Grécia já voltou aos mercados mas a crise continua sem um fim à vista

Após três anos de ausência, a Grécia voltou esta semana a colocar dívida a cinco anos. O primeiro-ministro, Alexis Tsipras, do Syriza, canta vitória. Mas o desemprego ainda está acima dos 20% e a dívida é de 180% do PIB

A Grécia voltou a ser notícia esta semana. O país, que no espaço de sete anos já vai no terceiro programa de assistência financeira, regressou aos mercados. O primeiro-ministro, Alexis Tsipras, canta vitória. A Comissão Europeia diz-se confiante num fim do resgate já no próximo ano de 2018. A Alemanha, no passado, um dos seus maiores críticos na União Europeia, aplaudiu. E o FMI, ainda que de forma cautelosa, aceitou dar o seu voto de confiança. Apesar de tudo, muitos esperam para ver se esta é mais uma falsa partida ou se é a luz ao fundo do túnel para a retoma por tantos desejada. É que a crise, que submergiu na pobreza de centenas de famílias, muitas da classe média, não desapareceu do dia para a noite. Continua lá.

Na terça-feira, a Grécia colocou 3 mil milhões de euros de dívida a cinco anos a uma taxa de juro de 4,625%, a primeira operação do género desde 2014. "Um sucesso absoluto", congratulou-se o executivo de Alexis Tsipras, em comunicado, depois de ter abandonado por completo a atitude de confronto com a troika e a UE que caracterizou a fase inicial dos seus governos desde que o Syriza chegou ao poder em 2015. Este regresso, prossegue o documento citado pelas agências internacionais, "confirma o andamento positivo da economia grega".

O ministro das Finanças grego, Euclide Tsakalotos, considerou, por seu lado, que esta emissão de dívida após três anos de ausência dos mercados é "uma primeira etapa para a saída da crise" e uma "prova de confiança na economia grega".

Na emissão de dívida a cinco anos feita em 2014, na altura do governo conservador de Antonis Samaras, a taxa de juro foi de 4,95%.

No dia em que voltou aos mercados, a Grécia teve a visita do comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici. "O objetivo da minha visita foi programar conjuntamente os próximos passos. O foco deve estar na aplicação das reformas. Não é suficiente adotar uma reforma, é preciso aplicá-la", sublinhou em Atenas. "Seria um erro se a Grécia parasse o processo das reformas", advertiu o francês, declarando-se satisfeito por ter recebido "garantias de que isto não ocorrerá". A mensagem para os mercados financeiros, sublinhou o comissário, é a de que "a Grécia cumpre os compromissos". Do lado da Alemanha, o porta-voz do Ministério da Economia, Jürgen Weissgerber, também assinalou que "o processo de reformas deve continuar e que não deve afrouxar". Mas, ao mesmo tempo, assinalou que "o regresso aos mercados financeiros é um passo importante. O objetivo da política de resgate é precisamente que a Grécia possa valer-se por si mesma". O terceiro resgate, de 86 mil milhões de euros, termina em 2018 e, a partir daí, a Grécia deve ser capaz de se financiar exclusivamente nos mercados. Se não conseguir, terá de fazer um novo pedido de assistência internacional.

A decisão do FMI em entrar, finalmente, neste terceiro resgate também deu um sinal positivo. No entanto, a instituição liderada por Christine Lagarde assinalou, esta quinta-feira, que o regresso da Grécia aos mercados é útil desde que não agrave a dívida. Esta é de 180% do PIB, ou seja, cerca de 314 mil milhões de euros. "Um dos principais objetivos do atual programa para a Grécia é facilitar o regresso do país ao mercado", mas "numa base de viabilidade da dívida", afirmou Delia Velculescu, chefe de missão do FMI, numa entrevista ao jornal grego Naftemporiki. Para a responsável, "testar os mercados antes do fim do programa atual pode ser útil na condição de que o novo financiamento esteja em linha com os objetivos de sustentabilidade da dívida pública, que não permite uma subida da dívida".

Mas, para muitos gregos, estes números e afirmações não passarão disso mesmo. Enquanto não virem as suas vidas melhorar. Após cortes e mais cortes. Reformas e mais reformas. O desemprego mantém-se acima dos 20%, em abril foi de 21,7%, sendo de 45,5% entre os mais jovens.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Tsipras afirmou: "O pior já passou claramente." A confiança do primeiro-ministro, hoje com 42 anos, contrasta com as sucessivas greves e protestos de rua, esbarrando também nas sondagens que dão a Nova Democracia à frente nas intenções de voto. Em junho, a formação de direita tinha 33% das intenções de voto, o Syriza, partido de Tsipras, 15%. Em terceiro lugar surgiam os comunistas do KKE com 7,5%, seguidos do Aurora Dourada, extrema-direita, com 7%. Em último, a Coligação Democrática, com 6%, formada pelos socialistas do Pasok e pelo Dimar. Tipras espera, porém, que os ventos mudem a seu favor até às eleições. Estas estão previstas para 2019.

Fustigada pela grave crise de migrantes e refugiados, à Grécia resta o turismo para ajudar a manter a esperança. Este ano, o país espera receber 30 milhões de turistas, quase três vezes a sua população. Em 2016, o setor do turismo foi responsável pela criação de oito em cada dez novos empregos. Por todo o país, há quem tente tirar partido do boom turístico. É o caso de Theonimfi Koraki, que abriu um hotel em Dimitsana, aldeia da Arcádia, no Peloponeso. Comentando o estado do negócio, em declarações ao The Guardian, estabelece um paralelo com a crise dos refugiados. Da mesma maneira que estes olham para a Grécia como boia de salvação, os gregos olham para o turismo de uma forma não muito diferente. "O turismo é o nosso colete salva-vidas", afirma Theonimfi Koraki.

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