"Barbaridade". Ex-presidente Temer reage a detenção por corrupção

Ex-presidente foi detido ao abrigo da investigação da Lava Jato. Depois de Lula da Silva, este é o segundo ex-presidente preso por corrupção no Brasil.

O ex-presidente brasileiro, Michel Temer, foi detido esta manhã na sua casa em São Paulo, num processo relacionado com a Lava Jato no Rio de Janeiro. Será levado num avião da Polícia Federal ainda esta quinta-feira para o Rio, segundo o site G1.

Temer, de 78 anos, é o segundo ex-presidente brasileiro detido por corrupção, depois de Lula da Silva, preso em abril de 2018. O advogado Eduardo Carnelós, que defende o ex-presidente, disse ao Estadão que a detenção "é uma barbaridade". Segundo a rádio CBN, terão também sido essas as palavras do próprio Temer, que foi contactado pelo jornalista Kennedy Alencar.

Segundo os jornais brasileiros o juiz Marcelo Bretas, da Justiça Federal do Rio de Janeiro, considera que Temer "é o líder da organização criminosa, que ocupou durante pelo menos duas décadas muitos dos cargos mais importantes da República e se valeu de tal poder político para transformar os mais diversos braços do Estado brasileiro numa máquina de arrecadação de propinas [subornos]". A organização criminosa que alegadamente liderava recebeu 1,8 mil milhões de reais.

Além da casa de Temer, foi ainda alvo de buscas o apartamento da filha, Maristela Temer. Segundo o G1, as investigações apontam para "fortes indícios" de que as obras no apartamento foram pagas com o dinheiro dos subornos.

O juiz também emitiu um mandado de captura em nome do ex-ministro das Minas e Energia, Moreira Franco. O também ex-governador do Rio de Janeiro também já foi preso -- é o quinto que já ocupou este cargo a ser detido. De facto, Temer ficará preso no Batalhão Especial Prisional em Niterói, onde também está detido desde novembro o ex-governador Luiz Fernando Pezão.

Os empresários Carlos Alberto Costa, o seu filho, Vanderlei de Natale e Carlos Alberto Montenegro Gallo também são alvo de mandados de captura.

Operação Radioatividade

A detenção de Temer está relacionada com a Operação Radioatividade, ligada à delação de José Antunes Sobrinho, dono da Engevix (empresa de engenharia), que revelou à Polícia Federal que pagou pelo menos um milhão de reais em subornos, a pedido do coronel João Baptista Lima Filho, ao ex-ministro Moreira Franco com o conhecimento de Temer. A Engevix ganhou um contrato para a construção da central nuclear Angra 3. O coronel reformado da Polícia Militar, assim como a sua mulher, Maria Rita Fratezi, também são alvo de mandados de captura.

Segundo o jornal O Globo, o caso também parte da delação do doleiro (que compra e vende dólares no mercado paralelo) Lúcio Funaro, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Ele contou às autoridades como funcionava o esquema de corrupção no Congresso.

Mas essa não é a única denúncia contra o ex-presidente, que responde num total por dez inquéritos. Temer chegou à presidência a 31 de agosto de 2016, após o processo de impeachment de Dilma Rousseff, de quem foi vice-presidente. Ficou no cargo até 1 de janeiro deste ano, quando passou a pasta para Jair Bolsonaro -- que faz 64 anos nesta quinta-feira.

Durante o mandato como presidente, o Ministério Público pediu por duas vezes ao Supremo Tribunal a abertura de processos por corrupção contra Temer, mas o Congresso brasileiro negou sempre autorizar os procedimentos necessários. Todas as acusações ficaram, por isso, pendentes do fim da imunidade de Michel Temer, o que aconteceu quando deixou a presidência.

Reações

O vice-presidente brasileiro, Hamilton Moutão, já comentou a prisão de Temer: "É muito ruim ter ex-presidente preso. Agora é esperar as investigações."

O Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de Temer, lamentou a sua detenção, criticando o que afirma ter sido a pressa da justiça. "O MDB lamenta a postura açodada [apressada] da justiça à revelia do andamento de um inquérito em que foi demonstrado que não há irregularidade por parte do ex-presidente da República, Michel Temer, e do ex-ministro Moreira Franco", afirmou o partido, em comunicado.

"O MDB espera que a justiça restabeleça as liberdades individuais, a presunção de inocência, o direito ao contraditório e o direito de defesa", conclui a mesma nota.

Já o Partido dos Trabalhadores, de Lula, emitiu uma nota a dizer esperar que as detenções "tenham sido decretadas com base em fatos consistentes, respeitando o processo legal, e não apenas por especulações e delações sem provas, como ocorreu no processo do ex-presidente Lula e em ações contra dirigentes do PT".

(Notícia atualizada às 18:21)

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