Do México para Portugal por amor, com a tradição de emigrar no ADN

Yoann Nesme, engenheiro e sócio fundador de uma plataforma de crowdfunding, aterrou em Lisboa em 2004 e desde então ficou por cá

Yoann Nesme trocou a Cidade do México por Lisboa por causa de Rita, uma portuguesa que conheceu durante um intercâmbio em Barcelona, mas a emigração é algo que já está no ADN do sócio e fundador da plataforma de crowdfunding (financiamento colaborativo) PPL. Afinal, o pai francês, que escolheu dar aulas de Engenharia no México em vez de fazer a tropa, ficou por amor do outro lado do Atlântico. "Ainda viveram um ano em França, mas a minha mãe não se adaptou", conta. Do lado materno, o imigrante tinha sido o avô, que deixou a China natal para se instalar na terra dos astecas. Yoann Nesme não se admirará por isso se um dia os filhos, que ainda têm apenas 2 e 4 anos e meio, trocarem Portugal por outro país do mundo.

"A migração é uma tradição de várias gerações", conta nos escritórios da PPL, na Faculdade de Ciências de Lisboa. Nascido a 24 de agosto de 1981 na Cidade do México, Yoann Nesme estudou no Liceu Francês e logo aos 15 anos fez o primeiro intercâmbio em França. Já estudava Engenharia na universidade, quando quis repetir a experiência com um grupo de amigos. A facilidade da língua e pelo facto de um deles estudar Direito levaram-nos a optar por Barcelona, onde conheceu Rita. "Apaixonámo-nos e decidi vir para Portugal depois de acabar o meu curso de Engenharia no México. Decidi vir tentar a minha sorte. Aterrei em Lisboa em 2004 e desde então fiquei cá", recorda.

Dois anos depois de chegar, e após passar por pequenas empresas, começou a trabalhar para a Microsoft Portugal. Mas o desejo de deixar a área técnica levou-o a fazer o Lisbon MBA em 2011. Seria na pós-graduação conjunta da Universidade Católica e da Universidade Nova que iria conhecer os outros três sócios fundadores da plataforma (dois alunos e um professor). "Gostávamos muito do crowdsourcing, isto é, de recorrer à multidão para fazer qualquer coisa, e decidimos trazer o crowdfunding para Portugal, onde ainda não existia. Achámos que fazia sentido ter uma plataforma em português, com meios de pagamentos portugueses."

A PPL nasceu em 2011 e desde então já conseguiu angariar mais de dois milhões de euros e financiar quase 800 campanhas : "Desde peças de teatro a pequenos negócios, muitos projetos sociais e muitas bandas de música a angariar dinheiro para gravar CD ou autores independentes para editar o seu livro". A ideia é pedir ao público o dinheiro para financiar os projetos, sendo a recompensa uma das filosofias do crowdfunding . A outra filosofia é a do tudo ou nada. "Se não conseguir a totalidade dos fundos para o projeto, o dinheiro é devolvido." A exceção são os projetos sociais, onde se recebe o valor angariado.

"O projeto que conseguiu mais dinheiro foi um do Nuno Markl, que pedia cem mil euros para fazer um filme [Por Ela], um valor muito elevado em Portugal. Só conseguiu 40 mil e por isso não foi bem--sucedido", explica Yoann Nesme. "Nas campanhas de maior sucesso está a de apoio às vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande, que conseguiu 25 mil euros, mas uma revista ecológica também conseguiu angariar esse valor e a Brigada Victor Jara conseguiu cerca de 23 mil euros para editar a discografia completa nos 40 anos do grupo", revela.

Yoann Nesme, que não conhecia Portugal antes de conhecer Rita, diz que Lisboa oferece uma "qualidade de vida espetacular", lembrando que só na Cidade do México "cabem dois portugais" (na região metropolitana da capital mexicana vivem 20 milhões de pessoas). E a mãe, que inicialmente se queixava por ele ter escolhido um país "periférico" e não um dos "grandes" da Europa, "agora já procura casa para vir passar temporadas", até porque a irmã de Nesme também já vive em Portugal. Voltar ao México, onde continua a família, só de férias. "Mas eu tenho uma ligação muito grande ao país e também quero que isso aconteça com os meus filhos, porque eu tenho essa ligação com França, por causa do meu pai. Não me sinto francês, mas sinto ligação a França." Em casa, fala espanhol com os filhos e o mais velho já anda no Liceu Francês. O laço à China do avô também está garantido: "Curiosamente a minha cunhada, que casou com o irmão da Rita, é chinesa."

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