página de Facebook.

A história já chegou aos jornais britânico, com o The Observer a ouvir Raphaëlle Rémy-Leleu, a porta-voz da organização. "Temos de mudar os nomes de algumas estações que já existem. Muitas destacam os feitos do que chamamos Grands Hommes, mas nós achamos que também há grandes mulheres que merecem ser reconhecidas".

E a verdade é que mesmo das que já dão nome a uma estação, duas partilham o protagonismo com um homem. A Nobel da Física e da Química Marie Curie surge com o marido, Pierre, e Marguerite de Rochechouart de Montpipeau, abadessa de Montmartre, aparece ao lado do revolucionário republicano Armand Barbés. Se Simone Veil surge associada à Europa, Louise Michel, uma anarquista que militou na Comuna de Paris no século XIX, dá nome sozinha a uma estação.

O caso já em março tinha merecido atenção, quando no dia 8, Dia da Mulher, o ministério do Direito das Mulheres francês publicou um mapa do metro de Paris totalmente revisto pela artista Sylvia Radelli. Nele, os nomes de cem estações eram substituídos pelos de mulheres famosas, francesas ou não - de Simone de Beauvoir a Edith Piaf, passando por Nefertiti ou Jane Austen. Março foi também o mês em que a atriz Catherine Deneuve indignou os feministas ao criticar o movimento #MeToo.

Num país que nunca teve uma mulher na presidência - Ségolène Royal, em 2007, esteve lá perto e Marine Le Pen passou à segunda volta no ano passado - e só teve uma primeira-ministra, Edith Cresson, em novembro o chefe do Estado, Emmanuel Macron, garantia que França está "cansada do sexismo". E comprometeu-se a lutar pela igualdade de género

Apesar dos esforços do governo francês para garantir a igualdade de género, as disparidades salariais são gritantes, com as francesas a ganharem em média menos 25% do que os franceses. E, segundo um estudo Insee, as mulheres passam duas vezes mais tempos dedicadas às tarefas domésticas do que os homens em França.

Dar nomes de mulher a estações de metro pode não resolver estes problemas. Mas é mais um gesto no caminho para a igualdade.

AS TRÊS OPÇÕES

Barbara


Nasceu Monique Andrée Serf mas é como Barbara que todos a conhecem. Uma das primeiras autoras, compositoras e intérpretes em França, ficou famosa com a canção L"Aigle Noir que será uma referência ao facto de ter sido violada pelo pai aos 10 anos.

Lucie Aubrac


Grande figura da resistência francesa face aos nazis na II Guerra Mundial, criou o movimento Libération sud com o marido, cuja fuga da prisão organizou. Após a guerra, torna-se professora de História mas continua a lutar pelos dieitos das mulheres.

Nina Simone


Nasceu em 1933 nuns EUA minados pela segregação racial. Pianista de génio, deu o primeiro concerto aos 10 anos e só tocou quando os pais, mandados para o fundo da igreja por serem negros, voltaram para a primeira fila. Dedicou a vida à defesa dos direitos cívicos dos negros.

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