Diplomacia Obama: Havana e Hiroxima não compensam tensão com Moscovo

Aproximação a Cuba, onde em março de 2016 fez a primeira visita de um presidente americano em 88 anos, é maior vitória da presidência Obama. Trump ameaça reverter acordos de Paris e com o Irão

A viragem da América para a Ásia devia ser uma marca da presidência Obama. Mas oito anos depois de o filho de um queniano e de uma americana do Kansas, nascido no Havai, se ter tornado no primeiro presidente negro dos EUA, se a ida a Hiroxima - a primeira de um chefe de Estado americano desde o lançamento da bomba atómica - foi um dos momentos mais emblemáticos dos seus dois mandatos e a aproximação com o Japão é inegável, a Europa não deixou de ser o continente que mais contou com a presença de Obama. Mesmo se só foi duas vezes à Rússia, frente às sete visitas do seu antecessor, George W. Bush. Um sinal talvez da tensão que nunca escondeu com Vladimir Putin.

Em 52 visitas ao estrangeiro, Obama esteve em 58 países, 19 dos quais europeus. A Alemanha, com sete visitas, foi o seu principal destino, à frente de França, com seis visitas, e do Reino Unido, com cinco. Na Ásia, só a Coreia do Sul teve direito a tanta atenção do presidente americano, que esteve cinco vezes no país, mais uma do que no Japão.

A 19 de fevereiro de 2009, menos de um mês após tomar posse, Obama mantinha uma velha tradição, realizando a primeira visita da presidência ao Canadá. Desde 1981, todos os inquilinos da Casa Branca iniciaram as idas ao estrangeiro pelo vizinho do Norte. A única exceção foi Bush filho, que foi ao México.

Não se pense no entanto que Obama descurou a América Latina e Caraíbas. Foram 11 os países daquela região que visitou nos seus dois mandatos. E foi ali que conseguiu talvez a maior vitória da sua diplomacia: a reaproximação a Cuba. A chegada de Obama, da mulher e das filhas a Havana no dia 20 de março de 2016, marcou um momento histórico: a primeira visita de um presidente americano à ilha em 88 anos. E representou o ponto alto de um processo de normalização de relações lançado em dezembro de 2014 por Obama e pelo presidente cubano, Raúl Castro.

Troca de prisioneiros, reabertura de embaixadas, facilidade nas viagens entre os dois países, bem como nas trocas comerciais. Foram vários avanços conseguidos por Obama, que não deixou de apelar ao respeito pelos direitos humanos nos encontros com Raúl Castro.

Mas o embargo, imposto pelos EUA à ilha há mais de meio século, após a revolução liderada por Fidel Castro (o irmão de Raúl que em 2006 lhe entregou o poder por razões de saúde e viria a falecer em novembro passado) continua em vigor. Só o Congresso o pode levantar. E parece pouco provável que a maioria republicana que domina ambas as câmaras venha a fazê-lo tão cedo. Apesar destas reticências, a aproximação dos últimos meses parece irreversível. E a verdade é que o próprio futuro presidente Donald Trump deu sinais contraditórios em relação a Cuba. Por um lado admitiu voltar a encerrar a embaixada americana em Havana, por outro prometeu "renegociar" o acordo para a normalização das relações com a ilha. Mas sem dizer como.

Convidado pelo canal History a olhar para o legado de Obama em termos de política externa, Benjamin Rhodes, conselheiro adjunto para a Segurança Nacional, traçou os maiores sucessos do 44.º presidente dos EUA. "O acordo sobre o clima de Paris, o acordo com o Irão, a abertura a Cuba, a redução drástica do número de tropas no terreno enquanto se manteve a pressão sobre os terroristas, ter abatido Osama bin Laden, chegar aos jovens de todo o mundo, controlar a ameaça do ébola", apontou Rhodes.

Alguns destes sucessos ainda aguardam implementação - como os acordos de Paris sobre o ambiente e o acordo do nuclear iraniano - que Trump pode rapidamente anular. O presidente eleito já disse que pretende desmantelar o acordo com Teerão e, quanto ao de Paris, começou por dizer que o iria "cancelar" mal chegasse à Casa Branca, tendo depois, em entrevista ao New York Times, admitido que vai "olhar para ele de perto".

Com Trump na Casa Branca, também o esforço para uma Parceria Trans-Pacífica estão comprometidos. O novo presidente já disse que se opõe ao acordo comercial que devia unir os EUA a outros 11 países do Pacífico. Parece também pouco provável que Trump venha a dar mais atenção a África, onde Obama visitou apenas sete países, apesar de ser o continente onde o pai nasceu.

Há no entanto relações que podem melhorar com Trump. A começar pela ligação à Rússia. O presidente eleito não esconde a admiração pelo presidente russo, Vladimir Putin, que parece retribuir. Esta aproximação tem, no entanto, sido manchada pela divulgação de um dossier que afirma que Moscovo detém material comprometedor para Trump.

Também em relação a Israel, o novo presidente promete maior simpatia para com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Sem avanços nos últimos oito anos no processo de paz no Médio Oriente, o pico da tensão entre EUA e Israel teve lugar em finais de 2016, quando os primeiros se abstiveram na votação sobre uma resolução da ONU que condenada a expansão dos colonatos.

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