Fateh-110. Os mísseis "Conquistador" preferidos das forças armadas iranianas

Na terça-feira à noite, o Irão lançou vários mísseis balísticos contra duas bases com militares dos EUA no Iraque em retaliação pela morte do general Soleimani. Além dos Fateh-110, com um alcance de 300 a 500 km, terão ainda sido usados os Qiam-1, de curto alcance.

Era 1.30 da madrugada no Iraque (22.30 em Lisboa) quando vários mísseis iranianos atingiram dois locais com soldados americanos no Iraque - a base aérea de Ain-al-Asad e Erbil. A hora escolhida não foi um acaso: este ataque surgiu exatamente cinco dias depois de os EUA terem executado o general Qassem Soleimani, líder da Guarda Revolucionária e uma das principais figuras do regime iraniano.

A arma escolhida para esta retaliação também não é um acaso. Segundo as próprias autoridades iranianas, anunciaram ter lançado mísseis Fateh-110 - "mais de uma dúzia", segundo o Pentágono.

Mas vários analistas e especialistas em Defesa, como Jeffrey Lewis, do James Martin Center for Nonproliferation Studies, garantem que os iranianos terão também recorrido a mísseis Qiam-1, de combustível líquido e de curto alcance.

Facilmente detetáveis pelos radares dos americanos, os mísseis terão atingido os alvos já depois de os militares dos EUA terem tempo de procurar abrigo, levantando dúvidas sobre a afirmação de Teerão de que matou "80 terroristas americanos".

Para além dos mísseis, as bases americanas terão ainda sido alvo de uma chuva de rockets lançados a partir de solo iraquiano, pelas milícias xiitas apoiadas por Teerão. Esta chuva de projéteis acionou o sistema de defesa das bases, com os canhões do Automated Centurion Gatling a intercetar a maioria dos rockets.

Muito difíceis de intercetar

Os mísseis balísticos iranianos estão sob controlo da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária. Considerados armas "de importância estratégica e política", como escreve Sebastien Roblin, especialista em Defesa Aeroespacial da Forbes, os mísseis de curto e médio alcance, como os Fateh-110 ou Qiam-1, têm sido usados repetidamente nos últimos anos para lançar ataques contra inimigos regionais.

Os mísseis balísticos atingem grandes altitudes antes de a sua trajetória parabólica os fazer mergulhar sobre o seu alvo a uma velocidade tremenda, tornando-os muito difíceis de intercetar. Grandes, pesados e caros, estes mísseis tanto podem levar uma carga convencional como uma ogiva nuclear ou química.

Mísseis "Conquistador"

O Irão comprou os primeiros mísseis Scud à Líbia nos anos 1980 para responder aos ataques do Iraque contra as suas cidades durante a guerra Irão-Iraque (1980-88). Pouco precisos, os Scud depressa foram postos de lado pela República Islâmica, que, com apoio da Coreia do Norte, passou a desenvolver os seus mísseis Shahab, de combustível líquido.

Nos anos 2000, Teerão desenvolveu os Fateh-110 (cujo nome significa "conquistador") que se destacavam pela precisão e pela rapidez de utilização, uma vez que usam combustível sólido. Foram desenvolvidos vários modelos destes mísseis que podem ser lançados a partir de camiões, aumentando a sua mobilidade. Com um alcance entre os 300 e os 500 km, os Fateh têm capacidade para uma carga até 650 quilos, sendo guiados por satélite, o que os torna muito eficientes na busca do alvo.

Teerão desenvolveu ainda a variante Khalij Fars, destinada a afundar navios em movimento no mar, além do Zulfiqar, um míssil de longo alcance que pode chegar a uma distância de 700 km.

Desde 2017, o Irão já usou por várias vezes o seu sistema de mísseis para atacar alvos no Iraque, Síria e Israel - numa mostra de capacidade para atingir alvos a centenas de quilómetros do território iraniano, sem pôr em risco as suas tropas. O último foi em janeiro de 2019, quando o Irão disparou mísseis Fateh-110 a partir da Síria contra Israel, em retaliação após um ataque da força aérea israelita . Foram intercetados pelo escudo anti-mísseis de Israel.

Maior poderio de mísseis do Médio Oriente

Segundo a BBC, os mísseis de maior alcance ao dispor de Terrão são os Shahab-3, que podem atingir alvos a 2000 km de distância. Mas o país abandonou o programa de mísseis de longo alcance no âmbito do acordo sobre o nuclear assinado em 2015 e do qual Teerão agora retirou. Mas a incerteza em torno do cumprimento desse acordo, deixa dúvidas sobre a sua verdadeira capacidade.

De acordo com um relatório do Departamento de Defesa dos EUA, o Irão tem o maior poderio de mísseis do Médio Oriente. O mesmo documento garante que Teerão está a testar tecnologia que lhe permitirá desenvolver mísseis intercontinentais, que poderão atingir alvos muito mais distantes.

Perante este cenário, em maio de 2019, os EUA instalaram um sistema de defesa anti-mísseis Patriot no Médio Oriente, com capacidade para intercetar mísseis balísticos, de cruzeiro e caças-bombardeiros.

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