Deputados festejam com Temer, o virtual presidente da República

Em jantar regado, só faltou carregarem o ainda vice em ombros. Segundo contas da Câmara, impeachment já passou os 342 votos.

Horas antes do pontapé de saída na discussão do impeachment ontem de manhã em Brasília, Michel Temer jantava, lá perto, em clima de festa com cerca de 80 deputados favoráveis à destituição da ainda presidente Dilma Rousseff. A convicção da oposição é que os discursos no púlpito da Câmara dos Deputados, por mais inflamados que sejam, as discussões sobre detalhes regimentais dos trabalhos liderados pelo presidente da casa Eduardo Cunha, por mais acaloradas que pareçam, e os cânticos das tradicionais claques que se estabelecem nas bancadas e nas galerias, por mais ensurdecedoras que se tornem, já não terão influência no resultado final da votação: Temer é o virtual presidente da República do Brasil. E conquistou-a no silêncio dos bastidores, onde sempre se sentiu como peixe em água doce.

Por isso, ontem era hora de uma mais do que merecida e faustosa celebração, decidiu o aliado Heráclito Fortes, senador do PSB, com passagem anterior por seis partidos, entre os quais o ARENA, sustento político da ditadura militar, condenado por promoção pessoal com verbas públicas pelo Tribunal de Justiça do Piauí e citado, até, no Wikileaks por solicitar armamento aos EUA em caso de ataque da Venezuela chavista. Fortes convidou então 80 parlamentares para sua casa e discutiu, com pompa, a vitória iminente e a consequente distribuição ministerial dos despojos da guerra contra Dilma, Lula da Silva e o PT.

No entusiasmo produzido pelas taças de vinho, pelos pratos de risotto e pasta e pelas garrafas de whisky, os comensais cogitaram até levantar Temer em ombros - contou um parlamentar, que pediu reserva ao jornal O Globo - mas recuaram para preservar a imagem, sempre cautelosa e penteada, do virtual presidente que ainda será vice, de facto, até o Senado, em meados de maio, ratificar o quase certo triunfo do impeachment na Câmara dos Deputados. Ao longo do dia, enquanto se sucediam os tais discursos, discussões e cânticos no parlamento, toda a gente nos bastidores só fazia a contabilidade dos votos: 344, 346, 350, quem sabe mais, votarão contra Dilma. Ou seja, por Temer.

Na véspera do jantar, o Palácio do Jaburu, residência oficial do número dois, já havia causado engarrafamento de viaturas oficiais no beija-mão ao peemedebista. E horas antes da refeição, uma delegação da bancada evangélica (também conhecida por bancada da Bíblia), cuja esmagadora maioria votará contra o governo, foi à residência dizer ao virtual presidente que rezará por ele. Ao longo do dia de ontem, Temer viajou de Brasília para São Paulo, onde acompanhará, recolhido em casa, a votação. "A vizinhança em São Paulo é melhor do que a de Brasília", disse, sorrindo, um parlamentar, referindo-se ao Palácio de Alvorada, ao lado do Jaburu, onde mora Dilma.

Mas nem só em São Paulo e Brasília se escreve a história do Brasil por estes dias. Também em Curitiba, no sul do país, a Lava-Jato prossegue a investigação do escândalo da Petrobras. Ontem, enquanto alguns dos implicados no escândalo discursavam na Câmara dos Deputados, Marcelo Odebrecht, dono da maior construtora brasileira, iniciava o seu tête à tête com Sergio Moro em delação premiada - a tal que pode abalar ainda mais os alicerces do país.

Manifestações

O primeiro dia de discussão do impeachment, onde Miguel Reale Júnior, subscritor do pedido, repetiu argumentos pela destituição, e José Eduardo Cardozo, advogado-geral da união, voltou a rebatê-los, foi marcado também por manifestações pelo resto do país a favor do governo de Dilma Rousseff.

Os manifestantes cortaram estradas, em capitais estaduais do país, como São Paulo, onde as filas a meio da manhã chegaram a 185 quilómetros, um número não muito distante do recorde da cidade que é 249, registado em 2012, durante greves do metro e dos comboios. Além da maior cidade do Brasil, houve protestos em mais 11 estados. Em Vitória, capital do Espírito Santo, manifestantes em sentido contrário pediram a destituição de Dilma.

São Paulo

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