Fez reféns e matou um padre. Adel Kermiche era "uma bomba-relógio"

Desde o atentado no Charlie Hebdo, Kermiche, de 19 anos, tentara duas vezes juntar-se ao Estado Islâmico na Síria. Família tentava evitar que se radicalizasse

Por duas vezes, Adel Kermiche, de 19 anos, tentou partir para a Síria. Sempre teve um "percurso caótico", conta o Le Monde, que teve acesso aos documentos judiciais que explicam por que razão estava o jovem em liberdade condicional antes de entrar na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, acompanhado por outro indivíduo - ainda não identificado - para sequestrar cinco pessoas e degolar o padre Jaques Hamel, de 86 anos. A justiça francesa decidira deixá-lo sair da cadeia e dar-lhe uma segunda oportunidade.

Kermiche tinha problemas psiquiátricos desde os seis anos, segundo consta no processo legal citado pelo Le Monde. Mas foram os atentados terroristas dos últimos anos em França que fizeram dele um extremista em potência, nomeadamente o ataque à redação do Charlie Hebdo, em Paris, perpetrada pelos irmãos Kouachi em janeiro de 2015.

Segundo o jornal suíço Tribune de Genève, foi precisamente o atentado no Charlie Hebdo que espoletou a vontade de Kermiche ingressar nas fileiras do terrorismo islâmico. Tornou-se mais soturno, calado, e passou a ir mais vezes à mesquita. Quando foi detido pela segunda vez a tentar viajar para a Síria, a mãe chegou a falar ao Tribune de Genève, já que o jovem tentara chegar à Turquia através de Genebra. "Ele disse que os muçulmanos não podiam praticar em paz a sua religião em França. Falou com palavras que não lhe pertencem. Estava sob um feitiço, como se fosse um culto", disse na altura. "Não sabemos para onde nos voltar e pedir ajuda". Adel era o segundo de três irmãos e os pais tinham-se mudado da Argélia para França. A mãe é professora.

O jovem foi detido pela primeira vez pela polícia alemã em Munique, logo em março de 2015, e acusado de tentar viajar para a Síria para se juntar aos terroristas. Reenviado para França, ficou em liberdade condicional a aguardar julgamento. Dois meses depois, voltou a tentar partir para território sírio, desta vez via Suíça e Turquia. Repatriado novamente para França, foi detido em maio de 2015. Apesar dos protestos dos procuradores, foi libertado em março deste ano. "Quero recuperar a minha vida, ver os meus amigos, casar-me", terá dito durante uma audiência. Foi-lhe concedida uma segunda oportunidade pelo juiz. Tinha de usar pulseira eletrónica mas podia sair de casa entre as 8:30 e as 12:30 nos dias úteis. Foi durante este período que levou a cabo o sequestro na igreja.

A família assegurava à justiça que, apesar de por duas vezes ter tentado juntar-se ao Estado Islâmico, Adel tinha os meios para subsistir e se recuperar. Terão feito tudo para impedir que se radicalizasse. "Sou um muçulmano que se baseia nos valores da misericórdia", terá dito ao juiz, assegurando fazer apenas duas orações por dia, ao contrário das cinco habituais nos muçulmanos: não estava sequer acordado para a oração da manhã.

Os vizinhos dizem que parecia um rapaz "normal", mas há quem lhe aponte traços incomuns. Emmeline, de 26 anos, falou ao Le Figaro e descreveu a família de Kermiche como vulgar, e ele também. O jornal falou igualmente com Bodri, um jovem de 23 anos que costumava conviver com o autor do sequestro. "Era como um irmão mais novo", diz, assegurando que nunca se apercebeu de qualquer sinal de radicalização. Na véspera do atentado cruzou-se com Kermiche, já que viviam no mesmo bairro. "Estava com uns jeans, sorria, estava contente, normal". Mas uma outra moradora contraria os relatos anteriores: "ele estava louco, falava sozinho". E o Le Parisien cita outro residente: "toda a gente sabia que ele era uma bomba relógio. Era muito estranho".

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