"Hitler pode ter funcionado como inspiração para Rolão Preto"

Com vasta obra publicada sobre temas de história e cultura contemporâneas, João Medina falou ao DN sobre a influência de Hitler no fenómeno nacional-sindicalista.

Como se processou a receção do Mein Kampf em Portugal?

O Mein Kampf não teve grande receção em Portugal, embora tivesse sido traduzido logo em 1934 no Brasil, mas nos catálogos da Biblioteca Nacional portuguesa não há uma única referência a essa edição. Isto não quer dizer que não tivesse circulado entre nós. A primeira edição em Portugal foi só em 1976 pelas edições Afrodite, sem aparato crítico, seguindo-se outras até à mais recente, com uma interessante introdução de António Costa Pinto. Mas não deixou de haver um movimento de simpatizantes em Portugal, mesmo entre o nacional-sindicalismo. Tendo como chefe Rolão Preto, os nacionais-sindicalistas (NS) foram fundados em 1933 e vão opor-se a Salazar, tendo este divulgado, precisamente através do Diário do Notícias, a 29 de julho de 1934, uma nota intitulada "Aos nacionais-sindicalistas", em que explica que o salazarismo não pode aceitar dois movimentos nacionalistas, que aqueles estão a seguir modelos estrangeiros, tomaram o "caminho resvalador da pura agitação política". E ou se dissolvem ou serão considerados "indiferentes ou inimigos".

Mas não eram nazis?

É um movimento que nasce como cisão dos monárquicos do integralismo lusitano, a que pertencia Rolão Preto. Tem um projeto político ditatorial, inspirado nas ideias de Mussolini e entusiasmado com a chegada ao poder de Hitler. No dia em que o presidente Hindenburgo nomeia Hitler chanceler, o Revolução, jornal dos NS, faz manchete com a frase "Hitler no poder!" Mas o que lhes interessa nele não é o chefe antissemita e, provavelmente, nunca leram o Mein Kampf. O que lhes interessa em Hitler é o homem de vontade prodigiosa, a carreira de conspirador, o homem que remodela um partido e com este chega ao poder.

A embaixada alemã em Lisboa não divulgou o livro?

Que tenha conhecimento, não. A embaixada, isso sim, publicou uma revista, A Esfera, até maio de 1945, que tem como um dos principais colaboradores o integralista dissidente e antigo republicano Alfredo Pimenta, que se converte à monarquia e adota uma posição extrema de direita. Pimenta escreve quase todas as semanas e até final da guerra mantém uma certa fidelidade à Alemanha nazi.

As ideias de Hitler inspiraram alguém em Portugal?

Creio que não se pode falar em influência dele ou da obra dele. Como disse, Hitler pode ter funcionado como inspiração para Rolão Preto. Este tinha um bigode semelhante, anda fardado, cria uma cor para o movimento, os NS são também conhecidos como camisas azuis, e tenta criar uma milícia, como as SA de Hitler. Pode falar-se de um desvio fascizante em Rolão Preto, mas não uma identificação com a doutrina hitleriana.

Rolão Preto acaba na oposição.

Logo em 1935, os camisas azuis, aliados a outros membros da oposição, conspiram contra o regime. Desde então até à candidatura de Humberto Delgado às eleições de 1958, o antigo imitador do Führer manifestou-se como permanente opositor à ditadura.

Conheceu e entrevistou Rolão Preto. Como o definiria?

Permita-me uma memória pessoal: tendo eu ido à terra dele, na serra da Gardunha, para o entrevistar para O Jornal, donde resultaria mais tarde o meu livro Salazar e os Fascistas. Salazarismo e Nacional-Sindicalismo, a História de Um Conflito -, Rolão Preto manifestou-me sempre grande simpatia, a ponto de me mandar, de quando em quando, tangerinas e azeite da sua terra. Dei-lhe ainda as provas tipográficas do livro para ler, mas a demora na edição impediu que visse a obra impressa.

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