E o Rio elegeu mesmo um bispo da IURD para prefeito

Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, é engenheiro civil, cantor gospel, ex-missionário em África e senador. Foi ministro de Dilma, agora apoia Temer. Com fama de conciliador, tem, porém, um passado radical

Marcelo Crivella, o novo prefeito do Rio de Janeiro, nasceu na Cidade Maravilhosa há 59 anos numa família descendente de italianos e de migrantes nordestinos católicos. Porém, como o irmão da mãe, Edir Macedo, fundou em 1977 a evangélica neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Crivella passou a frequentá-la e chegou a bispo. E é esse o lado mais comentado e controverso do prefeito carioca eleito.

De "fala mansa", como sublinham os colegas no Senado, para o qual se elegeu e reelegeu em 2002 e 2010, Crivella tem, porém, um passado de intolerância para com homossexuais e credos religiosos africanos comum a outros bispos da igreja do tio. Esse lado foi trazido à tona durante a turbulenta campanha eleitoral, que terminou domingo à noite com o seu triunfo, com quase 60% dos votos, sobre o candidato de extrema-esquerda Marcelo Freixo.

Num livro escrito enquanto missionário da IURD em África, classificou a homossexualidade de "conduta maligna" e as crenças africanas de "diabólicas". Confrontado, pediu "perdão" a quem ofendeu e atribuiu as frases "aos excessos de um jovem missionário". Tinha 42 anos na altura. Anos depois, diria numa pregação, com um intuito aparentemente apaziguador, que os seus fiéis deviam desculpar os gays, pois provavelmente seriam "fruto de um aborto malsucedido". E anos antes, quando, como engenheiro recém-formado, foi responsável pelos projetos de construção de templos da IURD, chegou a ser detido ao tentar recuperar um terreno da igreja. A ficha criminal de Crivella foi divulgada na capa da revista Veja durante a campanha.

Crivella, que rejeita Charles Darwin e se define como criacionista, tem também destacada carreira como cantor gospel - lançou 14 discos, vendeu mais de três milhões e ganhou um Disco de Diamante com Mensageiro da Solidariedade, de 1999.

Na política, em cujo mundo entrou por determinação da IURD, foi eleito senador pelo Partido Republicano Brasileiro, considerado o braço político da Universal, mas perdeu três eleições para prefeito do Rio e uma para governador do estado antes da vitória de domingo. As suas posições têm sido ambíguas: foi ministro da Pesca de Dilma Rousseff - "só fui convidado por ser casado com uma sereia", disse a propósito, numa declaração de amor à mulher, Sylvia Jane, com quem tem três filhos - mas faz agora parte da base de apoio de Michel Temer. Já elogiou em público o Partido Comunista do Brasil, por, defende, ter pontos de contacto com "o evangelho", mas também o ex-presidente José Sarney, o cacique conservador que governou durante décadas o miserável Maranhão. Como a sua ligação à IURD foi o mote da campanha do seu último adversário - e de todos os outros contra quem concorreu na carreira política -, Crivella costuma repetir: "Sim, fui bispo, mas também fui surfista, engenheiro, cantor, escritor, oficial do exército, ajudante de escritório, taxista, senador e professor universitário, tenho muitas facetas, não só uma."

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