Democracia e união do país são os reptos do novo rei

Com a morte de Bhumibol, há 70 anos no trono, o país, pródigo em golpes de Estado, perdeu o referencial de estabilidade

O governo lançou uma linha telefónica de emergência para ajudar os tailandeses a lidar com o luto. "Preferia que a morte me tivesse levado a mim", lamenta, citado pelo The Telegraph, um estudante de 23 anos que se deslocou até ao hospital de Siriraj, em Banguecoque, às quatro da manhã, para prestar tributo ao rei que acabara de falecer. Bhumibol Adulyadej ocupava o trono há 70 anos. Morreu na quinta-feira, com 88 anos.

Será substituído pelo seu único filho homem, Maha Vajiralongkorn, que fora designado sucessor em 1972. O príncipe herdeiro, com 64 anos, está longe de conseguir a mesma reverência e afeto que os tailandeses dedicavam ao seu pai. Mais conhecido pela vida de playboy do que pela pose de estado, não será fácil para Vajiralongkorn unir os súbditos em torno da sua figura.

Num país conhecido pela sucessão de golpes de Estado, o falecido monarca tailandês era a grande referência de estabilidade. "O rei é a minha vida. É o meu pai. O meu tudo. Ao longo da vida fez tudo o que podia por nós", sintetiza um professor de liceu da província de Nakhon Sawan, que também se dirigiu à capital para homenagear Bhumibol.

O primeiro-ministro, Prayuth Chan-ocha, instalado no poder desde o golpe de estado militar em 2014, anunciou um ano de luto nacional e pediu que durante 30 dias fossem evitados "eventos festivos".

Durante o seu longo reinado - era o monarca há mais tempo no trono em todo o mundo -, a Tailândia, então conhecida como reino de Siam, evoluiu de um país pobre e baseado na atividade agrícola para uma das economias mais industrializadas da Ásia. A população cresceu de 18 para 70 milhões de habitantes. Em todo este processo, a instabilidade política foi sempre uma constante e Bhumibol manteve-se como o eixo em torno do qual o país se uniu. Uma espécie de porto seguro.

Os tailandeses e muitos analistas temem que a morte do rei possa agudizar as divisões do país. De um lado, as elites dos centros urbanos e as famílias tradicionais. Do outro, as populações rurais e empobrecidas. " Poderá haver turbulência no futuro, principalmente se a economia continuar a afundar e se persistirem os conflitos políticos", explica ao DN, Paul Chambers, professor da universidade de Chiang Mai e especialista em política e monarquia da Tailândia."Os grandes desafios de Vajiralongkorn como novo rei serão unir o país e devolvê-lo à democracia", acrescenta o mesmo analista.

Os últimos anos têm sido, para não variar, bastante turbulentos a nível político. Nas legislativas de 2001, arrebatando 40,6% dos votos, o magnata Thaksin Shinawatra, dono de um império de comunicações, foi eleito primeiro-ministro. As suas políticas económicas e sociais, apelidadas de "populistas" pela revista Foreign Policy, agradaram às comunidades pobres do norte, mas não caíram no goto das elites nem da classe média. Em 2005 foi reeleito, mas, no ano seguinte, um golpe de estado militar afastou-o do poder. Desde então vive no exílio, no Dubai, mas continuam a ser muitos os seus seguidores. As eleições de 2011 foram vencidas pela sua irmã, Yingluck Shinawatra, que resistiu até ao mais recente golpe de estado, em 2014.

A junta militar que conduz o país, liderada por Prayuth Chan-ocha, alterou a Constituição e prometeu a realização de legislativas em 2017. Mas o reino continua dividido e com a morte deBhumibol desaparece o único referente de estabilidade. Está por saber com que habilidade irá Vajiralongkorn gerir a situação. "As suas qualidades estão por provar, mas são vários os episódios pouco abonatórios na sua vida privada", explica Paul Chambers.

O novo rei é visto como próximo de Thaksin Shinawatra, o ex-primeiro-ministro exilado, algo que preocupa as elites. Mas, ao mesmo tempo, nos últimos anos, tal como escreve o Wall Street Journal, "tem vindo a forma uma aliança com os líderes da junta militar" que governa o país.

Nascido em 1952, o sucessor de Bhumibol pediu tempo até assumir a coroa. Quer fazer o luto ao lado do povo. Até que seja entronizado, a regência ficará entregue ao presidente do Conselho Privado - órgão de consulta do rei -, o ex-primeiro-ministro Prem Tinsulanonda, de 96 anos. O príncipe Maha Vajiralongkorn cresceu em colégios privados na Europa e graduou-se como piloto militar no Colégio Militar Real na Austrália.

Em 1977 casou com uma prima em primeiro grau do lado materno, Soamsawali Kitiyakara. Tiveram uma filha, mas o enlace não durou muito. No final dos anos 70, ainda casado, Vajiralongkorn começou a viver com a atriz Yuvadhida Polpraserth. A relação resultou em cinco filhos. Casaram em 1994, mas, mais uma vez, o amor também foi sol de pouca dura. Em 2001 o príncipe herdeiro voltou a subir ao altar, desta vez com uma plebeia que servia na casa real. Veio ao mundo mais uma criança, mas, de novo, os laços romperam-se. Em 2014, Vajiralongkorn mandou prender vários membros da família da mulher por alegados crimes de corrupção e a princesa Srirasmi abdicou do título real. A monarquia tailandesa é uma das mais ricas do mundo, avaliada pela Forbes, em 2012, em 37,5 mil milhões de euros.

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