"Erdogan disse que podíamos passar, por que disparam os gregos?"

A chantagem da Turquia com a UE, abrindo a fronteira como forma de pressão para obter auxílio na guerra contra a Síria, levou os refugiados a acreditar que o caminho estava aberto. De 10 a 13 mil descobriram a mentira sob os disparos de gás lacrimogéneo das autoridades gregas.

O homem tem a boca e nariz protegido com uma gola e os olhos aflitos na criança que segura nos braços, os pequenos pés nus pendurados como se tivesse acabado de sair da cama. Atrás, uma mulher puxa uma mala de rodas lilás enquanto tapa o rosto com um cachecol. No chão, meadas de arame farpado, lama, lixo.

A imagem é de sábado, na fronteira entre a Turquia e a Grécia, em Pazarkule, e foi publicada no El País este domingo. Ilustra uma reportagem feita junto dos refugiados que, perante o anúncio pelo governo turco de que poderiam passar, acorreram aos milhares. Mais de 10 mil, segundo as autoridades gregas, tentaram fazê-lo no último dia de fevereiro e encontraram pela frente uma barragem de gás lacrimogéneo. Alguns foram feridos pelos projéteis lançados pelos gregos.

"Não tinham aberto a porta? Erdogan disse que podíamos passar. Por que disparam os gregos?" A pergunta é atribuída peloEl Paísa um sírio, Abdulhakim, que com quase 70 anos fugia do gás lacrimogéneo.

Como os outros milhares, Abdulhakim recebeu a notícia que na sexta-feira se espalhou por Facebook, grupos de WhatsApp, SMS, telefone: iam finalmente poder entrar. Houve até, escreve o El País e o New York Times corrobora, autocarros grátis para transportar os esperançados até à fronteira com a Grécia.

No NYT, as fotos da France Presse que ilustram um artigo publicado no sábado mostram um mar de gente no que parece uma floresta, alguma dela pendurada em árvores, crianças ao colo de adultos, algumas mulheres, sobretudo homens jovens que olham, cansados, expectantes.

Estes dez a 13 mil refugiados que tentaram a passagem são uma pequena parte dos cerca de 3,7 milhões, sobretudo provenientes da Síria, que a Turquia tem contido nas suas fronteiras no âmbito de um acordo com a UE, que é suposta pagar pelo serviço.

Porém esta semana o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou que o país já não tem recursos para conter tanto refugiado e vai deixá-los tentar entrar na UE. A justificação é de que esta não está a pagar o que acordou, mas a decisão de Erdogan seguiu-se à morte de pelo menos 36 soldados turcos no norte da Síria, onde as suas tropas estão a lutar ao lado dos rebeldes islamitas contra o governo de Bachar el Asad e seus aliados russos. "Que fizemos ontem?", disse Erdogan num discurso em Istambul, transmitido na TV. "Abrimos as portas."

Não foi um gesto clandestino: a TV governamental turca transmitiu em direto o assalto dos refugiados à fronteira grega.

Ordem para atravessar a fronteira

Já na quinta-feira a Reuters tinha citado uma fonte do governo turco dizendo que o governo de Ankara tinha dado ordens para nas fronteiras deixassem de deter os refugiados sírios que quisessem entrar no território europeu por terra ou mar. O porta voz do partido do governo, Ömer Çelik, atribuiu a mudança à "situação": "A nossa política em relação aos refugiados é a mesma de sempre, mas a situação é a que é. Não estamos em posição de continuar a para os refugiados".

Mas o secretário de Estado da defesa grego, Alkiviadis Stefanis, acusou a Turquia, em declarações ao canal de TV grego Skai, de não só não estar a impedir os refugiados de passar, mas a ajudá-los. E a UE assumiu estar a auxiliar a Grécia e a Bulgária (outro país da união que também tem fronteira com a Turquia) no esforço de proteger as fronteiras.

Após um conselho de ministro extraordinário, o governo grego assumiu que o país tinha sido objeto de "uma tentativa organizada massiva de violação de fronteiras." De acordo com o porta-voz governamental, Stelios Petsas, as forças de segurança gregas evitaram no sábado mais de 4.000 entradas ilegais, face à concentração de mais de 13.000 pessoas ao longo da fronteira de 200 quilómetros que separa a Grécia da Turquia. Só 66 dessas pessoas terão conseguido entrar - ou seja, só 66 foram apanhadas já em território grego. "O governo fará o que for preciso para proteger as nossas fronteiras", garantiu Petsas.

De acordo com os repórteres do El País, ao contrário do que se passou na crise de refugiados de 2015, quando a maioria dos que tentaram chegar à Europa eram sírios de classe média com algum dinheiro, os refugiados que permanecem na Turquia são pobres. Estão há meses ou anos no país no limiar da sobrevivência. Um iraniano conta ao diário espanhol que a maioria não tem autorização para trabalhar (só 31 mil refugiados a receberam) e tudo é muito caro: "Alimentos, rendas de casa... Não temos dinheiro para tanto. Só podemos trabalhar ilegalmente, e assim ganhamos abaixo do salário mínimo. É por isso que viemos para a fronteira. Se não nos víssemos a tal obrigados pelas circunstâncias, não o faríamos.".

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