Há 100 anos ocorreu na Alemanha a primeira grande tragédia com nitrato de amónio

Em 1921, numa altura em que se desconheciam muitos dos perigos da substância que causou a tragédia em Beirute, uma grande explosão numa fábrica da Basf em Oppau, Alemanha, provocou mais de 550 mortos e destruiu milhares de edifícios na região.

A explosão de nitrato de amónio em Beirute causou uma destruição impressionante na capital libanesa e é mais uma grande tragédia associada a este composto usado como fertilizante. Há quase 100 anos, na Alemanha, numa fábrica da Basf ocorreu um acidente semelhante, que fez mais de 500 mortos, numa altura em que ainda se desconhecia a maioria dos perigos do nitrato de amónio. Em 1947, no Texas, nos EUA, as vítimas mortais também ascenderam a 500 quando explodiu um navio francês que transportava nitrato de amónio.

Em 1921, em Oppau, um distrito de Ludwigshafen nas margens do rio Reno, ocorreu a explosão numa unidade da empresa Basf (sigla de Badische Anilin & Soda Fabrik), com o estrondo a ser ouvido, embora abafado, em Munique a 300 km de distância, segundo conta a Deutsche Welle.

No local do acidente, abriu-se uma cratera de 90 metros de largura, 120 de comprimento e 20 de profundidade. Morreram 561 pessoas e 1.952 ficaram feridas.

Tal como em Beirute, foram registadas duas explosões, uma inicial de menor intensidade e, em seguida, uma gigantesca, que devastou a fábrica e parte da região. Os efeitos foram incríveis: pelo menos 1.036 prédios foram completamente destruídos a 600 metros do centro de explosão e outros 928 ficaram seriamente danificados a uma distância até 900 metros. Quase todas as pessoas que moravam em Oppau ficaram desalojadas. A onda de choque destruiu os vitrais medievais da Catedral de Worms, a 13 quilómetros.

Hoje sabe-se que a causa foi o manuseamento descuidado do principal produto fabricado nesta fábrica da Basf: uma mistura de sulfato de amónio e nitrato de amónio usada como fertilizante.

O nitrato de amónio (cujo símbolo químico é NH4NO3) era um produto de bandeira da Basf. Foi na fábrica de Oppau que a amónia, um dos materiais necessários para a sua produção, começou a ser sintetizada em escala industrial, em 1913. A sintetização artificial do material e outros derivados de amónia teve origem em experiências dos cientistas alemães Fritz Haber e Carl Bosch entre 1908 e 1912, um processo que logo foi adquirido pela Basf.

De resto o nitrato de amónia foi crucial para o governo da Alemanha nos anos seguintes, não tanto como fertilizante mas como explosivo. Na época, as potências europeias dependiam das minas de nitrato de sódio no Chile. Isolada por um bloqueio naval dos aliados na I Guerra Mundial, a Alemanha foi forçada a expandir a produção sintética. E foi justamente a natureza explosiva do material que traçou o caminho para a tragédia de 1921. Depois da guerra, com a Alemanha derrotada, a Basf dedicava-se apenas à produção de fertilizantes.

A mistura de sulfato de amónio e nitrato de amónio oferecia um problema, já que tendia a solidificar-se nos tanques e depósitos na fábrica. Nem com picaretas se conseguia manusear. Os funcionários passaram então a realizar pequenas explosões controladas nas pastas de fertilizante. À época, cientistas acreditavam que uma mistura com menos de 60% de nitrato de amónio era segura. A Basf usava uma mistura de 50%, que parecia ainda mais inofensiva. Antes da explosão, a empresa já tinha realizado cerca de 20 mil pequenas detonações em Oppau. Havia cerca de 4.500 toneladas de fertilizante na planta no dia da tragédia, mas apenas 10% desse material efetivamente explodiu.

Em 1921, o acidente de Oppau gerou várias teorias no exterior, sobretudo porque a Alemanha ainda era vista como uma inimiga três anos depois da I Guerra. Jornais estrangeiros chegaram a apontar que a explosão teria sido causada com a experiência secreta de novas armas. Muitos pareciam não acreditar que um fertilizante seria capaz de provocar uma explosão dessa escala.

Em Oppau há diversos memoriais que lembram a catástrofe. O funeral das vítimas contou com a presença do então presidente alemão Friedrich Ebert, com uma multidão de 70.000 pessoas a acompanhar o enterro das vítimas no cemitério de Ludwigshafen.

581 mortos no Texas, em 1947

Depois deste acidente, houve mais casos. Um igualmente muito grave aconteceu em 1947, no estado do Texas nos EUA. Em 16 abril desse ano, um incêndio atingiu um navio francês que estava estacionado no porto do Texas City. A embarcação estava carregada com 2.300 toneladas de nitrato de amónio, que entrou em combustão e explodiu.

O acidente teve consequências enormes com 581 mortos e mais de 5 mil feridos. Centenas de edifícios foram destruídos e a área portuária ficou totalmente devastada. Foi o maior acidente industrial da história norte-americana e uma das maiores explosões não nucleares registadas na Terra.

Já no século XXI, os grandes acidentes com nitrato de amónia voltaram. Em 2001, uma fábrica de fertilizantes químicos da AZF em Toulouse, na França, explodiu. Ficou uma cratera de 10 metros de profundidade e 50 metros de diâmetro. Morreram 30 pessoas e 20 mil ficaram feridas. O acidente ocorreu por causa de 296 toneladas de nitrato de amónio que estavam armazenadas num depósito da fábrica.

Em 2013, uma explosão numa fábrica de fertilizantes na cidade de West, também no Texas, matou 15 pessoas, fez dezenas de feridos e deixou 150 edifícios danificados ou destruídos. As autoridades locais disseram que cerca de 25 toneladas de amoníaco, gás usado para a produção de nitrato de amónio, teriam sido a causa do acidente.

Dois anos depois, em 2015, o nitrato de amónio também esteve ligado a duas explosões no porto chinês de Tianjin, em agosto de 2015. Houve 173 mortos e centenas de pessoas foram hospitalizadas. O impacto sentiu-se num raio de 10 km. O acidente ocorreu por causa de químicos como nitrato de amónio e cianeto de sódio.

Usado como bomba pelo terrorismo

Além de acidentes, o nitrato de amónio está também ligado a vários atentados terroristas. Foi utilizado nos atentados a discotecas de Bali, na Indonésia, em 2002, e por Anders Breivik nas explosões em Oslo antes do massacre em Utoya, em 2011, na Noruega., entre outros.

O mais devastador foi o de 19 de abril de 1995, quando o americano Timothy McVeigh detonou uma bomba feita com duas toneladas de nitrato de amónio junto a um edifício federal em Oklahoma City, matando 168 pessoas e ferindo outras 700. Desde então, segundo a lei americana, instalações que armazenem mais de 900 kg de nitrato de amónio são obrigadas a passar por inspeções regulares

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG