"É tempo de a ONU se reformar", diz Guterres no juramento

Cerimónia começou com tributo a Ban Ki-moon, que entrega pasta ao antigo primeiro-ministro a partir de 1 de janeiro

Mudança foi a palavra de ordem no discurso de António Guterres, que ontem prestou juramento como nono secretário-geral das Nações Unidas diante da Assembleia Geral, em Nova Iorque. "A ONU deve estar preparada para mudar", defendeu o antigo primeiro-ministro português, dizendo que "é tempo de a ONU reconhecer as suas insuficiências e de se reformar de maneira a funcionar". O ex-alto-comissário para os Refugiados, que sucede a 1 de janeiro a Ban Ki-moon, defendeu como "prioridades estratégicas" as mudanças em três áreas: manutenção de paz, ajuda ao desenvolvimento e gestão interna.

"Eu, António Guterres, declaro solenemente e prometo exercer em total lealdade, discrição e consciência as funções que me são confiadas enquanto servidor público das Nações Unidas, exercer estas funções e pautar a minha conduta apenas tendo em mente os interesses das Nações Unidas, e não procurar ou aceitar, no que respeita às minhas responsabilidades, instruções de qualquer governo ou outra organização", jurou Guterres sob a carta da ONU, perante os olhares do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (o primeiro que abraçou depois) e do primeiro-ministro António Costa.

No discurso de 15 minutos, em que falou em inglês, francês e espanhol, Guterres lembrou que a ONU "nasceu da guerra" e agora tem de estar "para a paz". Nesse sentido, mostrou-se disponível para se envolver "pessoalmente na resolução de conflitos, onde isso trouxer um valor acrescentado, reconhecendo o papel de liderança dos Estados membros", defendendo ainda assim que a aposta deve ser na "mediação, na arbitragem e na diplomacia preventiva".

Quanto à manutenção de paz, lembrou que os capacetes-azuis são muitas vezes chamados a manter uma "paz que não existe", pelo que é preciso uma "reforma global da estratégia" da ONU. E pediu "mais eficácia" e "menos burocracia", dizendo que não pode demorar nove meses a destacar alguém para o terreno: "A ONU tem de ser ágil, eficiente e eficaz." Da mesma maneira, disse ser preciso "comunicar melhor" aquilo que a ONU faz e dar mais espaço aos jovens. Ao nível interno, prometeu paridade de género - Guterres foi eleito num ano em que havia pressão para se nomear uma mulher da Europa da Leste - nas nomeações para os altos cargos.

Depois da cerimónia, Guterres falou aos jornalistas, tendo sido questionado sobre o futuro presidente dos EUA, Donald Trump. "O fundamental é ter um discurso muito aberto e muito franco, tendo em conta que os interesses dos EUA, que lhes compete defender, podem ser compatibilizados com os interesses globais que as Nações Unidas se propõem defender", disse.

Sobre o que pode fazer o secretário-geral no caso de um conflito como a Síria, disse que o seu papel é o de, "tanto quanto possível, aproximar posições, ser um fio condutor, um catalisador e estar permanentemente em diálogo com todos para os fazer compreender que, efetivamente, neste momento, todos estão a perder", concluiu.

O presidente português também falou com os jornalistas depois da cerimónia, dizendo tratar--se de um dia de "unidade nacional" e felicitando Guterres. "Mais nenhum português teria conseguido este êxito que não é um êxito nacional, é um êxito universal", disse Marcelo, ao lado de António Costa. O primeiro-ministro destacou no Twitter que "os desafios de António Guterres como secretário-geral da ONU serão grandes, mas quanto maiores os desafios, maiores se revelam os homens".

Adeus de Ban Ki-moon

Antes do juramento de Guterres, a Assembleia Geral despediu-se de Ban Ki-moon, que esteve dez anos no cargo de secretário-geral. "Sou uma criança das Nações Unidas. A sua comida alimentou-nos, os seus livros ensinaram-nos", disse, referindo-se à presença da organização na Coreia do Sul após a guerra com o Norte. O sul-coreano lembrou que "o poder da ONU nunca foi abstrato ou académico" para ele. "É a história da minha vida", disse, indicando que a "apreciação profunda" que sente pelo organismo "tornou-se ainda mais forte todos os dias" do seu serviço.

"Mesmo quando me preparo para sair, o meu coração fica aqui", afirmou, dizendo passar o testemunho a Guterres, "um homem de integridade e compaixão". E terminou desejando "paz, prosperidade e grande sucesso". A Assembleia Geral aplaudiu-o de pé. Antes do discurso, aprovara uma resolução de tributo "pelo contributo excecional para o trabalho da organização e as suas realizações em melhorar a vida das pessoas e proteger o nosso mundo para futuras gerações e em promover e proteger os direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, no interesse de um mundo mais seguro".

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