Fundo Monetário Internacional avisa para riscos do brexit

Possível saída do Reino Unido da UE ameaça estabilidade económica, tanto a nível regional como global

Algo que pode provocar "graves danos regionais e globais". Foi assim que o Fundo Monetário Internacional (FMI) se referiu ontem à possibilidade de o Reino Unido abandonar a União Europeia.

O aviso surgiu durante a apresentação do World Economic Outlook, estudo que atualiza as previsões económicas mundiais até 2021. Maurice Obstfeld, economista chefe da instituição liderada por Christine Lagarde, apontou o brexit como um dos fatores de risco para a economia mundial. "O referendo marcado para junho motivou já grande incerteza junto dos investidores. Uma eventual saída do Reino Unido poderá ter graves consequências a nível global e regional, pela drástica mudança que isso significa para as relações comerciais instituídas", afirmou Obstfeld.

Além do brexit, o FMI aponta ainda como potenciais fatores de risco a crise dos refugiados, o medo do terrorismo, a possibilidade de um novo choque nos mercados financeiros, a desaceleração da China, a desigualdade de rendimentos a nível internacional e as consequências das mudanças climáticas.

Também Martin Schulz, o presidente do Parlamento Europeu, falou no perigo de "implosão" do projeto europeu caso se confirme o adeus do Reino Unido: "As pessoas perderam confiança nas instituições e se os britânicos decidirem sair poderemos vir a assistir a mais tentativas de fuga através de referendos." Para o político alemão a Europa está num "caminho escorregadio" e "quase nenhum governo tem feito esforços para chegar ao coração das pessoas".

Um folheto para todos os lares

Não tardou muito até que em Londres se fizessem ouvir as primeiras reações aos alertas que o FMI enviou à navegação britânica. George Osborne decidiu aproveitar a boleia das declarações de Obstfeld. "Hoje recebemos um aviso muito sério. Pela primeira vez o FMI disse claramente que a simples ameaça de saída já está a ter consequências sobre a nossa economia", disse o ministro das Finanças de David Cameron.

Os defensores do brexit, no entanto, desvalorizaram as previsões do Fundo Monetário Internacional. "O principal risco para a economia britânica é continuar numa União Europeia que não é capaz de fazer reformas nem de lidar com os desafios que enfrenta", afirmou Matthew Elliott, um dos líderes da plataforma Vote Leave.

O debate no Reino Unido sobre a possível saída da UE ficou também marcado nos últimos dias por uma nova polémica. O governo de David Cameron decidiu gastar 9 milhões de libras (cerca de 11 milhões de euros) no envio de um folheto para todos os lares britânicos fazendo campanha pela permanência. Os deputados que advogam o brexit não gostaram e, durante o plenário, criticaram ferozmente o executivo, acusando-o de esbanjar dinheiros públicos.

David Lidington, ministro dos Assuntos Europeus, retaliou argumentando que o governo estaria a negligenciar as suas responsabilidades caso não defendesse a sua posição junto dos cidadãos. Neste ponto, o governante conservador recebeu o apoio do ministro sombra trabalhista, Pat Glass, que considerou os gastos como "perfeitamente razoáveis".

David Miliband, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, decidiu igualmente dar o seu contributo para a campanha em curso, classificando um eventual brexit como um ato de piromania. "Seria abdicar das nossas alianças. Nenhuma nação alguma vez esbanjou voluntariamente tanto poder político como nós estaríamos a fazer votando pela saída no próximo dia 23 de junho. O mundo está cada vez mais dividido entre pirómanos e bombeiros. Há muitos séculos que o Reino Unido tem combatido os fogos e este não é o momento para nos tornarmos incendiários. Não tenho dúvidas de que o brexit seria um ato de piromania contra a ordem internacional", escreveu o político trabalhista num artigo de opinião publicado no The Guardian na segunda-feira.

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