Guterres vê acordo UE-Turquia como "contrário" ao que devia ser

Candidato a secretário-geral da ONU criticou a "epidemia de fronteiras fechadas"

O antigo Alto-comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) António Guterres disse hoje que o acordo entre a União Europeia (UE) e a Turquia é o "contrário" daquilo que devia ser, sendo necessária uma "perspetiva distinta".

Na sua intervenção no encontro da Esquerda Europeia, que hoje terminou no Seminário de Vilar, no Porto, António Guterres propôs uma "oferta maciça de reinstalação legal" para compensar um travão colocado no movimento irregular de pessoas em direção à Europa como forma de combater o contrabando e o tráfico humano.

"Infelizmente, o que foi posto em cima da mesa no acordo entre a União e a Turquia não é isso. É por cada um que é reenviado para a Turquia vai-se buscar um. Ou seja, quanto menor for o movimento menor é o número de pessoas que vêm legalmente para a Europa. Quando é exatamente o contrário: quanto menor for o movimento maior deve ser o número de pessoas que vêm legalmente para a Europa. O que precisamos é de uma perspetiva distinta", declarou António Guterres.

O agora candidato ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas sublinhou que "esta epidemia de fronteiras fechadas está a fazer com que muitos sírios hoje mesmo não tenham a possibilidade de deixar a própria Síria e tenham de concentrar-se em campos de melhor ou pior qualidade junto às fronteiras dos respetivos países limítrofes".

António Guterres destacou que o movimento de entrada de pessoas provenientes de zonas de conflito devia ter sido organizado desde o início e salientou que a "receção [das pessoas] obriga a uma escala que infelizmente nunca foi possível por em cima da mesa e é receção em termos de acolhimento, em termos de abrigo, em termos de assistência, também em termos de registo e de 'screening'".

"Se as pessoas tivessem sido acolhidas no ponto de entrada, bem tratadas no ponto de entrada, bem apoiadas e distribuídas equitativamente o problema não se tinha sequer sentido", afirmou Guterres, que disse que Portugal, em tais circunstâncias e numa questão de percentagem populacional, teria recebido 20 mil pessoas, o que não teria um "impacto significativo".

A União Europeia e a Turquia chegaram, em março, a acordo sobre a crise migratória, prevendo o retorno à Turquia de refugiados e imigrantes que cheguem à Grécia em situação irregular.

O acordo estipula que cada pedido de asilo seja analisado individualmente e exclui as deportações coletivas.

O executivo comunitário nomeou o diretor-geral Maarten Verwey para coordenar a aplicação do acordo em nome da UE.

Verney está em Atenas e "irá organizar o trabalho e coordenar o envio para o terreno de quatro mil pessoas", nomeadamente técnicos, intérpretes e juízes, disse Juncker.

Em troca da cooperação da Turquia, os líderes da UE concordaram em acelerar a liberalização dos vistos para os visitantes turcos, relançar as negociações de adesão e duplicar, para um total de seis mil milhões de euros, a ajuda que será concedida à Turquia até 2018, para melhorar as condições de vida dos 2,7 milhões de sírios já refugiados no país.

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