Há 30 anos no poder no Uganda, Museveni fica pelo menos até 2021

Um dos dirigentes há mais tempo à frente de um país africano é eleito para quarto mandato consecutivo. Oposição fala em fraude.

Yoweri Museveni está na presidência do Uganda desde 1986 e ganhou ontem eleições que lhe permitem ficar no poder, pelo menos, por novo mandato de cinco anos. Museveni obteve 60,75% dos votos enquanto o principal opositor e seu antigo médico pessoal, Kizza Besigye, chegou aos 35,3 %. Este reagiu, considerando as eleições "como as mais fraudulentas" na história do Uganda.

Às presidenciais, que decorreram em simultâneo com as legislativas e locais na passada quinta-feira, dia 18, apresentaram-se mais seis candidatos, entre os quais uma mulher, como independente, e um ex-primeiro-ministro de Museveni, Amama Mbabazi, que rompeu com o presidente em meados de 2014.

Numa população de 37 milhões de pessoas, em que a esmagadora maioria tem menos de 50 anos, foram às urnas 9,7 milhões dos cerca de 15 milhões de eleitores inscritos. Os resultados das presidenciais revelam, contudo, um recuo na popularidade de Museveni face à votação de 2011, em que chegou aos 68,4%.

Estas foram as terceiras eleições desde a introdução do pluripartidarismo em 2005, mas terão decorrido num "ambiente de intimidação", indicaram os observadores da União Europeia presentes no país. Os Estados Unidos, através do secretário de Estado John Kerry, criticaram o comportamento das autoridades, tendo o responsável pela diplomacia de Washington instado o governo de Kampala para que este não reprima as manifestações da oposição.

Ao longo da campanha e também ontem na capital do Uganda, Kampala, verificaram-se atos de violência e confrontos entre partidários do presidente com os de outros candidatos, designadamente de Besigye. Estes realizaram manifestações no centro de Kampala e tentaram chegar à residência daquele, nos arredores da capital, no que foram impedidos pela polícia de choque, que cerca a casa do antigo médico do presidente.

O ex-primeiro-ministro Mbabazi, que também foi colocado sob prisão domiciliária na capital e que obteve apenas 1,43% dos votos, considerou igualmente o resultado eleitoral como "uma fraude".

Os elementos da oposição a Museveni sustentam as suas denúncias de irregularidades com o facto de o governo ter ordenado às operadoras de serviços de telemóvel para bloquearem os acessos às redes sociais no dia das eleições. O objetivo seria o de impedir a denúncia de irregularidades no processo de votação. Por seu turno, o governo justificou-se com o argumento de estarem a ser espalhadas "notícias falsas".

Exportação de café e petróleo

Dirigentes do partido no poder, o Movimento de Resistência Nacional (MRN), justificaram a vitória de Museveni, de 71 anos, com os sucessos económicos verificados naquele que é o principal exportador de café no continente africano e que deve iniciar em 2017 a exportação de petróleo.

Kampala espera começar por produzir cerca de 200 mil barris de petróleo, dos quais 140 mil serão para exportar. As reservas petrolíferas do Uganda estão estimadas entre os 3,5 e os 3,6 mil milhões de barris.

A exportação petrolífera será um importante motor para a economia do país, se os fundos obtidos, como tantas vezes ainda sucede em África, não forem apenas geridos como património da elite no poder.

Para já, um porta-voz do MRN mostra-se confiante de que o partido irá permanecer longamente no poder e Museveni poderá, se quiser, tentar um quinto mandato, porque a "oposição não tem nada a oferecer, a não ser promessas vazias".

O que Besigye, de 59 anos, quer "demonstrar ao mundo não ser assim", insistindo nas críticas ao antigo líder da guerrilha que combateu a ditadura de Idi Amin e o governo de Milton Obote e do seu sucessor, Tito Okello. Este será derrotado militarmente no início de 1986, assumindo Museveni a direção do Uganda. A relação deste com Besigye só começa a deteriorar-se no final dos anos 90 e o médico, que tratara o agora presidente desde 1982, será seu adversário nas segundas eleições multipartidárias, em 2001.

É a rutura ampliada pelo facto de Besigye ser casado com uma antiga conselheira e amiga do presidente, Winnie Byanyima, também incompatibilizada com Museveni, que critica de forma dura nas suas intervenções enquanto parlamentar da força política a que ela e o marido pertencem: o Fórum para a Mudança Democrática (FDC, na sigla em inglês).

Considerado uma figura carismática, teve o seu primeiro cargo governamental aos 29 anos, quando foi nomeado ministro do Interior quando Museveni assume o poder e, em 1988, chega a ministro da presidência. Três anos depois é afastado, mas só se torna crítico de Museveni mesmo final dos anos 90. Em 2001, critica publicamente o presidente e apresenta a sua candidatura. Desde aí estão em contínua rota de colisão política.

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