Hollande: rede terrorista "prestes a ser aniquilada"

Detenções em Bruxelas devido a plano de atentado em Paris reforçam ligações estreitas entre jihadistas no coração da Europa. ADN do suicida do aeroporto detetado no Bataclan

A confirmação de que o ADN de um dos suicidas do aeroporto de Zaventem tinha sido detetado em explosivos do Bataclan e do Stade de France veio ontem acabar com qualquer dúvida que ainda pudesse existir sobre as ligações entre os atentados de Bruxelas, que fizeram 31 mortos na terça-feira, e os de Paris, onde morreram 130 pessoas a 13 de novembro. O presidente francês, François Hollande, garantiu ontem que a rede terrorista responsável por esses atentados está "prestes a ser aniquilada", mas alertou para a existência "de outras redes".

As autoridades belgas confirmaram ontem que Najim Laachraoui, um belga de 25 anos, era o segundo bombista suicida no aeroporto (o outro já tinha sido identificado como Ibrahim El Bakraoui). Os procuradores revelaram que o seu ADN tinha sido detetado num pedaço de tecido no Bataclan, onde morreram 89 pessoas, e num engenho explosivo no Stade de France, junto ao qual morreu um português.

Laachraoui foi para a Síria em fevereiro de 2013, reaparecendo a 9 de setembro de 2015, num controlo na fronteira entre a Hungria e a Áustria, com uma identidade falsa: Soufiane Kayal. No carro em que seguia ia também Salah Abdeslam, que foi detido na semana passada em Molenbeek após quatro meses em fuga devido ao seu papel nos atentados de Paris, e Mohamed Belkaid, morto no passado dia 15 numa operação policial em Forest (Bruxelas). Laachraoui, estudante de engenharia, teria os conhecimentos necessários para preparar as bombas usadas em ambos os atentados.

O Estado Islâmico, que reivindicou os ataques de Bruxelas num comunicado, repetiu a reivindicação ontem em dois vídeos em francês. Num deles o jihadista belga Lotfi Aoumeur (também conhecido como Abu Abdallah al-Baljiki), que já figurou noutros vídeos de propaganda do grupo terrorista, ameaça a Bélgica com mais ataques. A seu lado, outro belga não identificado promete, contudo, a paz em troca do fim dos bombardeamentos.

Planos além fronteiras

As ligações estreitas entre os jihadistas no coração da Europa ficaram mais uma vez demonstradas ontem, quando pelo menos três pessoas foram detidas em Bruxelas ligadas a um plano de atentado frustado na véspera pelos franceses em Argenteuil. Reda Kriket, de 34 anos, foi detido na quinta-feira e estaria nas "fases adiantadas" de preparação de um ataque - foram descobertos explosivos no apartamento. O francês tinha sido condenado à revelia a dez anos de prisão na Bélgica, no mesmo processo que Abdelhamid Abbaoud, cérebro dos atentados de Paris que foi morto na operação policial em Saint-Denis, cinco dias após esses ataques.

Pelo menos seis pessoas foram detidas em Bruxelas logo na quinta-feira por ligações a esse plano (das quais três já foram libertadas). Ontem, foram presas mais três em Forest, Saint-Gilles e Schaerbeek - de onde partiram os bombistas suicidas dos atentados de terça-feira. O suspeito capturado em Schaerbeek, junto a uma paragem do elétrico, teria consigo uma mochila cheia de explosivos, segundo a estação de televisão pública RTBF, tendo sido atingido na perna pelos polícias. As autoridades procederam a três explosões controladas na zona.

Vítimas de 40 países

Os ataques de terça-feira no aeroporto de Zaventem e no metro de Maelbeek fizeram 31 mortos e 316 feridos, de 40 nacionalidades. Nove vítimas mortais estrangeiras já foram identificadas - três holandeses (incluindo dois irmãos), dois norte-americanos, um britânico, uma peruana, um chinês e um francês.

Abdeslam recusa cooperar

Numa comissão parlamentar consagrada ao tema do terrorismo, o ministro da Justiça belga, Koen Geens, disse que Salah Abdeslam recusa colaborar com as autoridades desde os atentados de Bruxelas. Uma informação confirmada pelo Ministério Público, que revelou que o homem que durante quatro meses foi o terrorista mais procurado da Europa, "exerce o seu direito ao silêncio desde 19 de março", um dia após ter sido preso em Molenbeek. "Ouvido imediatamente" após os atentados de terça-feira "recusou fazer qualquer declaração".

Antes de se remeter ao silêncio, Abdeslam reconheceu que ajudou a preparar a logística dos ataques de Paris, alugando carros e quartos de hotel a pedido do irmão, Brahim (que se suicidou no Bataclan). "O dinheiro vinha do Brahim", terá dito, segundo a BFMTV e o Le Monde, acrescentando que foi também o irmão que lhe deu o cinto de explosivos. "Renunciei ao ataque quando estacionei o carro. Deixei os meus três passageiros e depois voltei a ligar o carro. Conduzi ao acaso."

Abdeslam acusou Abbaoud de ser o organizador dos atentados de 13 de novembro. "Foi o meu irmão Brahim que me explicou que ele era o responsável", acrescentou. Depois de ter renunciado ao ataque, Abdeslam disse que só contactou uma pessoa, Mohamed Abrini - o homem com que foi filmado numa estação de serviço antes dos atentados e que é atualmente o mais procurado da Europa.

Abdeslam disse também que Mohamed Belkaid, que foi morto em Forest a 15 de março numa operação policial que acabaria por levar à detenção de Abdeslam, não ficou contente por o ver. "Expliquei-lhe que não me podia suicidar. Consolou-me e disse-me que me ia esconder o tempo que fosse preciso para eu poder ir para um lugar em que estivesse em segurança".

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