Génio por decifrar enigma dos nazis, castrado por ser gay, é agora herói da nota de 50 libras

Alan Turing, o cientista que decifrou o código dos nazis, preso e castrado por ser homossexual, é o novo rosto da nota britânica de 50 libras. Mais uma forma de pedirem desculpa pelo que lhe fizeram. Acabaria por se suicidar.

Cientista e matemático, um génio e pioneiro de informática, é o novo rosto das notas de 50 libras. Uma decisão que reconhece o seu mérito científico e o seu papel na história contemporânea ao decifrar o código Enigma durante a II Guerra Mundial, permitindo aos Aliados intercetar as mensagens alemães e perceber onde colocavam os submarinos (Batalha do Atlântico).

Mas é, também, uma homenagem a quem foi perseguido, preso e torturado pelas suas preferências sexuais. Só em 2014 lhe retiraram todas as acusações de que foi alvo, por ser gay, através de um "perdão real". Agora, é oficialmente um herói da coroa britânica.

O governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, anunciou esta segunda-feira a nova nota de 50 libras, que estará em vigor em finais de 2021. Reconheceu a faceta científica de Turing, desempenhando um papel fundamental na unidade de codificação de Bletchley Park, ao descodificar a máquina Enigma, e o seu papel na luta pelos direitos dos homossexuais.

Escolhido em mil

Alan Turing foi escolhido numa lista de mil cientistas. O cientista nasceu a 23 de junho de 1912 e viveu quando a homossexualidade era ainda proibida no Reino Unido, e os homossexuais presos, castrados quimicamente e banidos da sociedade. Foi difamado, ostracizado, impedido de viajar, dar aulas e de fazer investigação.

Processado em 1952, foi condenado por "indecência grosseira" devido ao seu relacionamento com um homem. Deram-lhe a escolher: ficar preso ou submeter-se à castração química, com doses de estrogénio. Dois anos depois, pôs termo à vida, injetando uma maçã com cianeto, que depois comeu.

O símbolo da Apple, uma maçã com um pedaço a menos, é uma homenagem ao pioneiro da informática.

O sexo entre homens com mais de 21 anos foi descriminalizado em Inglaterra e gales em 1967 (o que só aconteceu na Escócia em 1980 e na Irlanda do Norte em 1982).

O design da nota agora criada reflete o trabalho de Turing. Além do seu rosto, apresenta uma fita de código binário que anuncia seu aniversário e retrata a máquina a "Bombe" britânica - um dos primeiros computadores do mundo - que ajudou a quebrar o código da Enigma. Inclui uma citação de Turing numa entrevista ao jornal The Times, em 1949: "Esta é apenas uma antecipação do que está por vir, e apenas a sombra do que será".

Turing teve um papel central no desenvolvimento dos primeiros computadores, primeiro no Laboratório Nacional de Física e, mais tarde, na Universidade de Manchester. É considerado o pioneiro da computação moderna.

Mark Carney sublinhou: "Alan Turing foi um excelente matemático cujo trabalho teve um enorme impacto na forma como hoje vivemos. Como pai da ciência da computação e inteligência artificial, bem como herói de guerra, as contribuições de Alan Turing foram muito variadas e inovadoras. É um gigante em cujos ombros estamos tantos", refere a imprensa britânica.

A escolha de Turing passou por uma consulta pública. O Banco recebeu 227.299 votos, cobrindo 989 títulos elegíveis, nomes que foram reduzidos a uma lista de 12. Coube ao governador do Banco de Inglaterra escolher o nome final entre Mary Anning, Paul Dirac, Rosalind Franklin, William Herschel e Caroline Herschel, Dorothy Hodgkin, Ada Lovelace e Charles Babbage, Stephen Hawking, James Clerk Maxwell, Srinivasa Ramanujan, Ernest Rutherford, Frederico Sanger, e Alan Turing.

"Queremos representar da melhor forma possível todos os aspetos da diversidade dentro do país, de raça, religião, credo, orientação sexual, deficiência e além. O que temos hoje é a celebração de um dos maiores matemáticos e cientistas do Reino Unido e não apenas da história deste país, mas da história mundial ", justificou Mark Carney.

O livro de Andrew Hodges "Alan Turing: The Enigma" foi adaptado para cinema em "O jogo da Imitação", com Benedict Cumberbatch no papel principal. Lançado em 2014, ganhou o Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

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