Espanhóis avisam partidos: desta vez tem de haver governo

Seis meses após as legislativas inconclusivas de 20 de dezembro, espanhóis preparam-se para repetir voto no dia 26 e criticam qualidade e incapacidade dos seus políticos

Ángel Ramírez vai jogar todas as tardes às cartas num dos parques do seu bairro, Vallecas, que durante o franquismo chegou a ser apelidado de "pequena Rússia". Só a chuva impede que este madrileno de 80 anos fique em casa e perca uma divertida partida com os amigos. Ficou viúvo há 10 anos e gosta de passar o tempo perto dos seus, tanto vizinhos como familiares. Ángel votou em muitas ocasiões no PSOE, mas nas eleições legislativas de 20 de dezembro votou no Podemos e esperava um melhor resultado da formação de Pablo Iglesias. "Isso era o que o meu neto afirmava" enquanto os meus amigos "pensavam que estava doido por votar no homem do rabo-de-cavalo", explica o octogenário ao DN entre risos. "Depois de seis meses sem governo fiquei desiludido com este partido, pensava que iam dialogar mais e não gostei nada que agora se apresentem coligados com a Esquerda Unida", desabafa e confessa que decidiu voltar a votar no PSOE. "Os seus deputados têm melhor imagem, vimos cada coisa no Parlamento... Espero mesmo que o meu neto não fique chateado comigo". Para Ángel é fundamental que "Espanha tenha um governo o quanto antes. Podemos viver sem ele, sim, mas tenho a certeza de que vamos pagar as consequências desta paragem".

Os espanhóis voltam às urnas no dia 26 depois de seis meses de diálogo sem frutos entre os diferentes partidos do país. Políticos e cidadãos coincidem numa coisa: os partidos estão obrigados a negociar para evitar umas terceiras eleições. Mas é evidente que por muito que os políticos tentem disfarçar, os cidadãos espanhóis ficaram desiludidos com os partidos e com os seus líderes e seguem estas segundas eleições com menos interesse do que as primeiras. Celia Peñas, estremenha, de 40 anos, vive em Madrid e trabalha na área da cooperação internacional. No escrutínio anterior viveu muito de perto a campanha, "interessada nas mudanças". Desta vez, assume, perdeu o interesse. "Segui os diálogos dos líderes mas quando reparei que todos tinham posturas tão rígidas e comportamento de crianças, desliguei bastante da política". Celia esteve no movimento 15-M na Puerta del Sol. "Partilho muitas ideias do Podemos, sobretudo a defesa da participação cidadã na política", sublinha a antiga eleitora da Esquerda Unidade. O facto de este partido e o Podemos se terem coligado para estas eleições "torna a escolha mais simples". Afirma que os políticos "estão obrigados a entender-se porque os espanhóis não vão aturar mais meses assim". Ela defende qualquer coligação: "pela diversidade de opiniões, é sempre positivo".

A opinião de Pedro A. é bastante diferente apesar de coincidir no sentimento de desilusão pela situação que o país atravessa. Há 33 anos que trabalha no mercado de Chamartín onde tem uma pequena loja de produtos de higiene. Mostra-se muito preocupado com um possível governo que inclua forças radicais como o Podemos. "Esperava uma grande coligação entre PP, PSOE e Ciudadanos, acho que é o melhor para o país". O que falhou para conseguir tal acordo? "Os líderes, Mariano Rajoy e Pedro Sánchez, tornaram impossível consegui-lo, era um momento de mudança". No dia 26 espera resultados muito parecidos aos de dezembro mas adverte para a mais do que provável "subida de abstenção devido ao desencanto das pessoas". Acredita numa nova vitória do PP, por magra vantagem e obrigada a negociar. "Desta vez acho que Sánchez vai sentir-se obrigado a chegar a um acordo por causa da pressão dentro do seu próprio partido".

Para Mónica Ameixeiras, uma galega de 43 anos, "devia ter-se evitado esta situação porque o resultado vai ser o mesmo, nenhum partido vai conseguir apoio suficiente para governar sozinho". Mónica trabalha num organismo público e gosta de acompanhar a situação política que se vive em Espanha. Sentada numa esplanada da Castellana, à espera de uma amiga para almoçar, comenta ao DN que os líderes políticos espanhóis "se dedicaram mais ao jogo do poder do que a resolver a situação de bloqueio. Defenderam os seus interesses". Durante a anterior campanha eleitoral "todos falaram de diálogo e tolerância mas fizeram o contrário". Ainda não sabe se vai alterar o voto: "ou confio nos mesmos o me abstenho". Este impasse no país "serviu para demonstrar que no dia-a-dia um governo não é tão importante, mas reconhece que na política de fundo e noutras questões fundamentais o país está paralisado". Tem dúvidas do verdadeiro preço que ainda vai pagar Espanha por esta paragem.

"Espero que os espanhóis não desanimem e vão às urnas a 26", afirma Manuel López, de 43 anos, pai de três filhos. Lembra que nestas eleições "há muito em jogo" e por isso "não deve ser um voto de castigo, como em dezembro, mas sim um voto responsável". Sem revelar o partido em quem depositou a sua confiança, afirma não ter decidido ainda se vai alterar a sua intenção de voto. Espera que desta vez haja um acordo. Como pai de família numerosa que é mostra-se preocupado pela segurança dos seus mas garante que a longo prazo o que preocupa é também a regeneração política de Espanha.

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