Equipa Trump entre apoio do KKK e suspeitas de xenofobia

Foram ontem conhecidos três nomes da equipa do republicano. O novo procurador-geral, o novo conselheiro de segurança nacional e o futuro diretor da CIA são todos controversos.

As ligações de Steve Bannon, o homem que Donald Trump nomeou seu principal conselheiro, ao alt-right, um movimento de extrema-direita, através do site Breitbart News, que ajudou a fundar, geraram uma onda de indignação entre a esquerda europeia e mundial. Ontem, o presidente eleito, que durante a campanha recusou rejeitar o apoio de David Duke, ex-Grande Feiticeiro do grupo supremacista branco Ku Klux Klan, anunciou mais alguns nomes da sua administração. E logo os jornais americanos vieram destacar as suspeitas de racismo e xenofobia que sobre eles pesam.

A começar por Jeff Sessions, o senador do Alabama ontem dado como garantido à frente do Departamento de Justiça dos EUA. Um dos primeiros membros do Congresso a apoiar Trump durante a campanha, o advogado, de 69 anos, foi um dos principais conselheiros do candidato republicano que agora o deve premiar com o lugar de procurador-geral, lugar que já ocupara a nível estadual, no Alabama.

Mas com o cargo vem o escrutínio e do New York Times (NYT) ao Huffington Post, passando pelo Washington Post, os grandes jornais americanos destacavam ontem o seu currículo de opositor a qualquer amnistia para os 11 milhões de imigrantes ilegais. Mas Sessions não se opõe só à imigração ilegal; opõe-se a toda a imigração, tendo atacado os programas de vistos para trabalhadores estrangeiros nas áreas da ciência, matemática e tecnologia.

Mas são as acusações de racismo que marcam toda a carreira de Sessions. Logo em 1986, quando era um jovem advogado, viu ser-lhe recusado um lugar de juiz federal devido a uma piada em que dissera do Ku Klux Klan que "até gostava deles antes de descobrir que fumavam marijuana". O senador tem-se defendido das suspeitas de racismo, garantindo: "Não sou insensível aos negros". E sublinhou: "O racismo é inaceitável na América. Todos têm de ser tratados de forma justa e objetiva".

Com o entra-e-sai de potenciais membros da Administração Trump na Trump Tower a perturbar o trânsito na Quinta Avenida de Nova Iorque há vários dias, ontem foi dia de mais nomeações virem a público. Michael Flynn, general na reserva e registado no Partido Democrata, deverá ser o próximo conselheiro para a segurança nacional. Aos 57 anos, o homem que terá como principal tarefa manter os Estados Unidos a salvo de um eventual ataque terrorista, lidar com crises políticas ou epidemias de nível mundial como o ébola não esconde a islamofobia no Twitter. "O medo dos muçulmanos é RACIONAL: por favor reencaminhei isto para outras pessoas: a verdade não teme perguntas", escrevia o general na reserva em fevereiro passado. Crítico feroz das elites de Washington que não consegue entender que o "verdadeiro inimigo" é "o islão radical", Flynn chegou a liderar os cânticos "engavetem-na" a pedir a prisão de Hillary Clinton durante os comícios de Trump na campanha.

Segundo o Washington Post, Flynn partilha ainda com Trump a admiração pela Rússia. E em 2015 tornou-se comentador na estação de televisão russa em inglês Russia Today. E na festa de aniversário da emissora financiada pelo Kremlin, em Moscovo, esteve sentado ao pé do presidente Vladimir Putin.

Mantendo-se fiel à escolha de figuras controversas que quebram com o aparelho republicano - a exceção é o seu chefe de gabinete, Reince Priebus, até agora presidente do partido -, Trump deverá, segundo o NYT, nomear Mike Pompeo para chefe da CIA. Formado na academia de West Point, serviu na Europa antes da queda do Muro de Berlim, patrulhando a chamada Cortina de Ferro. Formado em Direito em Harvard, Pompeo trabalhou na indústria petrolífera antes de ser eleito congressista do Kansas, em 2010, quando o Tea Party - um movimento populista que defende a redução da dívida, menos governo e a redução dos impostos - ganhou força no Congresso.

Pompeo ganhou destaque nacional como membro da Comissão da Câmara dos Representantes que investigou o ataque de 2012 ao consulado americano em Bengazi, na Líbia. Na altura foi uma das vozes mais críticas da atuação da então secretária de Estado Hillary Clinton. No ano seguinte, Pompeo gerou controvérsia quando acusou os líderes muçulmanos de serem cúmplices do atentado na maratona de Boston.

"Não vamos a lado nenhum"

Antes desta leva de nomeações, as atenções mediáticas estavam centrada em Steve Bannon e na sua relação com o alt-right. Numa entrevista à rádio NPR, Richard Spencer, o supremacista branco que criou esta abreviatura de "direita alternativa" para designar um grupo solto de pessoas cujas ideias se enquadram tanto no racismo como na xenofobia, antissemitismo, homofobia e antifeminismo, garantiu que com a escolha de Bannon para principal conselheiro de Trump "entrámos pela primeira vez no mainstream e não vamos a lado nenhum". Afirmando-se "muito entusiasmado", o presidente do Instituto de Política Nacional defendeu garantiu que "os europeus é que definem os EUA" e afirmou ser preciso "diferenciar identidade de cidadania".

Questionado se estava a defender a criação de enclaves para cidadãos que não sejam de origem europeia, Spencer disse que não, mas sempre foi lembrando que pessoas de raças diferentes não se costumam dar bem "historicamente".

Na quinta-feira à noite, Carl Higbie, que na campanha trabalhou na recolha de fundos para Trump, foi à FOX News lembrar que há um "precedente" ao plano do presidente eleito para registar os imigrantes vindos de países muçulmanos. ""Fizemo-lo na II Guerra Mundial com os japoneses", sublinhou este antigo SEAL da marinha, referindo-se aos campos de internamento onde cerca de 120 mil japoneses e americanos de origem nipónica foram encarcerados por ordem do presidente Franklin Roosevelt, após o ataque japonês a Pear Harbor.

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