Imigração e saúde dominam debate Democrata onde Castro e Warren sobressaíram

Dez candidatos à nomeação Democrata participaram no primeiro debate das presidenciais 2020, com Julián Castro e Elizabeth Warren em destaque

A foto de Óscar Alberto Martínez e da sua filha de 23 meses Valeria, afogados no Rio Grande quando tentavam chegar ao Texas, foi o ponto de partida para a discussão mais acalorada do primeiro debate entre candidatos Democratas à nomeação para presidente. "Ver aquela imagem do Óscar e da sua filha Valeria é de partir o coração", disse Julián Castro, ex-secretário geral do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano na administração Obama, visivelmente emocionado. "Também deve deixar-nos a todos lixados", continuou, provocando uma ovação na audiência. Neto de imigrantes mexicanos, Castro foi a grande surpresa do debate, tendo conseguido destacar-se e protagonizando uma troca de palavras acesas com Beto O'Rourke, o candidato que em novembro de 2018 tentou virar o Texas dos Republicanos para os Democratas no Senado.

Castro foi o primeiro candidato a publicar, em abril, um plano alargado de reforma do sistema de imigração e propostas para resolver a crise na fronteira sul, onde milhares de pessoas tentam pedir asilo diariamente. No debate, Castro disse que pretende acabar com a política de tolerância zero e lembrou que Óscar e a bebé foram mandados para trás na fronteira quando tentaram pedir asilo, acabando por morrer nas águas do Rio Grande. O candidato falou também da necessidade de um "Plano Marshall" para as Honduras, El Salvador e Guatemala, melhorando as condições nesses países para estancar o fluxo de migrantes, e de um caminho para a legalização dos imigrantes ilegais nos Estados Unidos.

Mas foi quando Beto O'Rourke falou da sua intenção de tratar as pessoas com "o respeito e dignidade que merecem como humanos" e não perseguir quem procura entrar no país que Castro o interrompeu, acusando-o de não apoiar uma medida para descriminalizar a entrada ilegal nos Estados Unidos e torná-la uma ofensa civil. O ataque pessoal mostrou que O"Rourke estava despreparado e pôs toda a gente a falar de Castro; no Google, as pesquisas pelo seu nome dispararam 2400%.

Foi um momento notável porque todos os candidatos democratas estão mais ou menos alinhados quanto à necessidade de reformar as leis da imigração, mas a crise na fronteira e os casos das crianças mantidas em jaulas e a dormir no chão trouxeram o tema para um plano emocional. Assim se explica também que os candidatos não latinos O"Rourke e Corey Booker tenham iniciado algumas respostas em espanhol. Seria impensável há alguns anos.

Elizabeth Warren, a candidata mais forte deste grupo de dez, não foi chamada a responder sobre imigração, mas tinha dado o seu apoio à proposta de descriminalização de Castro no dia anterior. A senadora do Massachusetts teve a oportunidade logo no início de expor alguns dos seus maiores argumentos, nomeadamente em termos económicos. Warren, que tem um plano ambicioso para partir os conglomerados tecnológicos, disse que a economia "está muito boa" para as grandes farmacêuticas, petrolíferas e prisões privadas, mas não para a maioria da população. "É corrupção, pura e simples", afirmou, apelando a "mudanças estruturais."

Warren reiterou também que apoia a ideia de Bernie Sanders de implementar um sistema público de saúde, Medicare Para Todos, e afirmou que os cuidados de saúde são "um direito humano básico."

Saúde divide candidatos

A abordagem ao problema do sistema de saúde no país foi das que mais divergiu entre candidatos que refletem a viragem à esquerda do partido. Amy Klobuchar, senadora do Minnesota, defendeu uma opção pública, mas não a eliminação do sistema que existe hoje; Castro apoiou o direito à escolha e O"Rourke disse que queria todos os americanos com acesso a saúde, sem elaborar; mas foi o representante pelo 19º distrito de Maryland, John Delaney, que disse a frase mais citável: "devemos manter o que está a funcionar e corrigir o que está avariado."

Com 60 segundos para responderem a perguntas, os candidatos menos conhecidos tentaram por tudo destacar-se dos outros. Delaney e Tim Ryan, representante do 13º distrito do Ohio, não brilharam propriamente, e o governador do estado de Washington, Jay Inslee, insistiu numa única mensagem de forma bem sucedida: alterações climáticas. Bill De Blasio, governador de Nova Iorque, teve reações mistas à sua prestação. Foi dos que mais interrompeu os outros, tendo uma postura combativa.

No entanto, de acordo com a rádio NPR, o senador de Nova Jersey Corey Booker foi o candidato que falou mais (10m58s). Mais tenso que o expectável, conseguiu manietar a conversa em múltiplas ocasiões e insistiu na política identitária (ele é afro-americano), tendo sido considerado por alguns meios o vencedor do debate.

O segundo que mais falou foi Beto O"Rourke (10m4s) e Warren ficou em terceiro (9m20s). Amy Klobuchar teve uma performance sólida e apareceu em quarto (8m27s), tendo também protagonizado um dos soundbites da noite: depois de Jay Inslee ter dito que era o único com legislação aprovada para proteger o direito de escolha das mulheres, Klobuchar ripostou. "Há aqui três mulheres que lutaram com força pelo direito das mulheres a escolherem", atirou. Ao seu lado estava Tulsi Gabbard, representante do 2º distrito do Havai no congresso, que redirecionou praticamente todas as suas respostas para a sua experiência militar. Gabbard serviu no Médio Oriente e brilhou no momento em que corrigiu Tim Ryan quando este disse que os talibãs estiveram envolvidos no 11 de setembro.

Depois de duas horas de debate, onde o presidente Donald Trump foi referido várias vezes mas não esteve no centro da discussão, a CNN distinguiu Castro, Warren e Booker como os vencedores. Do outro lado, nomeou O"Rourke, Klobuchar e De Blasio como perdedores. A Vox disse que Castro, Warren, Booker e De Blasio ganharam, enquanto O"Rourke foi o perdedor da noite.

Enquanto os comentadores desfiavam análises nas televisões, o Twitter acendia-se com discussões, memes, e a reação do próprio presidente Trump. "BORING!" [Aborrecido!], escreveu na sua conta, seguindo o comentário de uma crítica aos problemas técnicos que a NBC/MSNBC teve a meio do debate. A cadeia foi obrigada a cortar para intervalo quando Elizabeth Warren tentava responder a uma pergunta sobre o controlo de armas e o microfone não tinha som. "Verdadeiramente pouco profissional", clamou Trump. "Digno apenas de uma organização de fake news, que eles são!".

Amanhã, a segunda noite de debate trará os restantes pesos-pesados da lista de candidatos na mesma estação televisiva. Joe Biden, que lidera as sondagens, vai enfrentar Bernie Sanders, Kamala Harris, Kirsten Gillibrand, Andrew Yang e Pete Buttigieg, os nomes mais conhecidos. A lutarem por um soundbite estarão Eric Swalwell, Marianne Williamson, John Hickenlooper e Michael Bennet.

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