"Todos os países da NATO deveriam aumentar a sua capacidade defensiva"

Presidente da Polónia, em entrevista por escrito, fala do grande sucesso económico do país, das fricções com a UE, dos novos desafios à Aliança Atlântica e até de Ronaldo. Andrzej Duda chega hoje a Portugal para uma visita oficial

A Polónia nos últimos anos tem registado uma taxa de crescimento económico de fazer inveja ao resto da União Europeia. Qual é a fórmula desse sucesso?

É muito fácil. Os polacos são uma nação com um incrível senso de empreendedorismo. Depois da queda do comunismo surgiram milhares de pequenas e médias empresas fundadas, em muitos casos, por pessoas jovens, ambiciosas e muito bem formadas. Pessoas abertas ao mundo, à inovação, ao comércio internacional. Foram, antes de mais, pessoas muito laboriosas. Juntámo-nos à comunidade europeia, usufruímos do apoio dos fundos europeus. Mas devemo-lo sobretudo às pequenas e médias empresas, empresas locais polacas que foram, são e, espero bem, vão continuar a ser o pilar principal do desenvolvimento da economia polaca. Durante a crise económica que recentemente teve lugar na zona euro, os polacos mantiveram o otimismo consumidor, o mercado interno manteve uma dinâmica estável e a própria moeda constituiu um para-choque anticrise. A Polónia é bem conhecida não só pela ótima comida saudável. Produzimos também comboios, autocarros e drones altamente apreciados no mundo. Temos muitos motivos para nos orgulharmos.

Empresas portuguesas como o Millennium BCP e a Jerónimo Martins têm fortes investimentos na Polónia. São bem-vindos mais investimentos portugueses? Em alguma área em especial?

Há pouco tempo o ministro Mateusz Morawiecki apresentou um programa muito ambicioso de desenvolvimento económico para os próximos anos, que deve ser interessante para os investidores estrangeiros, também portugueses. Pretendemos reforçar a nossa indústria de transporte, criar uma forma de "vale aéreo". Mas também dar um novo impulso à indústria farmacêutica. Queria que a Polónia fosse associada a tecnologias modernas. Há mais uma coisa que quero destacar: toda a Europa Centro-Leste devia, com todo o empenho, investir no melhoramento da infraestrutura de comunicação - das ligações rodo e ferroviárias regionais entre o mar Báltico, mar Negro e mar Adriático. Isso vai não somente permitir uma intensificação do comércio nessa parte do Velho Continente, mas também um desenvolvimento das relações económicas com os parceiros globais. Queremos estar mais integrados, para integrar, de forma ainda melhor, o mercado europeu. Isso diz respeito também ao mercado da energia e da economia inovadora.

Como comenta as críticas feitas no Parlamento Europeu de que o novo governo polaco liderado pelo PiS, partido a que o senhor presidente pertenceu, põe em causa os valores europeus, nomeadamente por causa do conflito com o Tribunal Constitucional?

A Polónia é e vai continuar a ser um país democrático de direito. Quanto a isso não há dúvida nenhuma. As opiniões críticas, no entanto, fazem parte do conflito de carácter partidário que - espero bem - irá ser resolvido brevemente. Lembro que esse conflito começou quando a precedente coligação de governo tentou apropriar o Tribunal Constitucional. Se aquela operação tivesse tido sucesso, a atual oposição teria tido no tribunal 14 dos 15 membros. Nesta situação não podemos falar em pluralismo ou na imparcialidade política. A Polónia continua fiel aos valores europeus, sou a garantia disso como presidente. Espero que a oposição tome um diálogo construtivo sobre a relação do tribunal com o partido do governo. Se os partidos chegarem a entendimento, vou ser o seu patrono.

De que forma os dois atuais grandes desafios à União Europeia, a crise dos refugiados e o brexit, afetam a Polónia?

