"É o autarca? Deixou-me a morrer de sede e deixou entrar 200 refugiados"

Presidente da Câmara de Altena foi esfaqueado pela sua política pró-refugiados quando estava num restaurante de kebabs

O presidente da Câmara de Altena, no estado da Renânia do Norte-Vestefália, prometeu ontem continuar o seu trabalho a favor dos refugiados, após ter sido esfaqueado por causa das suas políticas de acolhimento. "É o autarca? Deixou-me morrer de sede e deixou entrar 200 refugiados em Altena", disse o atacante de Andreas Hollstein, antes de lhe fazer um corte de 15 centímetros no pescoço. "Temi pela minha vida", confessou o político do partido de Angela Merkel.

O ataque ocorreu na segunda-feira à noite, quando Hollstein estava num restaurante de kebabs. Numa conferência de imprensa, ontem de manhã, surgiu com o penso no local onde foi atingido, agradecendo aos donos da loja terem ajudado a travar o atacante, um alemão de 56 anos que estaria embriagado. "Sem eles não estaria aqui hoje", afirmou. O responsável, que criticou a política de refugiados de Hollstein, foi detido e acusado de tentativa de homicídio. "As forças de segurança partem do princípio de que se trata de um ataque com motivos políticos", disse o chefe do governo do estado, Armin Laschet.

"Estou horrorizada com o esfaqueamento do autarca Hollstein e muito aliviada de que já possa estar de novo com a sua família. Obrigada a todos os que ajudaram", afirmou a chanceler Angela Merkel, citada pelo seu porta-voz no Twitter. Hollstein é membro da sua Coligação Democrática Unitária (CDU) e, sob a sua liderança, Altena recebeu 370 refugiados - mais cem do que a quota que lhe cabia.

Há poucos anos, a cidade estava em declínio, com grandes empresas a deixarem a região e o desemprego a crescer. Desde 1970, um em cada três residentes tinha saído da cidade, que resolveu apostar na reorganização e na reconstrução para dar a volta à situação. Hollstein está desde 1999 à frente dos destinos de Altena, galardoada em maio com o Prémio Nacional de Integração. Na cidade, cada refugiado está diretamente em contacto com um voluntário local e não ficou alojado em contentores ou ginásios, mas em casas normais. Os voluntários também garantiram aulas de alemão, ajudaram a renovar os apartamentos e a procurar o mais rapidamente possível um emprego.

Atualmente, vivem em Altena cerca de 17 mil pessoas - quase 400 são refugiados da Síria, Afeganistão, Iraque e Eritreia, que chegaram após a crise migratória de 2015, graças à política de portas abertas de Merkel, que permitiu a entrada de um milhão e meio de pessoas. Este não é o primeiro ataque contra políticos que apoiam a integração dos refugiados. Em outubro de 2015, na véspera das eleições municipais, a independente Henriette Reker foi esfaqueada no pescoço por um atacante que criticava o afluxo de refugiados. Apesar de ter ficado gravemente ferida, seria eleita presidente da Câmara de Colónia. "O ódio e a violência não são a solução: são o problema", afirmou ontem Reker.

A política de portas abertas de Merkel continua a ser alvo de críticas por parte de um setor da sociedade alemã (apesar de a chanceler a ter endurecido em 2016) e está na origem do crescimento da extrema-direita - nas eleições de 24 de setembro a Alternativa para a Alemanha (AfD) entrou pela primeira vez para o Bundestag, elegendo 94 deputados. A CDU de Merkel perdeu 65 deputados em relação às últimas eleições (terá 246 representantes) e tenta chegar a um acordo de governo que lhe permita governar em maioria. Martin Schulz, líder do SPD (153 deputados), parece disposto a negociar, apesar de num primeiro momento se ter mostrado contra a Grande Coligação, que Merkel quer repetir.

Na campanha, o tema dos refugiados dividiu os dois partidos: a CDU quer limitar o número de entradas a 200 mil por ano, mas o SPD é contra impor um limite. Contudo, a questão que nesta semana irritou os sociais-democratas foi o voto alemão a favor da renovação por cinco anos do uso do glifosato (um herbicida) na União Europeia. A chanceler repreendeu o ministro da Agricultura, Christian Schmidt (da sua aliada bávara CSU), que quebrou a título pessoal a disciplina de voto - a ordem era para se abster (como fez Portugal). A ministra do Ambiente, Barbara Hendricks (SPD), criticou o colega e defendeu a necessidade de "sarar a perda de confiança".

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