Francês feliz no país dos navegadores

Portugal foi um feliz acaso na vida de Laurent Goater.

Laurent Goater marcou o nosso encontro para a Igreja de São Luís dos Franceses, ali ao lado do Coliseu dos Recreios. Fundada no século XVI pelas comunidades francesa e bretã em Lisboa, a bela igreja sintetiza a dupla condição de Goater, um francês que se identifica também como bretão. "Sinto-me primeiramente bretão. Estou à vontade na minha nacionalidade bretã e na minha cidadania francesa. A França junta várias culturas. Um francês da Bretanha e um francês da Alsácia têm grandes diferenças culturais. Não há nem nunca houve uma cultura francesa única. Essa ideia vem da Revolução de 1789", afirma num português perfeito, aqui e além com um ligeiro sotaque, o atual diretor de vendas da Navigator para o grande consumo.

Goater nasceu em 1969 em Saint Brieuc. Fala um pouco de bretão, mas percebe melhor. O pai, sim, aprendeu ainda a língua e "os avós, esses, às vezes tinham é dificuldade em entender o meu francês", conta a rir.

Hoje a língua bretã conhece um revivalismo graças aos contactos com os galeses e os irlandeses, que também falam idiomas celtas, acrescenta Goater, que conhece bem Trégastel, a aldeia onde Uderzo e Goscinny se inspiraram para criar Astérix, tudo baseado em gente de carne e osso.

Depois de me explicar o culto feito nas igrejas a São Ivo, padroeiro da Bretanha (e dos advogados), e a São Luís, o rei francês que morreu nas Cruzadas, o gestor da Navigator convida-me para beber um café e comer um pastel de nata na Avenida da Liberdade. Não está longe o Altis, o hotel onde ficou na primeira noite em Portugal, em 1993. Mas já lá iremos. Antes convém saber que Goater, formado em Negócios, estudou em Paris, Boston e San Diego. E que nessa última cidade americana, depois de acabar o mestrado, trabalhou para a IBM, que na época estava a começar a desenvolver os e-mails, ainda só para funcionários. "Recordo-me de uma história curiosa: os anglo-saxónicos queriam fazer cair os acentos. Mas os franceses, os espanhóis e outros com acentos uniram-se para defender que os mais significativos não desaparecessem."

Portugal, fico a saber, foi um feliz acaso na vida de Goater. De regresso a França depois dos estudos nos Estados Unidos, "tinha de cumprir o serviço militar. E na altura havia uma alternativa para os jovens, que era servir no estrangeiro numa grande empresa francesa. Eu ia para a Rhône Mérieux na Roménia, mas de um dia para o outro mandaram-me para Portugal. Eu nunca tinha posto cá os pés", conta, passados 24 anos sobre o dia em que, após atravessar França e Espanha num Peugeot 405 SRI, entrou em Portugal. Diz que atestou o depósito antes da fronteira porque "não sabia se ia encontrar alguma bomba de gasolina". Uma curta passagem do pai pelo Norte de Portugal umas décadas antes tinha deixado na família a ideia de um país pouco desenvolvido, que o jovem bretão logo descobriu já não corresponder à verdade.

Integra-se bem. Depois da Rhône Mérieux, trabalha para outra empresa farmacêutica, a Companhia Portuguesa de Higiene. A partir de 1996, começa a aventura na INAPA. Passado dois anos já está a tratar das vendas ao estrangeiro e acompanha as sucessivas transformações da empresa, com três anos (2001-2003) a viver de novo em França como diretor da filial comercial da Portucel. Já casado com uma portuguesa, que conheceu pouco depois de chegar a Portugal, o regresso ao país da mulher não tarda muito. A família contava também já com José Maria, nascido em 1998, e Luís, nascido em 2002. "Conheci a Luiza, com z, em Portugal. Ela fala lindamente francês. No nosso primeiro ano foi ela a ensinar-me português", explica.

A escolha do nome dos filhos foi um pouco contra o que é costume nos casais luso-franceses. Em vez de nomes que existem nos dois países, como Alexandre, Daniel ou Inês, preferiram nomes assumidamente portugueses, mas nem tudo correu como pensavam, diz, a rir, Goater. "Enganei-me. Reivindicamos muito o nome português dos nossos filhos, mas na realidade, quando eles vão a França, há muita confusão entre português e espanhol", admite.

Goater sente-se "muito à vontade na cultura portuguesa", mas diz que "um francês nunca deixa de ser um francês. Nunca deixei de ter uma mentalidade de francês. Eu raciocino como francês". Mas é curioso que quando fala da empresa para a qual trabalha explique que "a marca Navigator diz muito lá fora. A simbologia fala aos estrangeiros. Os navegadores são os portugueses. Eles reconhecem-nos legitimidade para usarmos esse nome".

Bretão de cultura, francês de mentalidade, um pouco também do povo dos navegadores por causa de mais de duas décadas a viver cá e da família. Não admira que Goater diga ser um europeísta, tendo chegado mesmo a pertencer ao movimento federalista europeu onde pontificava Simone Veil, recém-falecida. Por isso, dá o benefício da dúvida ao centrista Macron, o presidente eleito em maio em França. Goater, apesar de ser o representante em Portugal d" Os Republicanos, espera que Macron ponha em prática o que prometeu. "O meu candidato era François Fillon. Acredito que teria sido um presidente muito interessante para França. Mas a democracia obriga ao respeito e França precisa de um presidente que seja dinâmico. É fundamental que a França volte a ser a locomotiva, a par da Alemanha, da Europa. E não há dúvida que Macron é europeísta", diz este homem que é também conselheiro das comunidades (cargo eleito) e que além de gerir as contas da igreja toca lá violino e muitas vezes tem até de animar a missa cantando.

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