A Polónia não é um país escolhido como destino por um grande número de imigrantes, por isso não estamos, hoje, perante o problema trágico do fecho das nossas fronteiras, mas sim, estamos prontos para a colaboração com os nossos parceiros da UE para resolver esse problema. No entanto, até agora as propostas da Comissão Europeia não são satisfatórias para a Polónia. Opomo-nos ao sistema de quotas e ao recebimento obrigatório de imigrantes porque é contra os direitos humanos. Sim, queremos ajudar todos aqueles que precisam da nossa ajuda. Sublinho, no entanto, o que o Papa Francisco disse há pouco, durante a sua visita à ilha grega de Lesbos, que não se pode tratar os imigrantes como números. Cada uma daquelas pessoas tem nome, rosto, biografia. E tem também o seu livre-arbítrio. Não podemos domiciliá-los e depois mantê-los à força. Se alguma família síria for transportada para a Polónia e mais tarde decidir mudar-se para a Alemanha ou para a Suécia, o que é que as autoridades polacas hão de fazer nesta situação? Não pode deixá-los? A crise migratória vai continuar até ao momento em que nas zonas de guerra reinará a paz. Até ao momento em que as pessoas que sofrem hoje por causa da guerra poderão voltar às próprias casas. Quanto ao brexit: obviamente os cidadãos do Reino Unido vão tomar uma decisão soberana na votação e não é o meu papel sugerir-lhes a escolha. Mas sei uma coisa, o brexit seria muito doloroso para toda a Europa, então também para a Polónia e mesmo para o Reino Unido e seria um tipo de choque. Não somente porque tantos polacos vivem e trabalham no Reino Unido, mas também porque a União sem o Reino Unido seria simplesmente mais fraca. Em termos políticos e económicos. Mas o que inspira os meus maiores receios é a perspetiva do chamado efeito dominó. A União Europeia não está livre de defeitos, é agitada por numerosas crises, mas temos de protegê-la porque em si mesma constitui um valor enorme. É por isso que tanto me entristeceu o resultado do último referendo na Holanda sobre a associação da Ucrânia com a União, porque o seu resultado negativo confirma que no centro da Europa cresce uma onda de euroceticismo com o qual nós não concordamos.

Varsóvia acolhe neste ano a cimeira da NATO. Defende o reforço das despesas militares dos Estados membros para responder ao expansionismo russo?

A Polónia, como membro da NATO, cumpre as suas obrigações ao gastar 2% do PIB em armamento. Sim, acho que todos os países membros deveriam aumentar a sua capacidade defensiva. A cimeira da NATO deveria ter duas prioridades. Primeiro, o reforço do flanco oriental pela presença militar. Segundo - estabelecimento da estratégia de ação para com os desafios do Sul. No que diz respeito ao flanco oriental, a nossa mensagem é clara: o potencial defensor e de surpresa constrói-se pela presença real de forças e da infraestrutura da Aliança em todo o território da NATO. Cada potencial agressor tem de ter consciência de que os membros da Aliança vão ser protegidos de forma eficiente logo desde os primeiros minutos de um eventual conflito. Hoje temos, neste aspeto, fortes garantias políticas, mas queremos que no flanco oriental, tal como noutras partes do território da Aliança, as mesmas sejam reforçadas por uma presença militar quotidiana. É por isso que faço esforços para que no território da Polónia e de outros países da região sejam colocadas forças defensoras da NATO. Mas a cimeira em Varsóvia será uma cimeira de toda a Aliança e tem de ter um carácter universal. A Aliança deveria ajustar-se às novas condições e reagir a todas as ameaças. Por isso espero que também se tomem decisões importantes acerca dos problemas do flanco meridional. Aí, a NATO está presente, mas deveria ter uma estratégia clara de ação.

Sei que possui uma condecoração do Estado português. Que ideia tem de Portugal como nação?

Sim, sou cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Aprecio muito esta distinção. Portugal é para mim sobretudo um país de pessoas orgulhosas da sua rica história. De pessoas que procuram, curiosas do mundo, exploradores incansáveis, com Fernão de Magalhães como o melhor exemplo. É para mim um país das pessoas sempre interessadas no que está além do horizonte. É um país de grande arte e grande literatura. Deixe-me lembrá-lo que o laureado do Prémio Nobel, falecido em 2010, José Saramago foi um escritor excecionalmente conhecido na Polónia. Portugal é também um país com uma visão transatlântica e é o que une os nossos países. Mas há mais uma coisa que temos em comum: o amor pelo futebol... Estou ansioso pela final do Campeonato da Europa em França, e espero que Robert Lewandowski vá provar com o seu jogo que é um jogador melhor do que Cristiano Ronaldo :)

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG