Indígenas prometem lutar pela Amazónia até à "última gota de sangue"

Existem mais de 18.000 índios Mura que vivem no estado do Amazonas, o maior e mais preservado estado da floresta amazónica do Brasil. "A cada dia que passa, vemos o avanço da destruição", conta um dos líderes

Membros da tribo indígena Mura do Brasil pintaram os seus corpos com tinta vermelho-alaranjada e pegaram em longos arcos e paus enquanto se dirigiam para a selva, nesta semana, preparados para a batalha. O inimigo? O desmatamento e destruição da sua casa, a floresta amazónica.

Existem mais de 18.000 índios Mura que vivem no estado do Amazonas, o maior e mais preservado estado da floresta amazónica do Brasil, segundo dados compilados pela organização não-governamental Instituto Socioambiental.

Os membros da tribo mostraram à agência Reuters uma área do tamanho de vários campos de futebol perto da sua aldeia, onde a floresta tinha sido removida, deixando um amplo buraco de terra no chão marcado pelos degraus de máquinas pesadas.

"A cada dia que passa, vemos o avanço da destruição: desmatamento, invasão, extração de madeira", disse Handerch Wakana Mura, um dos vários líderes de um clã tribal de mais de 60 pessoas.

"Estamos tristes porque a floresta está a morrer a cada momento. Sentimos que o clima está a mudar e o mundo precisa da floresta."

De fato, o desmatamento na Amazónia aumentou 67% nos primeiros sete meses do ano em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com a agência de pesquisa espacial do Brasil, INPE. Esta semana, a agência disse que os incêndios florestais aumentaram mais de 80% no país no acumulado do ano, atingindo o ponto mais alto desde pelo menos 2013.

Por toda a parte, na região ao redor da aldeia de Mura, os focos de incêndio têm estado muito ativos.

Os ambientalistas culpam o presidente Jair Bolsonaro, um político conotado com a direita radical, que pediu o desenvolvimento urbanístico de reservas protegidas e protestou contra as multas ambientais, encorajando madeireiros e fazendeiros a promover ações de limpeza da terra, às vezes através de queimadas.

De fato, este clã Mura não conseguiu travar os madeireiros. O desmatamento na área próxima à sua aldeia começou há quatro anos e somente no ano passado as autoridades expulsaram madeireiros e aqueles que extraíam pedras para construir uma estrada próxima.

A desflorestação avançou rapidamente ao longo da estrada, com uma área enorme de árvores derrubadas visíveis através de um drone. Quando essa atividade abrandou, os Mura encontraram um caminho na floresta recentemente escavado com motosserras e facões - um caminho de corte e o primeiro sinal de que uma nova área seria alvo da atuação dos madeireiros.

Desta vez, o caminho estava particularmente perto de um grupo de castanheiras-do-brasil que são objeto de colheita do clã e uma importante fonte de comida tradicional para os povos indígenas na área, dizem Handerch Wakana Mura e outros líderes tribais.

O clã Mura planeia lutar contra os madeireiros e outros exploradores da terra, apresentando reclamações ao órgão de fiscalização ambiental do país e aos promotores públicos.

Eles têm lutado durante quase 20 anos para ter a terra em redor da sua aldeia demarcada como uma reserva indígena oficial, uma medida que traria proteções adicionais, diz Handerch Wakana Mura à reportagem da Reuters.

O clã sabe que está será uma dura batalha, depois de Bolsonaro ter garantido não libertar mais terras para populações tribais. Outro líder dos Mura, Raimundo Praia Belem Mura, um homem de 73 anos que viveu nestas terras a vida toda, promete lutar até ao fim. "Por esta floresta, continuarei até a minha última gota de sangue".

* jornalista da agência Reuters

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